quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Rui Catalão: opinião sobre Terceiro Livro de Crónicas


"Prosinhas"

É assim que o autor classifica as suas próprias crónicas. Pequenas, mas plenas de significado; simples, mas capazes de encantar qualquer um. Num registo em muito diferente do habitual estilo romanesco que patenteia, António Lobo Antunes conta-nos alguns excertos da sua vida, desde as recordações de elementos familiares tão importantes como o pai ou a mãe – aos quais agradece por não o terem enchido “de amor e atenção, o que teria matado em mim [António Lobo Antunes] o artista” –, aos momentos vividos na guerra [colonial]. Aborda ainda questões do quotidiano, pormenores que nem sempre nos saltam à vista, sendo contudo dotados de uma riqueza indubitável: o amor como um sentimento inigualável; a amizade como uma raridade com um valor inestimável; a saudade dos tempos de infância, dos lugares que marcam toda uma vida; a vida e a morte enquanto aliados separados apenas por uma linha ténue que tende a quebrar-se facilmente.
António Lobo Antunes é um génio, um homem consumido pela “doença” da escrita. Escreve compulsivamente, alertando que aquilo que escreve não é ditado pela sua vontade, mas sim por algo “superior” que controla a sua mão, por uma voz que dita cada palavra, cada frase. Justifica-se numa das crónicas, afirmando: “ (...) nunca os senti [os livros] meus enquanto os escrevi: vêm não sei de onde, não sei como, e apenas tenho que lhes dar todo o meu tempo e esvaziar a cabeça de tudo o resto para que cresçam por intermédio da mão no fim do meu braço: o braço pertence-me mas a mão, ao transcrevê-los, pertence ao romance, ao ponto de o seu empenho e a sua precisão quase me assustarem”. O autor acrescenta ainda que os seus livros “deveriam editar-se sem autor na capa, porque desconheço quem o autor é”. No entanto, as suas crónicas têm outros horizontes, mesmo seguindo a mesma linha de criação literária, veiculada também por Fernando Pessoa num soneto em que se considera um “emissário de um rei desconhecido” que cumpre “informes instruções de além”. Ainda assim, a sua dimensão reduzida (cerca de três ou quatro páginas) não inviabiliza que haja espaço para emoções, para risos, para pensar, para relaxar, para sentir. Há nas crónicas, acima de tudo, espaço para a subtileza de António Lobo Antunes, capaz de momentos geniais passíveis de prender o leitor da primeira à última página.   
           
Contudo, as “prosinhas” de António Lobo Antunes não foram criadas, pelo menos inicialmente, com propósitos literários. Num período em que passava algumas dificuldades económicas, mais especificamente na década de 90, o autor começou a escrever para o Público, a convite de Vicente Jorge Silva. Esses textos começaram a ganhar notoriedade e assim surgiram naturalmente as três colectâneas de crónicas publicadas entretanto. Do Público as fronteiras alargaram-se e as crónicas passaram a ser também publicadas em jornais estrangeiros como o El País. Actualmente, em Portugal, podem ser encontradas na revista Visão, com publicação quinzenal. Neste Terceiro Livro de Crónicas estão incluídas as crónicas publicadas entre 2002 e 2004.       
           
Este livro de crónicas, tal como os dois primeiros volumes, permite-nos traçar um fio condutor que as funde com o jornalismo. Não sendo António Lobo Antunes um jornalista, há pequenos detalhes que surgem ao longo do livro e que nos permitem estabelecer algumas analogias com a actividade jornalística, pela forma como descreve determinadas situações do quotidiano, como analisa os contextos, as pessoas, os gestos, os comportamentos. A guerra colonial é, talvez, o exemplo mais visível dessa capacidade que Lobo Antunes emprega nas suas crónicas “por encomenda”.

A crónica tem sido, ao longo dos últimos tempos, um estilo cada vez mais apreciado, o que se comprova não só pelo crescente número de leitores deste tipo de colectâneas, mas também pela aposta de jornais e revistas em textos deste estilo. Esta aposta reflecte-se nas personalidades convidadas a escrever para as referidas publicações e repercute-se, por conseguinte, nos encargos financeiros. Aos olhos do público leigo as dissemelhanças entre este estilo e um qualquer outro artigo de opinião podem parecer inexistentes, mas é essencial saber distingui-los: as crónicas são textos jornalísticos (com uma vertente literária) que têm uma certa periodicidade, uma aplicabilidade essencialmente utilitária, geradora de proximidade entre o autor e os seus leitores. Nas crónicas a escrita flui com maior facilidade, maior sugestibilidade, sem preocupações tão vincadas com o rigor dos factos nem com a estrutura típica dos romances. São como que um quadro em que os pingos de tinta se fundem com a tela da mesma forma que as gotas de chuva atingem qualquer um de nós na rua.
           
Gostaria de destacar ainda a última crónica, uma das mais emotivas de todo o livro, intitulada Ajuste de Contas, na qual António Lobo Antunes fala abertamente do seu pai, da sua relação com ele, da sua morte. A sua importância no António Lobo Antunes de hoje é, segundo o próprio, incontestável, pela forma como o educou, como lhe ensinou o que é o mundo, pela forma como (não) o amou demasiado. Sou, por isso, forçado a transcrever a parte final desta crónica e, por conseguinte do livro: “Tenho saudades de irmos de automóvel para Nelas. Tenho saudades de patinarmos no Benfica. O Nuno, aos três anos, com uma peritonite
- Eu vou morrer e quero o meu paizinho.
Isto nunca esqueci. Ia morrer
(foi um milagre não ter morrido)
e queria o paizinho dele. Sempre que lembro esta frase comovo-me tanto:
- Eu vou morrer e quero o meu paizinho
esta frase e a cara de sofrimento do meu irmão. Foi graças a si que ele não morreu. Foi graças a si que não morri da meningite. Não pense que me esqueço. Não esqueço. Paizinho.”         
           
Aqui se sintetizam várias dimensões das crónicas de António Lobo Antunes: o amor, da família, nem sempre manifestado, embora sempre presente; a saudade do passado longínquo, da infância, dos momentos de felicidade; e a morte, algo que o autor abomina, considerando que fomos feitos para viver, não para morrer.     

É este o homem que a crítica literária aponta como eventual sucessor de José Saramago na lista de galardoados nacionais com o Prémio Nobel. Um homem a quem se pode aplicar o velho ditado: “de génio e de louco, todos temos um pouco”. E efectivamente António Lobo Antunes tem um pouco de ambos. É indubitavelmente uma das grandes referências literárias nacionais do último século. Quanto às suas “prosinhas”, essas estão à espera de ser descobertas, lidas e relidas, amadas e odiadas, mas, acima de tudo, sentidas.


por Rui Catalão
enviado por e-mail em 16.11.2006

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