sexta-feira, 24 de setembro de 2004

Agripina Vieira: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


Angola, o regresso

Angola de novo em António Lobo Antunes. Com uma arquitectura original, já que pela primeira vez, o autor publica um romance constituído por três livros com prólogo e epílogo (regressando e mesclando as técnicas que estão na génese de dois romances da década de 90: Tratado das Paixões da Alma e A Ordem Natural das Coisas), Boa Tarde Às Coisa Aqui Em Baixo – com 574 páginas – constitui-se como o regresso singular e pungente a uma das temáticas essenciais da obra antuniana, Angola.

O título, extraído de um texto de Enrique Vila-Matas citado em epígrafe ao corpo do romance, apresenta-se desde logo como um enigma. Esta frase, tradução da saudação de Larbaud, “Bonsoir les choses d’ici bas”, assim como o texto em que se insere têm a particularidade de atrair a nossa atenção para a linguagem, o seu poder mas simultaneamente as suas limitações, levando-nos a verificar que a força das palavras reside tão só na composição que com elas é criada e que por vezes a linguagem mostra-se incapaz de reproduzir os objectos e o mundo que nos rodeia. Ao longo do texto, vamos reencontrando insistentemente essa preocupação com a palavra, que leva algumas personagens a questionarem-se vezes sem conta “será que remendo isto com palavras ou falo do que aconteceu de facto?”, sabendo de antemão que, ao Serviço – para o qual trabalham – como à generalidade das pessoas, apenas interessa a versão mais favorável dos acontecimentos. Por analogia, esta citação chama igualmente a nossa atenção, para o trabalho do próprio escritor, já que ele é, por excelência, o grande obreiro das palavras, particularmente este autor. Com efeito, esta problemática ganha uma outra dimensão quando falamos da obra de António Lobo Antunes, o seu trabalho com a língua é particularmente notável. Os caminhos da escrita por ele encetados na década de setenta conduziram-no até este romance. Um texto de uma grande depuração e rigor, onde cada palavra foi pensada e escolhida pela força das imagens que à sua volta irradiam, convidando o leitor a penetrar no universo perturbado e perturbante de homens e mulheres comuns, sem grandes defeitos nem virtudes particulares, que vêem as suas vidas manipuladas e destruídas por uma máquina institucional que nem tentam contrariar.

Situando os acontecimentos narrados no período da pós-descolonização, é ao espaço que cabe o papel fulcral da organização diegética. Com efeito, é Angola que vai unir Seabra, Migueis, Morais, Gonçalves, Tavares (funcionários governamentais portugueses, agentes dos Serviço, ou militares) e Mariana (a mestiça angolana), unificando dessa forma a trama do romance. Os destinos dos agentes de espionagem, homens simples e anódinos, nos antípodas do herói, estão tão marcados quanto os dos toiros lidados na praça situada frente aos escritórios do Serviço no Campo Pequeno, destinos que se confundem e se fundem de tal forma que cada nova entrada de toiro na arena coincide com o aparecimento de um novo agente para substituir aquele que antes de si falhou – “um segundo toiro idêntico a mim” nas palavras de Seabra. No escritório são “lidados” pelos superiores hierárquicos: “ao confortar-me o ombro o director colocou a fitinha em mim, o responsável do oitavo andar quando palpei o osso, quando mugi/ - Tem comichão Seabra?”, as páginas com as ordens de serviço metamorfoseiam-se em trapos coloridos que os espicaçam, “os bicos de caneta que em vez de sublinhar parágrafos (…) incomodavam a garupa”.

Cada livro veicula focalizações diegéticas diferentes, narrando os acontecimentos referente à viagem de um novo agente a Angola, viagem condenada à incompletude porque sem regresso “da mesma forma que nenhum toiro torna à camioneta em que veio”. Enquanto que nos dois primeiros livros, surge com evidência um ponto de vista dominante, respectivamente o de Seabra e o de Migueis, no terceiro livro o leitor vê-se perante uma pulverização de olhares e de vozes narrativas, não só os do agente de espionagem, Morais ou Borges – (o leitor nunca saberá a verdadeira identidade do terceiro agente uma vez que lhe entregaram “um passaporte com outro nome”), mas igualmente a dos membros da coluna militar que sucessivamente vão tomando a palavra dando conta da sua forma particular de ver o mundo, dos valores que norteiam as suas opções. Estes três homens (Seabra, Migueis e Morais ou Borges) vão sendo sucessivamente incumbidos de uma tarefa delicada e secreta. A sua missão consiste em contrabandear diamantes, recuperando e trazendo para Portugal as pedras preciosas roubadas que não puderam ser enviados atempadamente para o território nacional e que o Serviço descobriu estarem na posse de Marina. À medida que um falha é substituído pelo seguinte, partilhando todos o mesmo destino fatal, que os inibe de regressar a Portugal, ficando na fazenda angolana: o Seabra assim como “o seu sucessor e o sucessor do seu sucessor”.

