terça-feira, 30 de agosto de 2005

Bruno Carriço: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Eu hei-de escrever assim (quem dera)

Terminei hoje de ler "Eu hei-de amar uma pedra", de António Lobo Antunes. Foi a primeira vez que li algo deste autor, mas duvido que seja a última!

Quando comecei o livro, estranhei bastante a escrita, confesso. A pontuação é quase inexistente e as apóstrofes são abundantes, o que requer alguma adaptação de quem lê (falo por mim, claro). Ultrapassada esta "fase" de adaptação, a leitura já se faz de forma mais natural e começa-se a apreciar verdadeiramente o génio de Lobo Antunes.

Folha a folha, fui descobrindo autênticas preciosidades nesta obra. Preciosidades, sobretudo, na descrição de gestos/coisas banalíssimas. Tenho pena de não ter marcado várias destas passagens, para agora ilustrar o que me "seduziu", mas são tantas páginas que mais me valia ler o livro de novo, se as tentasse procurar. Marquei apenas dois pequenos excertos, quando me apercebi que queria partilhá-los com o blog (e convosco, por consequência).

Começo por perguntar: como descreveriam um negativo de fotografia?

Parece uma coisa sem jeito, mas Lobo Antunes atira-nos com "...a minha mãe a esmiuçar negativos onde fantasmas, não pessoas, com o branco e o preto ao contrário, feições pretas, roupas de aparição que flutuavam...".

Dei por mim a imaginar negativos e a verificar como estas palavras traduzem o que vejo neles. Que simplicidade...

Relógios de estações de comboio/metro são outra coisa que nos fartamos de ver e que só nos interessam se precisarmos de saber as horas. É natural.

A atenção de Lobo Antunes é que é outra!

"...disseste nove menos vinte no instante em que o impulso do ponteiro nove menos dezanove, não o traço grosso, um traço fininho, o relógio sem números, quatro traços fininhos entre dois traços grossos ou seja quarenta e oito traços fininhos e apenas doze grossos..."

Arrisco-me a dizer que, além de grande escritor, Lobo Antunes dava um fotógrafo fantástico, pela sua capacidade de observação.

"...e o relógio do metropolitano prestes às nove menos dezoito que se percebia no ponteiro a vibrar para o salto, não mudava para o traço seguinte
(traço fino neste caso)
cobria-o por completo, apoderava-se dele, anulava-o..."

Sempre reparei naquele instante em que o ponteiro dos minutos se prepara para avançar, nestes relógios, e naquela pequena tremedeira, naquela hesitação. Nunca me passou de uma simples e patética observação. Até à altura em que li esta passagem!

E podia demorar-me aqui mais umas horas, enumerando estes deliciosos registos, mas acho que já mostrei a minha admiração de forma clara e o post já deve estar a dar sono a muita gente! :)

O título desta entrada é uma ambição, nunca uma obsessão!

por Bruno Carriço
15.04.2005

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