segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

Cristina Robalo Cordeiro: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 149/150 de Julho de 1998 – pp. 431 e 432


«Escrever é sempre estruturar um delírio», diz Lobo Antunes, em entrevista ao jornal francês Le Monde de Novembro de 1997. Estruturar significa dispor as diversas partes em composição lógica dotada de sentido, construir um todo rigoroso, necessário e suficiente. E delírio, um estado de agitação emocional causado pela persistência de ideias em oposição manifesta com a realidade (ou com o bom senso), que conduz a uma construção simbólica em que entramos e nos instalamos em atitude de «suspensão de incredulidade».O Esplendor de Portugal é a estruturação perfeita de um delírio sem defeitos.

Angola. Imagens de uma terra por onde escorre toda a nostalgia do paraíso perdido. Angola e os caminhos de Angola, e as cores e os cheiros e o céu de Angola. Memória - ainda e cada vez mais - de elefante guardada como um bem, e que a fractura do tempo restitui agora em anéis que progressivamente se vão apertando.

Lisboa também, terra onde desaguam as mágoas dos que a ela regressam sem lhe pertencerem, estranhos ao palpitar da cidade onde tudo parece acanhado, tacanho, insípido, incolor.

Angola, Lisboa e uma família: Isilda, a mãe, Amadeu, o pai alcoólico, e os filhos: Clarisse, a leviana, Rui, o louco, Carlos, o mestiço, que casa com Lena, a repudiada, e algumas outras figuras a gravitar em torno deste núcleo central - família quebrada, desmembrada que equaciona a vida num misto paradoxal de paixão e de ressentimento.

Angola, Lisboa, uma família, em teia de palavras que constroem um universo imaginário através de uma composição exemplar: três partes, todas com dez capítulos, nos quais alternam sempre duas vozes: a da mãe, e as de cada um dos filhos, respectivamente Carlos, Rui e Clarisse. A voz da mãe, presente, pois, em cinco capítulos de cada parte, atravessa o tempo, varrendo anos por onde perpassa não apenas o presente do mundo que se desmoronou - de 24 de Julho de 1978 a 24 de Dezembro de 1995 - mas também uma época passada onde se entrevê certo brilho do mundo antigo, e que no seu discurso se confundem e misturam labirinticamente. Esta voz - como eco distante - entrelaça-se metodicamente com a dos cantos solitários dos filhos para lhes servir de referência e ir dando sentido aos farrapos dispersos das representações que configuraram o seu mundo mental e afectivo. Imagem de fidelidade - alegoria também do mundo que resiste: batida por todos os ventos, bons e maus, Isilda ampara, compõe, cola os estilhaços das coisas, para se deixar por fim confundir com a própria terra que a acolheu, rendida à sua força, aspirada pelo seu magnetismo.

A voz dos filhos ouve-se em monólogos interiores de temporalidade simultânea - voz de três consciências em noite de consoada «desunida», ligada pelo fio do pensamento que vai de uns para os outros. Carlos espera os irmãos, que não vê há quinze anos, para a ceia de Natal do ano de 1995, no seu pequeno, triste e degradado apartamento da Ajuda. Rui e Clarisse furtam-se ao encontro cheio de um sentido que já não faz sentido. As escassas horas de reunião familiar - que não chega a ter lugar - preenchem-nas os três irmãos, cada um no seu canto - e capítulo -, a embater na disforia dos seus quotidianos e a percorrer a lembrança de sítios e de gentes, lembrança que ora os aproxima ora os afasta, num movimento em tudo igual ao da vida. E são então as imagens de uma infância de alegrias e de invejas, de cumplicidades e de denúncias, de descobertas e de misteriosos segredos mal guardados pelos adultos e que não escapam ao olhar ao mesmo tempo ingénuo e lúcido das crianças que foram - as saídas da mãe, as visitas do chefe da polícia, a doença do Rui, a origem do Carlos, a causa do alcoolismo do pai. E também a presença de figuras tutelares, guardiãs de mundos ancestrais e opostos, pressagiadoras de um mal indizível e antigo: a avó, a Maria da Boa Morte. E dos objectos familiares - a boneca sem braço, o relógio da casa, «a esfera de vidro com renas a puxarem um trenó», as máscaras de madeira - onde bate o coração da vida de cada um.

