quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Jorge Mayer: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Leer a Lobo

Ler Lobo Antunes foi para mim uma experiência perturbadora. Isento de preconceitos e de boas intenções, numa manhã fria - não tão distante como quisera - não pude resistir ao chamamento de um volume - o pormenor de Os Amantes de René Magritte na capa - com um título que operou sobre mim uma espécie de encantamento: Eu Hei-de Amar Uma Pedra, engodo de uma frase do dogma da religião que escolhi professar. Amar uma pedra que nada pode dar em troca do meu amor, uma pedra que - preciosa ou não - nunca será mais que uma pedra. Todas as pedras, a pedra.

Leitor cego por uma curiosidade que confina com a anarquia, sem pensá-lo, lancei-me a ler os últimos parágrafos. Fi-lo como quem, sabendo-se envenenado, engole vorazmente a primeira coisa que se lhe pareça um antídoto. O acaso não podia ter feito por mim nada melhor. Levei com uma machadada certeira à altura de uns olhos que não chegaram a assombrar-se e já estavam feridos sem remédio. Tinham visto que o murro póstumo do escritor se permitia a uma última insolência, afinal credora da minha mais terna indignação.

Mas de que se valeu este livro - pensei - para dizer-me que se trata somente de um livro, para despedir-se de mim - à hora cinzenta das doze badaladas - que me sentia uma folha em branco, que guardava para ele todas as perguntas. Que desplante, que falta de respeito, que maus modos, fazê-lo sentir a um convidado de pedra, um intruso. Quem escreve isto, o que me está propondo. A fome pediu-me mais e para lhe valer contei os dias e as noites, as moedas e as privações, até que reuni todo o dinheiro para comprá-lo. Desde então tem andado comigo para toda a parte.

Quem é o Lobo? António Lobo Antunes é um prolífico romancista português, autor de títulos como Tratado das Paixões da AlmaA Ordem Natural das Coisas ou Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, médico psiquiatra de profissão, um tipo que aos quinze anos aprendeu a ser agradecido com o povo. A manifestação deu-se com a volta do correio de uma carta sua a Louis-Ferdinand Céline a propósito de Viagem Ao Fim da Noite.

Os livros de Lobo são o registo de uma paciência de ourives. Disse que trabalha até doze horas por dia. De manhã no estúdio de José, um seu primo, pintor, e quem sabe daí não haja a pretensão de igualar As Meninas de Velázquez, "a pintura das pinturas", como gosta de exemplificar; de tarde num consultório do hospital psiquiátrico onde dava as suas consultas, talvez buscando a resposta à pergunta deleuziana: que sanidade bastaria para libertar a vida lá onde está encarcerada no e pelo homem, nos e pelos organismos e os géneros?

O leitor não encontrará nos livros de Lobo a hospitalidade que gostaria de receber de um bom anfitrião. Pelo contrário, deverá lidar com enxames de palavras ligadas com uma gramática cheia de prodígios - Lobo dirá que isso que outros lêem como maravilha "é o que se teve de fazer para encontrar a solução para um problema técnico" - com que representa os atritos entre personagens atormentados por ambientes tensos. Muitas vozes são uma única voz que salta de eu em eu, de angústia em angústia, no dorso de um discurso que longe de esclarecer ao leitor acerca de situações e personagens forja uma espécie de cristal poético que desdenha todas as aparências. Sua escrita flúi. De novo Deleuze, que desta vez fala da escrita como fluxo: "um fluxo entre outros, sem nenhum privilégio diante dos outros, e que mantém relações corrente e contracorrente ou de remoinho com outros fluxos de merda, de esperma, de diálogo, de acção, de erotismo, de dinheiro, de política, etc.".

Sobre que é Eu Hei-de Amar Uma Pedra? Isso é algo impossível de colocar em poucas palavras. Primeiro ocorreu-me que fosse um romance cheio de interrupções mas, talvez contagiado pela atmosfera do livro, comecei a colocar em dúvida cada uma das minhas convicções a seu respeito. É um romance e vários outros na sua vez, um romance que chove como um poema de meio milhar de páginas no qual se alternam vozes que denunciam medos  como estribilhos, como bordões. Que exige uma leitura que não se confine a desnudar uma intriga mas a acção inversa: juntar todos os pedaços estilhaçados  de um espelho e nesse caso a dificuldade antes aludida bem poderia ler-se como a última defesa que esboça um eu - desconhecido pelo leitor - antes de se ver reflectido.

Ler Lobo Antunes, finalmente, tem muito em comum com uma cura de sono. Basta passar uma noite de insónia invernal para comprovar que dormir é uma questão térmica. Só superando um limitado horizonte de tibieza é possível deixar-se conquistar. Mais próximo da linha do horizonte, mais profundo o sono. A partir daí, o suave declive até ao novo despertar - porque não nascer? - da intempérie.

por Jorge Mayer
12.06.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

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