sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Whisner Fraga: opinião sobre Os Cus de Judas


Provavelmente a culpa seja minha. Culpa não, é muito forte. Inabilidade. Procurei por António Lobo Antunes aqui no Leia livro e nada. Ele deve estar por aí, eu é que não me dou bem com esses mecanismos de busca, vivem me traindo. Alguém já deve ter feito algum comentário sobre o romancista português, mas, vá lá, não tem importância. Sempre há algo a dizer sobre um grande escritor.

A literatura de Antunes é sobretudo a da desilusão. Médico psiquiatra, é dono de uma narrativa intrincada, cheia de reviravoltas, idas e vindas, que deixa o leitor desatento meio perdido. E é um exímio artesão, arquiteta metáforas como ninguém.

António Lobo Antunes é um best seller. Hoje consegue o pão de cada dia por meio de suas palavras, o que causa inveja. Isso, evidentemente, sem fazer muitas concessões, o que dá ainda mais nos nervos de outros escritores e intelectuais. A crítica não é muito boazinha com ele.

Um de seus primeiros livros, "Os cus de Judas", foi o escolhido para ser alvo desta resenha. Porque foi até bem vendido no Brasil, muita gente conhece. Em 1971, Lobo Antunes embarca para a Angola, onde presenciará um cenário de guerra. É daí que nasce Os cus de Judas. O romance aborda a independência angolana, as injustiças, a violência, a condição humana em um conflito em que não há regras e a vida nada representa.

O narrador do romance está em Portugal e relembra, de uma maneira crua e sem rodeios, o que passou em Angola. As marcas de injustiças que transformaram o protagonista do livro em um ser desesperançado.
Vai um trecho da obra para que vocês tenham idéia do que estou falando:

“Às terças e sextas-feiras, uma cabo-verdiana que nunca vi, e com quem comunico por intermédio de mensagens cerimoniosas depositadas no armário da cozinha, repõe os objectos e os móveis na ordem excessivamente geométrica da solidão, a que a falta de pó confere a impessoalidade asséptica de uma sala de pensos, e pendura no arame da varanda a minha monótona roupa de homem que nenhum soutien alegra de sugestões conjugais. De tempos a tempos, mulheres encontradas por acaso no canto de sofá de uma reunião de amigos, como quem descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno, sobem comigo no elevador para uma rápida imitação do deslumbramento e da ternura de que conheço já de cor os mínimos detalhes, desde o desenvolto uísque inicial ao primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para não ser sincero, até o amor acabar no chapinhar do bidé, onde as grandes efusões se desvanecem à custa de sabonete, raiva e água morna. Despedimo-nos no vestíbulo trocando números de telefone que imediatamente se esquecem e um beijo desiludido que a falta de bâton torna incolor, e elas evaporam-se da minha vida abandonando no lençol a mancha de clara de ovo que constitui como que o selo branco que certifica o amor acabado: apenas um perfume estranho, a vestir-me os sovacos de odores de cocote, e um traço de base no pescoço descoberto na manhã seguinte durante o hara-kiri sangrento da barba, me garantem a breve passagem real pela minha cama do que cuidava já serem os imprecisos artefactos que a melancolia inventa.”
  
Estão diante de um texto grandioso, nada fácil, mas vale a aventura, o esforço, a luta. A recompensa é um prazer estético indizível e único.


por Wisner Fraga
(Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo)
31.10.2006

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