E assim todos os momentos, todos os passos da história deste pequeno mundo são difractados por ângulos e olhares diversos - se não mesmo opostos - e todas as fotos deste álbum de família trazem rostos, gestos, posturas ao mesmo tempo reais e aparentes, de seres e de fantasmas, imagens! E a linha da vida das personagens, traçada aqui na fronteira do desencanto e da loucura, mais não faz do que reflectir a imensa, inevitável e atraente desordem do mundo!

Tudo isto no cenário de uma terra saqueada, esventrada, manchada por sangue fratricida, de uma História (de um mundo colonial) que não é costume contar-se assim, pois obriga a pensar as coisas de outro modo: os seres (iguais e diversos), a complexidade ambígua das suas relações, os valores que os regem - expressos pelos mesmos conceitos que nem sempre têm o mesmo valor -, os olhares que os guiam - de olhos que não olham da mesma maneira e que, olhando as mesmas coisas, vêem coisas diferentes.

E os quadros desta polifonia de vozes inquietas são eles próprios invadidos por outras vozes - as de fora: dos mortos que se recusam a morrer, dos ausentes que se recusam à ausência, dos outros (todos) que atormentam a vida (os sonhos ou as ilusões) de quem vive, e sobretudo ainda vozes de dentro: as que se escondem por detrás da consciência, as vozes dos desejos, dos medos e das angústias, que se recusam ao silêncio e gritam a loucura que espreita em cada dobra do ser. De todas estas vozes é feita a voz de cada personagem e por todas elas é habitada (decerto) a do Autor. O que se traduz por uma escrita que sistematicamente se suspende, se interrompe e se retoma mais adiante,cruzada de falas distintas - corporizadas em parágrafos, itálicos, parênteses que se entrelaçam (em mnemotecnia de apelos, alusões, variações, repetições), como se todas falassem ao mesmo tempo sem perderem o rumo do que dizem, dialogando sem dialogarem, entendendo-se sem se ouvirem. Em definitivo, um tecido textual que parece caótico mas não é, feito de fronteiras que o não são - estanques, as parcelas desta grande construção (de mundos, de seres, de emoções) são no entanto porosas e transmutáveis, e entre elas circula um fluido a que se chama vida (que o mesmo é dizer aventura insensata, delírio!) -, balizado por contrários que não encerram contradição: sob o modo dual da dissonância/consonância (discursiva), da transparência/opacidade (psicológica), do contínuo/descontínuo (temporal), em cenário atravessado pela morte (real, fantasmada, imaginada) e por formas várias de desamor, irrompe (em tudo e em todos), como um clamor trazido das profundezas, a força pulsional da vida e dos afectos.

Tudo enredado em prosa narrativa próxima do expressionismo literário, no excesso e navertigem obsessiva das palavras que infinitamente repetem o que é único e, no gosto e da distorção e da hipérbole, transformam o facto em acontecimento, entrançam o físico e o metafísico, a essência e a substância das coisas que aqui parecem brotar de uma mesma acidentalidade (fatal?, mítica?) visionária, arrastam o mundo e os objectos a metamorfoses que os ampliam e transfiguram.

Também o título deste romance de António Lobo Antunes é perfeito: não é com sarcasmo que se evoca «o esplendor de Portugal» em imagens de um submundo degradado e sórdido.  A magia (a ironia?) está na forma como neste mundo brilha O Esplendor de Portugal.


Cristina Robalo Cordeiro
Colóquio Letras 149/150
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 1998

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