segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Moacyr Godoy Moreira: opinião sobre Memória de Elefante


“Entre a Angola que perdera e a Lisboa que não reganhara, o médico sentia-se duplamente órfão (...) Fizera da vida uma camisola de forças em que se lhe tornava impossível mover-se atado pelas correias do desgosto de si próprio e do isolamento que o impregnava de uma amarga tristeza sem manhãs...”

Assim caracteriza-se o protagonista de Memória de elefante, livro de estreia de António Lobo Antunes, recém lançado no Brasil com 26 anos de atraso. Já bastante conhecido por aqui, a obra demonstra a força narrativa do autor português, um dos mais traduzidos e respeitados em terras ao redor do globo. A quarta capa do volume ressalta, a propósito, uma citação da revista Vogue: “O maior escritor vivo da língua portuguesa.” Critérios de valor à parte, trata-se de um escritor com amplo domínio técnico e que produz livros de particular força inventiva e narrativa.

Considerado pelo próprio autor como parte de uma trilogia, junto com Os cus de Judas e O esplendor de Portugal, que seriam na verdade um único romance em três partes, Memória de elefante narra um dia na vida de um psiquiatra de Lisboa, mergulhado nas tramas do passado em busca de elementos que o façam sentir-se vivo. A existência angustiante que tortura o personagem, assombrado pela culpa da separação da mulher e a distância insustentável das duas filhas, o ambiente profissional degradado no qual segue imerso e as rememoração da infância e adolescência, também conturbadas, alinhavam os movimentos lentificados deste homem, ao largo do dia que dolorosamente se desenrola.

Mesmo em meio à degradação humana, imagens de dentes postiços, gengivas nuas e dentaduras, e a abundância de termos como melancolia, tristeza e solidão, há esparsos momentos de beleza: “Uma claridade mediterrânea aureolava as grades da varanda como se banhassem num aquário iluminado pela lâmpada intensíssima de uma primavera irreal.” E mais adiante: “ E lembrou-se do momento exacto antes da ejaculação, quando o corpo, transformado numa vaga que sobe em sucessivos roldões de prazer, cada vez mais forte, mais pesada, mais densa, estoira de súbito numa explosão de espuma do tamanho do mundo, em que pedaços nossos voam independentes de nós para cada canto do lençol, e adormecemos liquefeitos, numa moleza sem cor, náufragos jubilosos da ternura.”

Porém o leitor vai, ao longo do volume, deparar-se muito mais com a dor, a incompreensão e a incompletude constitutiva que assola a personagem, que belas paisagens lusitanas ou momentos de deleite. Há mesmo instantes beirando o desespero que assombra as tendências suicidas, aqui e ali.

Ao contrário do herói problemático de Lukács, que caracteriza o romance romântico e realista, o médico aqui, mergulha cada vez mais em florestas de incertezas e desconecta-se significativamente de um projeto supostamente edificante proposto pelos autores do século XIX. Considerando-se o contexto em que surge o livro, o aspecto de modernidade do texto multiplica-se de maneira notável, visto que surgiu imediatamente após a Revolução dos Cravos, momento memorável em que Portugal livrou-se da nefasta ditadura de Salazar.

Neste nascer de uma nova nação, empenhada em fazer-se destituída do ranço do totalitarismo, a fragmentação narrativa que surge em variados momentos (“e de repente vi-me multiplicado até à náusea nos espelhos biselados, dezenas de eus aflitos mirando-se uns aos outros em pasmo de pavor”; “como se o cotovelo da esquerda e o da direita funcionassem como talas que agüentavam unindo os ossos estilhaçados de seu desespero e os impediam de se espalhar no chão”) reflete a fragmentação da estrutura psicológica das personagens, que numa leitura sustentada por pensadores como Theodor Adorno e Walter Benjamin, permitem acessar o conteúdo oculto da história recente do país, possibilitando reconstruir verdadeiramente a devastação causada pela violência política progressiva.

A angústia do personagem exacerba-se ao lembrar as filhas e da situação atual, após a separação: “A imagem das filhas, visitadas aos domingo numa quase furtividade de licença de caserna, atravessou-lhe obliquamente a cabeça num desses feixes de luz poeirenta que os postigos do sótão transformaram numa espécie triste de alegria.” Em meio à dificuldade de lidar com a situação insustentável da rotina trabalho-lembranças-culpas, o narrador segue como que em transe, colado ao personagem, como se a narrativa fosse em primeira pessoa, sobrevivendo mais que vivenciando suas experiências. Em seus diálogos imaginários com a ex-mulher, torna-se cada vez mais perturbado, odiando a pessoa de Dylan Thomas, por exemplo, poeta por quem ela nutria grande admiração, em termos literários.

A névoa da perturbação adensa-se e o onírico, a memória e os fatos reais passam a não ter um limite muito claro, misturando-se; fluindo de um domínio a outro sem a preocupação da lógica, lógica esta que inexiste quando se trata do universo interior e abalado pelo sofrimento que habita o íntimo de cada um de nós.


por Moacyr Godoy Moreira
10.08.2006

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