sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Nuno Barbosa: Comentário - A Morte de Carlos Gardel


"Deus me livre de gostar das pessoas."

A frase é da pertença de Joaquim, uma das personagens deste livro. Poder-se-ia afirmar que qualquer uma das figuras que desfilam perante o leitor não o faz.

Não é que elas até não queiram amar, o facto é que não o são capazes: "a minha mãe e eu não nos abraçávamos, que patetice, não era um filme, era a vida tanto quanto me lembro não nos abraçámos nunca, se era preciso um beijo encostávamos a bochecha uma à outra, beijávamos o ar e ela abria logo uma caixinha de tartaruga e recompunha a maquilhagem, ao meio-dia."

Sempre expectantes de algo mais, procuram agarrar-se a qualquer coisa, a qualquer foco de aparente conforto, a uma promessa débil de companhia, de modo a combater o que realmente mais os aterra - estarem sós, viverem sós, acabarem sós - acabam por preencher o vazio com o que têm mais à mão: "e pouco me importa a opinião da Dona Silvina e da minha prima, e das minhas amigas, sobre se o Álvaro gosta ou não gosta de mim, pouco me importa que me supliquem que me separe dele e, para ser completamente sincera, pouco me importa se me ama dado que (...) não suporto a ideia de não encontrar ninguém na sala mesmo contrariado, mesmo sem fazer amor comigo, mesmo sem conversar, mesmo sacudindo-me quando venho do quarto, não suporto a ideia de uma única toalha na banheira, de um único prato na mesa, de uma única escova de dentes no copo."

O que resta ao ler a palavra FIM é uma incómoda sensação de frustração, visto não haver nem uma situação em que a amargura não se imponha, em que a dor não esteja presente, em que o cansaço não seja tónica dominante.

Assim, necessariamente, não é de estranhar sermos confrontados com afirmações desta natureza: "o casamento no fundo é isto, duas pessoas sem alma para cozinhar e nada para dizer partilhando peúgas em detergente e frangos de churrasco".

A ausência de um sentimento forte e vivificador, de uma união que surge porque as pessoas que se interessam e não por interesse, leva inevitavelmente à fadiga, ao enfartamento eventual do outro e ao suplício da convivência, sintomático na procura de outros (salvaguardando mais ou menos a permanência do poder sempre regressar a), no afastamento gradual e, muito importante, na indiferença.

Esta sim, a verdadeira assassina, a causa da mágoa, a operadora da transformação das pessoas em algo como objectos, desinteressantes, monótonos, prescindíveis até: "- Vai-te embora desta casa como quem decidiu mudar os sofás ou as cortinas das janelas".

Afinal, o sofrimento é a condenação destes seres fracos, incapazes de revolta, de uma insurreição cobarde ou meramente projecto ("eu a feri-la ferindo-me"; "apetecia-me bater-lhe como se me batesse"), sem a vida, a força, ou a pujança de um Carlos Gardel ("e o Álvaro limpava um disco com a escovinha, colocava-o no prato, premia um botão, Carlos Gardel começava a cantar, e ele - Se eu fosse capaz de um grito assim era feliz"), sendo afinal eles quem o assassinavam e não a queda do avião em que seguia.

António Lobo Antunes, implacável, dá-nos a conhecer uma família e os que em seu torno gravitam, num retrato árido e cruel, que leva o leitor, pelo menos, a repensar as relações entre os homens num Portugal prestes a entrar no século vinte.

Fica, então, o desânimo/pessimismo (?) do autor como alerta, para que não se surpreenda se lhe suceder presenciar o mesmo que Cláudia: "e nisto vi a mulher da moradia ao lado, uma vivendinha com saguão e um pátio de cimento, encostar, cantarolando, uma escada à parede, trepar os degraus, alcançar o telhado, e no instante em que o meu pai surgiu na cancela, agarrado à muleta, com a calça da perna que não tinha dobrada para cima e presa à virilha com uma mola de roupa, a mulher, muito alegre, inclinou-se para a frente, abriu os braços, e sem uma palavra despenhou-se no pátio."

Nuno Barbosa
citado daqui
[não datado]

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