quarta-feira, 4 de maio de 2005

Carlos Eduardo Ortolan Miranda disserta sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


A TAUROMAQUIA CRUEL DE LOBO ANTUNES

Em Boa tarde às coisas aqui em baixo, o autor português leva ao ápice sua literatura radical

Existem em nós divisões, alienações, guerras e palavras.
Paul Nizan, Aden, Arábia

A literatura contemporânea de Portugal tem desempenhado um papel de destaque na prosa e na poesia européias. Contrariamente à relativa vaga de reduzida inspiração de nossas letras, que têm se debatido à deriva em uma discussão um tanto inócua entre os transgressores e os acadêmicos, os lusitanos ostentam uma produção literária do mais alto nível e que, estranhamente (ou nem tanto), é quase completamente desconhecida entre nós.

Dentre os autores que pouca ou nenhuma divulgação tiveram no Brasil, destacaria a poesia reflexiva, erudita, de tom elevado e lírico de Nuno Júdice, o experimentalismo dos romances de Almeida Faria, a prosa intimista, tensa, no limite do discurso poético de Rui Nunes, os contos angustiados de Pedro Paixão, o monólogo interior de Augusto Abelaira e as crônicas desabusadas e saborosíssimas de Miguel Esteves Cardoso. As ficcionistas portuguesas também comparecem com importância, notadamente as romancistas Agustina Bessa-Luís, Teolinda Gersão, Lídia Jorge e Inês Pedrosa.

Alguns escritores têm conseguido, entretanto, furar o bloqueio intelectual e aportar às livrarias nacionais. É o caso de António Lobo Antunes, cujo mais recente romance, “Boa tarde às coisas aqui em baixo” (pela editora Objetiva, que adquiriu os direitos de toda a obra do autor) teve lançamento quase simultâneo no Brasil e em Portugal.

Tanto melhor para a cultura nacional. Escritor profundamente original, o médico psiquiatra nascido em Lisboa é um outsider das letras portuguesas, muito embora seja autor dos mais premiados e incensados pela crítica literária internacional, e considerado a voz mais importante da literatura atual de seu país.

No lugar do sentimentalismo e do derramamento romântico que habitualmente caracterizam parte da literatura de Portugal, Lobo Antunes erigiu uma obra vigorosa e desafiadora, na qual, através de influências de autores como Faulkner e Céline, acompanhamos um roteiro para um passeio ao inferno das situações-limite da condição humana.

Nessa direção, a vivência de Lobo Antunes como médico do exército português na guerra colonial de Angola fornece a matéria histórica para a maioria de seus romances, como em “Os cus de Judas” (pela Objetiva), “Fado alexandrino” e “O esplendor de Portugal” (editora Rocco), já também publicados entre nós.

Essa comédia humana do horror e do desespero perpassa hospitais psiquiátricos, a insanidade da guerra, a morte sem honra, a miséria dos colonizados e a sanha destruidora dos colonizadores. Entretanto, desse ideário de niilismo e terra arrasada, graças à arte do escritor poderoso e de imaginação aparentemente inextingüível, emana uma poesia difícil, de imagens incomuns e que jamais apela ao efeito simples da prestidigitação verbal. “Boa tarde às coisas aqui em baixo” não é um livro de digestão fácil, como já deve ter atentado o leitor. Além da temática pessimista já apresentada, é nesse romance que os aspectos técnicos, as soluções formais para a realização da narrativa atingem o grau de maior radicalidade já encontrado na obra do autor.

O entrecho é razoavelmente simples, quase banal (e, de fato, praticamente se dissolve no transcorrer do livro): um agente do exército português é enviado a Angola. O objetivo: eliminar um seu antecessor, que cumprira tarefa similar.

A partir daí, distendem-se as preferências de Lobo Antunes pela narrativa fragmentária, pela constituição polifônica do romance, na qual as diversas vozes e percepções das múltiplas personagens parecem ecoar umas às outras num jogo especular no qual a totalidade não parece poder ser reconstituída.

Um agente procura um agente que procurava um agente. Nessa ciranda de personagens enlouquecidos, os matadores confundem-se com suas vítimas, os carrascos são, simultaneamente, caça e caçador, instrumento e objeto, perseguição e alvo. Uma arena de touros cegos que buscam, feridos, a saída do labirinto.

Não é casual que o topos da tauromaquia compareça nesse teatro de títeres, que perceberão que apenas cumprem ordens de traficantes de diamantes da metrópole colonial; sendo inextricavelmente matador e touro, as personagens da corrida combatem pela estrita sobrevivência, e a consciência se debate entre o passado e o presente, numa arena em que a pergunta pelo sentido não parece mais ter relevância efetiva e na qual o sacrifício não trará remissão.

Temos então um libelo pacifista contra a guerra colonial e o massacre inútil, mas financeiramente lucrativo, uma versão atual para o “Coração das trevas”, de Conrad?
Lobo Antunes insurgiu-se sempre contra tais leituras reducionistas de sua obra (que também não se aplicam a Conrad, vale destacar). Embora a experiência traumática da guerra perpasse indelevelmente o livro e forneça-lhe o substrato histórico e o entrecho, a constante remissão a planos móveis, temporais e espaciais, impede a leitura puramente sociológica, na acepção vulgar do termo. Não se trata apenas de um romance sobre a guerra colonial, mas, em termos mais ambiciosos, da luta da consciência em sua tentativa de compreensão de nosso estar no mundo.

De fato, os matadores (e futuros touros abatidos) comprazem-se em relembrar Portugal estando em Angola, e vice-versa. Assim, das descrições da barbárie e do genocídio, do massacre da população civil e do racismo, da missão inglória de um homicídio por motivo econômico a mando oficial do Estado, passamos às recordações da vida familiar dos assassinos, ao plano da memória dos seus dramas domésticos de desamor e solidão, de suas lembranças infantis e pequenas alegrias e desencantos cotidianos.
Presente e passado (na ausência de futuro), Portugal e Angola, relativa paz doméstica e atualidade horrenda movem-se em dialética cruel e insolúvel. A reflexão especular, a rotação espiral ou o movimento pendular, demarcados pelo uso de repetições de frases, que pontuam, como coro musical, o ritmo do romance, traduzem essa ação inútil, essa história que não se realiza, a não ser como negação, trabalho de touro-Sísifo.
Como toda grande obra de arte, a obra de Lobo Antunes é um convite à viagem. Viagem interior em que contemplamos o sublime e o grotesco, a dor e o sorriso, a gratuidade e o desejo de ordenação de um mundo que se afigura caos e desesperança. De algum modo, mesmo exauridos e tocados pelo universo de horror, sentimos que se opera em nós o milagre propiciado pela literatura. Jamais seremos os mesmos depois da leitura de António Lobo Antunes, esse taumaturgo da palavra.


por Carlos Eduardo Ortolan Miranda
É tradutor e crítico, mestrando em filosofia na USP.
via Trópico (Brasil)
não datado

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