segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Ana Marques Gastão: opinião sobre Terceiro Livro de Crónicas


Laboratório do romance

Uma palavra e depois outra, a origem que designa o texto, o movimento de algo para nascer. Palavras que se geram umas às outras. Às crónicas - um outro conjunto é agora[Fevereiro de 2006] publicado num terceiro volume -, António Lobo Antunes já chamou "prosinhas". Vivem, no entanto, como espaço de continuidade, contaminação e até no interior do labirinto dos romances. São um laboratório da literatura, ou mesmo um diário, conforme lhes chama, escrito ao correr da pena. Há sempre, no entanto, uma voz fugitiva, a do autor de Que Farei Quando Tudo Arde?, escapando-se, fragmentária, sombra difusa de infâncias várias que passam da mão para o papel, partitura de silêncios que resiste, porém, contra a mudez.

"A arte é ser absolutamente si próprio", disse Baudelaire. A condição do escritor passa por ser o mesmo saindo de si mesmo, esse "cego de mãos vazias a tropeçar", a "tentar vencer Deus a toda a largura do tabuleiro". O registo poético, o tom auto-irónico, a rememoração de tempos outros, mitificados ou dissecados à faca, avançam e recuam como peças de um puzzle de cheiros e retratos, sentimentos e ressentimentos, impossibilidades e incomunicabilidades e incomunicabilidades, expostas para dentro em nódulos dispersivos e, não obstante, coerentes. De construção arquitectónica exemplar, estes textos são povoados por figuras à solta nos romances. Não será por acaso que os títulos adaptam, por vezes, os da ficção: Explicação aos Paisanos ou  Tratado dos Crepúsculos.

Angústia e desejo de limpidez habitam as páginas numa caligrafia líquida. "Escrever consiste em trazer para cima", cavar. Mesmo nas crónicas, mesmo nas crónicas...


por Ana Marques Gastão
em Diário de Notícias (suplemento 6ª)
17.02.2006

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