domingo, 18 de dezembro de 2005

Arancha Oña Santiago: Heróico anti-herói

Memória de Elefante é a primeira obra da galardoada carreira literária de António Lobo Antunes; entre os múltiplos prémios recebidos destacam-se: o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Rosalía del Castro do PEN Club Galego, o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, o Prémio União Latina de Escritores e o Prémio Jerusalém.

No presente romance, a personagem principal comunica com a voz grave de débeis ressonâncias a partir da subjectividade mais profunda do seu ser, através de uma prosa poética plena de analogias artísticas insuspeitas e surpreendentes, angustiadas metáforas, alegorias, paradoxos, diálogos opacos e fustigantes monólogos existencialistas, numa ambiguidade dualista plena de incerteza, dirimindo entre a banalidade e o transcendental.

Fugindo do excessivo e exuberante racionalismo matemático, do pragmatismo, da autoridade idealista e positivista, do por vezes presunçoso espiritualismo e do avassalador materialismo, em suma, contra qualquer autoridade, o protagonista apresenta-se num mundo de desorientação, de confusão e de uma crise fertilíssima.

Como processo iniciático e por trás da claridade ofuscante do excessivo racionalismo tradicional, o protagonista lança um grito desesperado de sinceridade no concavo espaço do silêncio, sem arrogância, questionando a realidade sem receber uma resposta convincente, pendendo sem equilíbrio algum e contorcendo-se sobre si mesmo numa corda entre o determinismo e a liberdade, entre a fé e o agnosticismo, entre o absoluto e o relativismo moral.

Exorta o inanimado e o animado, metamorfoseando a existência para a compreender, jogando com a fantasia e a realidade da percepção, formando um puzzle de elementos congruentes e incongruentes. Evoca o caos dentro de uma ordem aparente e uma ordem dentro do caos, expulsando tudo isso através desenlaçado novelo da liberdade.

Psiquiatra de profissão, sendo um fardo por vezes difícil de carregar, a personagem principal apresenta-se como um indivíduo frágil por condição mas duro por necessidade, desterrado à vida de cabeça ajudado por fórceps, exaltado na análise do seu instável projecto de existência face à aparentemente titânica essência do passado. Projecto de existência individual que só encontrou estabilidade no útero materno e que existe no ermo de um mundo em que não entende as leis da sua harmonia e para o qual são inúteis os ecos harmónicos da tradição.

Na sua subsistência, desliga-se melancolicamente de qualquer memória de autoridades geométricas e ressonâncias de leis universais, sendo incapaz de erguer com suas intenções outra jurisdição que o guie em sua dispersão, aceitando uma desordem que o leva à quase perversa aniquilação do seu próprio ser. Desesperançado perante o rosto de uma realidade a que é incapaz de fazer um diagnóstico definitivo, conforma-se com meros e aproximativos juízos, acalmando a dor com leves analgésicos cujo excesso o leva ao atordoamento, sem encontrar um medicamento contundente que a elimine de raiz.

Enfrentando a realidade com uma vontade dilacerantemente individual agredida por um trágico pessimismo, defende sem muita contundência e com eterna e angustiada dúvida o seu fado de sinuosos acontecimentos, entre os quais a sua participação numa guerra; incorporado de uma solidão dissonante, desmoronada como uma estátua da antiguidade e dissimulada dos fedores do passado.

A nossa personagem enfatiza de forma literária a unicidade da sua pessoa e a sua luta pelo significado da lua liberdade, uma liberdade sem bússola, que ao  mesmo tempo que o oprime, o converte num ser singular e individual, separado da ordem cósmica, permitindo-lhe ajustar a sua identidade sobre a base do sofrimento e do tormento, comunicando existencialmente com a alteridade.

Liberdade cuja cruz é a responsabilidade pela qual sofre uma angústia e uma ansiedade existencial gerada como mecanismo de defesa perante a construção da sua identidade e do seu destino em harmonia ou dissonância com a liberdade dos demais, e como resposta às ameaças e tensões que sofre no seu sistema de valores.

O nosso protagonista é singular na medida em que actua e se realiza com algum pessimismo na conquista e na imputação dos seus próprios actos. Escolhe o seu caminho sem se deixar levar por modelos universais e objectivos, escolha livre unicamente limitada pelas circunstâncias que o rodeiam, pela implicação com compromissos e responsabilidades sem garantias.

Sem uma predisposição ou predestinação prévia, o protagonista experimenta a responsabilidade das suas acções e a subjectividade da sua existência se reconstrói e configura em si mesmo, sobre a base do tormento, reconhecendo tenuemente a alteridade, e na busca da aparentemente prismática verdade. Alteridade na qual de sujeito se converte em objecto, de onde se reflecte um mundo de incompreensíveis estereótipos humanos, alguns confinados ao psiquiátrico, outros na liberdade de movimentos pela vida, mas todos sem manual de instruções.

O nosso psiquiatra luta pela procura de uma linguagem universal que o faça comunicar com a realidade e com os outros, pela saída do labirinto da sua existência. Sensação e experiência linguística mantida única e exclusivamente com a sua saudosa ex-mulher a quem continua amando e não consegue esquecer, mas paradoxalmente não consegue dizê-lo. Experiência que nem sequer teve com sua mãe, que quase morria depois do seu parto, além de sofrer de uma surdez metafórica ou real que o levou à sua incompreensão.

Como os castigos míticos da condenação a uma eternidade infernal, o nosso protagonista sente-se condenado a uma existência angustiosa e incompreensível, através dos rígidos parâmetros da razão herdada.

Submerso nas águas do dualismo, entre a existência e a essência, entre a racionalidade e suas consequências, entre a credulidade e incredulidade, o nosso protagonista vai vogando sobre a decadência da razão, sem forjar ilusões e tocando o fundo do desencanto da existência, encalhando na dor e na crueldade da realidade sincera que marca o seu destino até... ao nada?

por Arancha Oña Santiago
Novembro 2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

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