quinta-feira, 18 de agosto de 2005

Gonçalo Mira: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Este ano celebram-se os 25 anos de carreira de um dos mais importantes e incontornáveis nomes da literatura portuguesa: António Lobo Antunes. E que melhor forma de celebrar a efeméride do que com um novo romance? Foi, exactamente, o que fez Lobo Antunes, presenteando os seus fiéis leitores com um novo romance, intitulado “Eu hei-de amar uma pedra”.

É uma boa sensação quando acabamos de ler este livro. E isto é paradoxal porque eu adorei o livro. E, supostamente, quando se gosta muito de um livro, queremos que nunca acabe. Mas Lobo Antunes é diferente de tudo o resto. O livro é belo, aliás belíssimo, mas dói. Dói porque as suas personagens sofrem e fazem-nos sofrer. Vivem uma existência angustiante, sentimentos inconfessados, segredos, medos, saudades, amores. Um turbilhão de sentimentos que nos deixa completamente atordoados. Depois há um constante apelo ao passado, aquilo que marcou a infância de cada e que nos mostra exactamente porque é que aquela pessoa é como é. E nisto António Lobo Antunes é exímio. A sua obra vive de personagens fortíssimos, no sentido em que são construídos na perfeição. Simplesmente na perfeição. Têm os seus defeitos, as suas virtudes porque são humanos. Precisamente humanos. E é essa outra palavra chave para este romance e para a obra de Lobo Antunes. Neste romance existem humanos iguais àqueles que moram no nosso prédio, iguais àqueles que costumam ir ao nosso café,  iguais àqueles com que nos cruzamos todos os dias. E é isso que torna Lobo Antunes, na minha humilde opinião, o maior escritor português e um dos maiores a nível internacional, na actualidade: sabe criar personagens que nós conhecemos.

Quando comprei o anterior romance do autor, "Boa tarde às coisas aqui em baixo", foi-me oferecido um pequeno livrinho onde estava uma “receita” para ler Lobo Antunes, escrita pelo próprio. Dizia ele que os seus livros não são para ser lidos, mas sim apanhados, como se apanha uma doença. E é mesmo verdade. Além disso dizia também que o que importa não é a história mas sim as personagens e o que elas sentem. Lobo Antunes viaja ao âmago dos sentimentos humanos como nenhum outro escritor.

Este romance, "Eu hei-de amar uma pedra", conta uma história de amor entre um senhor e uma senhora que já não são jovens, que se encontram depois de passados muitos anos sem se verem. Ele julgava-a morta e, portanto, fez a sua vida: casou, teve filhos. E ao encontrá-la de novo, viva, a paixão que tinham vivido renasce e começam a encontrar-se numa pensão. Mas este belíssimo romance conta muito mais do que isto. Descubram-no por vós próprios. Recomendo vivamente a toda a gente que ainda não descobriu este maravilhoso autor, que o descubra, pois ainda vão a tempo.

Para quando o Nobel deste senhor?

por Gonçalo Mira
2003

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