sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Antônio Panciarelli: Fado Alexandrino - um romance em versos dodecassílabos


Um dos mais complexos e fascinantes romances de Lobo Antunes é Fado Alexandrino (Rocco editores, 2002), escrito em 1983. É o seu quinto livro de prosa e se trata de uma obra romanesca, com estrutura de poema alexandrino, ou seja, com versos de doze sílabas, cujo texto compõe-se de três partes: antes da revolução, a revolução e depois da revolução. Cada uma delas está dividida em doze capítulos, que podem ser visualizados como uma métrica poética do verso dodecassílabo. Assim, cada uma das partes forma um grande poema; isto é, a história é contada em três grandes poemas. O romance tem ao todo 600 páginas, que representam 50 estrofes. 

As personagens de Fado Alexandrino não carregam o traço de herói, nem possuem o destino predefinido. São ambíguas, construídas durante a diegese em que a estratégia narrativa é encenar a perda ou a ausência de modelos organizadores de sentido linear. Através de fendas, as pequenas narrativas em estado de desordem montam e desarrumam a seqüência para o receptor. Essas pequenas narrativas é que compõem a grande fábula e, por isso, pode-se falar em narrativas por encaixe e alternância.

Tem-se, então, uma polifonia em que imperam o plurivocalismo, a pluridiscursividade, a interdiscursividade, a heteroglossia ou a hibridização, postulados que, apesar de se revestirem de nuanças distintivas, apontam quase sempre para o cruzamento dialógico de várias vozes, das diferentes personagens, decorrentes da adoção de diversos pontos de vista, contraditórios ou em confronto.

Lobo Antunes utiliza uma arquitetura polifônica com vozes que polemizam entre si, se completam ou respondem umas às outras. Impõe-se o intertextual sobre o textual - não se trata aqui de uma dimensão derivada de intertextualidade, mas sim de uma dimensão primeira de que o texto deriva. Podem-se observar, neste romance, os conceitos definidos pelo lingüista russo Mikhail Bakhtin sobre polifonia e dialogismo.

Na escrita de Lobo Antunes, as personagens também emitem diferentes vozes não unificadas por uma única ideologia, filosofia ou personalidade. Há, durante a trajetória da narrativa de Fado Alexandrino, uma multiplicidade de vozes fragmentadas em seus discursos e contraditórias em seu desenvolvimento. A criação romanesca do autor privilegia essa multiplicidade e um entrecruzar de vozes em que o princípio da identidade dilui-se e o aqui e agora dificilmente instauram fronteiras.

As vozes viajam constantemente, atravessando a fronteira de tempo e espaço, mas deixando sempre uma trilha para que o receptor possa acompanhar o desenrolar da trama. O resultado disto é um processo que faz a narrativa avançar pelo entrecruzar, por vezes coerente, mas muitas vezes contraditório e mesmo paradoxal, dos vários discursos que representam o fluir de diversas consciências em torno de um acontecimento central que unifica a acção.

Octávio Paz, em Signos em rotação, afirma que o carácter singular do romance provém, em primeiro lugar, de sua linguagem. 1 É prosa? Se consideradas as epopéias, evidentemente sim. No entanto, se estas forem comparadas aos gêneros clássicos da prosa - o ensaio, o discurso, o tratado, a epístola ou a história -, percebe-se que não obedecem às mesmas leis.

O que torna Fado Alexandrino um romance inovador em termos de linguagem é uma descrição pormenorizadamente trabalhada que satura de informações a ilusão de real que o texto oferece, suprimindo banalidades ou recursos estilísticos desnecessários, mas construindo artesanalmente uma carga metafórica de analogias semânticas espessas. São exemplos disso trechos como “a caixa de sapatos esmagava os telhados”, ou “as órbitas vazadas das janelas fitam o sujeito”. 2 Tais características a tornam uma obra peculiar em que a objetividade narrativa do texto não impede, entretanto, que o autor utilize sinestesias e silepses em todo o romance.

O conjunto de idéias e representações que servem para justificar e explicar a ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com os outros homens é o que comumente denomina-se ideologia.

A ideologia é constituída pela realidade e, ao mesmo tempo, constitui a realidade, já que não se caracteriza por ser um conjunto de idéias surgidas do nada ou da mente privilegiada de alguns pensadores. A ideologia é, sim, fruto de uma série de decorrências resultantes de fatores sociais, econômicos, políticos e intelectuais, revelada pela análise do discurso no plano da semântica discursiva.

Existe ainda o que se convencionou chamar de “ideologia dominante”, aquela que é imposta persuasivamente sobre a classe dominada com o objetivo implícito de obter a legitimação de seu poder. Ao colonizar países africanos, Portugal impôs sua ideologia e seu conceito de sociedade européia aos povos colonizados.

A narrativa de Lobo Antunes está impregnada com esses conceitos e valores e, ao retratar Portugal entre 1972 e 1982, não se preocupou apenas em definir suas personagens como arquétipos que estariam de um lado ou de outro em um campo de batalha, mas sim em mostrar suas personagens lidando mais com o comezinho, com a luta diária pela sobrevivência e pela reintegração em uma sociedade que os definira como “os retornados”.  Há, entretanto, em todo o romance a preocupação em mostrar as marcas que a colonização portuguesa deixou na África.

Logo após o 25 de abril de 1974 e a descolonização feita atabalhoadamente nas colônias africanas, Portugal passou a viver com uma população que não deveria mais fazer parte da vida lisboeta. Não havia mais lugar para acolher os emigrantes que voltavam de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. Essa população que era, literalmente, despejada no parque público de Monsanto recebeu da imprensa portuguesa a alcunha de “os retornados”.

Logo se originou no país uma comunidade de segunda classe - os emigrantes que perderam tudo na África e passaram a viver acampados nos jardins de Monsanto. Lobo Antunes não coloca as personagens de Fado Alexandrino nesse mega-acampamento, mas as distribui pela periferia da cidade, situando-as junto à classe média baixa. Ao colocar as personagens em bairros como Pixeleira, Cabo Ruivo, Intendente ou Anjos, o autor traça o retrato de um verdadeiro “cordão sanitário” que foi criado ao redor de Lisboa e da classe média que não precisou emigrar.

A temática central de Fado Alexandrino é a guerra colonial na África, contada por meio das reminiscências de um grupo de militares que combateram em Moçambique. Aborda o retorno a uma Lisboa desconhecida, que sofreu com a rápida e desorganizada urbanização, com a re-inserção no ambiente familiar na periferia da cidade e, sobretudo, com a dificuldade para sobreviver fora da caserna.

O título da obra também remete ao fado, palavra originária do latim fatu, que significa destino. Em Portugal, o fado está diretamente ligado a um ritmo musical originário dos cânticos dos mouros que permaneceram nos arredores de Lisboa, mesmo após a reconquista cristã. A dolência e a melancolia daqueles cantos, comuns ao fado, estão na base desse ritmo. No entanto, o significado que Lobo Antunes dá a essa palavra refere-se mais ao destino lusitano do que à canção.


Antônio Panciarelli
artigo citado de Sibila - Estado Crítico
não datado

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