quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Ángel Basanta: Segundo libro de crónicas


Este Segundo Livro de Crónicas de Lobo Antunes, um dos romancistas mais importantes da literatura portuguesa das últimas décadas, é a continuação do que foi publicado há alguns anos [Livro de Crónicas].

Na sequência do primeiro, também esta segunda compilação é composta por artigos que o escritor  tem vindo a escrever na imprensa de diferentes países, entre eles Espanha. Faz tempo que Lobo Antunes ganhou um merecido reconhecimento como escritor entre o os maiores da literatura europeia actual. Por isso estas crónicas, que são o testemunho íntimo do pensamento, das ansiedades e das aflições do criador de grandes romances como O Esplendor de PortugalExortação aos Crocodilos e  Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, entre outros, guardam um elevado interesse para aqueles que pretendem conhecer mais sobre o escritor que tem vindo a colocar o melhor da sua vida nos seus livros, uma vez que o homem e o escritor são o mesmo na sua pessoa.

O livro tem 78 crónicas que compõem uma autobiografia parcial, aos poucos, fragmentada. Na sua maioria os textos estão escritos na primeira pessoa, num tom confessional, orientado para a reflexão ou para a narrativa, segundo o tema tratado em cada caso. Pelo que foi dito anteriormente, os mais interessantes são aqueles em que o autor reflecte sobre o seu trabalho pondo a descoberto a sua insegurança literária em considerações sobre a sua escrita. A permanente ambição sempre insatisfatória do autor arde em vermelho vivo nas matérias incandescentes que o homem e o escritor põem no fogo da criação literária. São muitos o textos que abordam estas questões. Entre outros, destacam-se  "Receita para me lerem" e "Assobiar no escuro". Neles oferece-nos uma escrita poética e a leitura autocrítica das suas obras, a partir de uma focalização supra genérica e a profunda convicção na dignidade do romance. Aqui mostra a sua angustiante concepção da literatura: "A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente", a qual conduz "ao encontro da treva fatal, indispensável ao renascimento e à renovação do espírito". "Gostaria que os meus romances não estivessem nas livrarias ao lado dos outros, mas afastados e numa caixa hermética, para que não contagiem as narrativas alheias ou os leitores desprevenidos: é que sai caro buscar uma mentira e encontrar uma verdade" (págs. 91 e 92 [109 e 110 na 1ª edição portuguesa] ).

Mas a literatura, como criação do autor e a sua recriação na leitura, ainda que sendo mais importante, mais a música, o cinema e a arte em geral não são os únicos temas desta autobiografia dispersa. A memória do escritor lisboeta evoca e revisita experiências da sua infância com a sua família, recorda o horror vivido em Angola, o seu desinteresse pelo exercício da medicina (que abandonou: Lobo é psiquiatra) para se dedicar por inteiro à literatura, rememora a comunhão fraternal com os amigos da sua vida (como Cardoso Pires e Eugénio de Andrade), revive a sua relação conflituosa com Portugal, conta alguns episódios de viagens e reflecte sobre o amor, a dor e a morte. De tudo isto se fala nesta confissão plural de um escritor fundamental do nosso tempo, tão necessário nesta época de mentiras e frivolidades que nos dificulta a compreendermo-nos como seres humanos com as nossas aflições e o nosso desamparo no inexorável passar do tempo.

por Ángel Basanta
17.02.2005
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

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