Mais do que as peripécias inerentes a tais buscas, o que se constitui como o cerne dês te romance é a incursão na existência destas personagens, a descoberta dos seus medos, das suas obsessões, das suas frustrações, dos seus anseios. “Descoberta” é aliás a palavra-chave quando se fala da produção antuniana e dos caminhos de leitura pelos quais o seu leitor se vê levado. António Lobo Antunes de uma forma exímia e fascinante as técnicas discursivas que dão corpo ao romance, desafiando o seu leitor a entrar num jogo interpretativo, embrenhando-o no universo intimista das personagens. Paulatinamente, vamos descobrindo as razões que ditam as curiosas atitudes de Seabra (este homem solitário que vive com a sua velha mãe, igualmente só, mulher obcecada pelo alinhamento perfeito e simétrico das franjas do tapete da sala), as causas que explicam os traumas de Tavares em relação à sua altura (casado com uma mulher mais alta do que ele transforma-se na chacota da família, por isso escolhe uma amante com quem possa passear sem complexos), os receios de um dos militares da coluna que deambula pelo capim angolano que, embora ferido, o obrigam a afirmar insistentemente “Estou bom” para não ser eliminado pelos seus companheiros em fuga, os motivos que levam Mariana a denunciar o seu esconderijo a esses homens que vieram em sua perseguição. E o que nos parecia estranho ou invulgar vai ganhando sentido: Migueis – a personagem que desperta em nós uma imediata antipatia pelo seu machismo exacerbado – suscita agora a nossa compreensão (traumatizado por uma relação difícil com os seus pais não consegue realizar-se no seu próprio casamento), aquelas frases misteriosas e obsessivas que pontuam de forma recorrente o texto desvendam o seu propósito. Nomeadamente a frase que se constitui como leitmotiv do Prólogo: “Esta era a casa”, que nos transporta do presente veiculado pelo deíctico, para o passado do verbo. Ao presente das ruínas (metonímia do estado a que o país se vê condenado) corresponde um passado de ordem e norma. Ao longo do texto, as questões políticas e sociais vão surgindo de forma diluída, inscrevem-se em filigrana na diegese na medida em que condicionam a vida das personagens.

Como se depreende desta breve apresentação de um romance tão rico quanto este, e na esteira da produção anterior, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo alicerça-se pelo poder da fragmentação, da recorrência e do não dito. Em nenhum momento da nossa leitura, estaremos na posse de um entendimento conclusivo. Vamos construindo-o à medida que entramos na existência de cada personagem, que descobrimos as suas dores, os seus temores, as suas angústias. Este trabalho de leitura é simultaneamente uma construção de sentidos e um desvendar de mistérios, onde cada leitor empreende o seu caminho de leitura, deixando-se conduzir pelo pulsar das palavras, pela cadência da frase (ora longa ora curta), pelo ritmo do discurso.

Poder-se-ia pensar que estamos perante um livro triste e até trágico onde as personagens apenas se submetem a um destino previamente traçado, embora totalmente desconhecido do leitor. Bem pelo contrário, uma verdadeira sensação de felicidade apodera-se de nós a cada descoberta realizada, a cada peça que colocamos deste mosaico que é o Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. O diálogo com o livro estende-se, para nosso prazer, ao conjunto da obra e ao seu criador, que nos desafia a entrar no seu mundo ficcional e autoral, fazendo-nos partilhar os seus pensamentos pelo viés de um monólogo interior que, sem qualquer indicação textual ou tipográfica, irrompe na trama ficcional fazendo-nos oscilar entre a efabulação e a referência factual. São momentos de grande partilha, aqueles em que o autor questiona a suas opções de escrita e se põe em causa, como no seguinte passo “quem me conta esta história, quem narra isto por mim?/ uma traineira não, nem pássaros, nem mulatas que te melhorem o capítulo António, acordas com o romance, adormeces com o romance (…) esta narrativa que mais do que as outras se tornou uma doença que te gasta e de que não sabes curar-te, pode ser/ vá lá experimenta” ou ainda nesta pergunta a meio caminho entre o sarcástico e o divertido, numa clara alusão ao seu romance anterior, Que Farei Quando Tudo Arde?: “(deste-te bem com os pavões noutro livro?)”.

Ler António Lobo Antunes é mais do que acompanhar as peripécias da vida das personagens, é mais do que ler uma boa história, é deixar-se embrenhar no mundo de efabulação criado, é entrar no jogo do autor na tentativa de descobrir para partilhar, com ele, os seus caminhos de criação.»


por Agripina Vieira
em Jornal de Letras, edição 862
15.10.2003

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