quinta-feira, 23 de setembro de 2004

Hege Steinsland: sobre A Morte de Carlos Gardel


Magistral história sobre o vazio, pelo mais importante modernista português

A Morte de Carlos Gardel é o terceiro livro da trilogia de Lisboa do português Antunes traduzido para norueguês... Ler o romance é como entrar num buraco negro, onde apenas se encontra doença, morte, ódio, cinismo e amargura. Como nos outros dois romances, a acção localiza-se num bairro de Lisboa do nosso século [séc. XX].O tango ocupa o lugar central na vida de várias personagens do livro. o protagonista Álvaro, amargurado porque a sua mulher o deixou, (...) é incapaz de amar, amargurado e cínico, um rosto sem feições. A sua única razão de viver é o tango de Carlos Gardel. Nunca há romantismo ou calor humano entre as personagens, penas irritação e momentos de sofrimento sem fim...

... O que mais fascina nos romances de Antunes é a linguagem. É espantoso como ele  consegue tornar o romance claro e nítido, mesmo abordando vários acontecimentos no mesmo parágrafo... Os pensamentos saltam elegantemente de um plano temporal para outro. Outras frases são utilizadas repetidas vezes. É uma forma de stream-of-consciousness... Além da corrente de pensamentos, que flui naturalmente, os narradores fazem associações que conferem ao romance uma expressão poética e rica em imagens...

De facto, a leitura deste romance é uma labuta, devido ao estilo labiríntico e ao conteúdo triste. Mesmo que o tom cínico e sombrio da descrição das personagens não seja do meu agrado, fiquei impressionado com a obra de um artista linguístico, um autor modernista, que é mencionado pelos críticos como digno do Nobel da literatura...

A mensagem deste romance pode ser descrita como dever amar e ser amado com respeito, mesmo que a história da vida das personagens conte o contrário:  a frieza, o sentimentalismo e o vazio.

por Hege Steinsland
1995
Noruega
(citado do site do Instituto Camões)

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