sábado, 27 de janeiro de 2007

almaro: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Curiosamente (e ironicamente, uma vez que são autores que nutrem antipatias mutuas) a empatia para com António Lobo Antunes foi idêntica com a que tive com Saramago. O primeiro livro que me ofereceram de Saramago foi o “Ano da Morte de Ricardo Reis”, […]. Não o consegui ler, julgo que na altura não passei da primeira página, e quando assim é, quando me arrasto nas letras, perdido nas frases, esqueço o livro […]. Lembro-me que na altura o coloquei na prateleira, algures junto aos livros não prioritários, que para se ler um livro é preciso afinidade, e na altura não estava afim. Não me recordo como o livro saiu da prateleira e viajou para a mala de trabalho, que nessa altura viajava muito. Fiquei de tal maneira preso às páginas de Saramago que dei comigo a ter pena de as virar e ficava a saboreá-las como quem degusta um vinho do Porto velho de xistos e de sol. Com António Lobo Antunes o processo foi idêntico, mas levou mais tempo a entrar no seu universo literário, culpa minha que tentei ler livros da sua ultima fase ( que farei quando tudo arde?) sem passar pelas notáveis fases intermédias.

“Ontem não te vi em Babilónia” acaba por ter sido o primeiro livro que li desta sua última fase, (que segundo o próprio deveria ter sido única), por inteiro, com o prazer de ler e de me deixar ir no movimento da caneta e da insónia relatada a várias vozes, com diversos sentires.

Na verdade não é um romance, ou melhor, não é um romance na sua forma tradicional de contar uma história e essa história ter personagens que a vivem. Neste livro o processo foi ao contrário, é o livro que cria as personagens. O livro é na verdade o cenário (protagonista) principal, que se escreve na noite e que vive na noite. As personagens escrevem-se, as personagens são a ponta da caneta, a insónia é a do autor, que provavelmente incomodado com o latir de cães desacordou no livro, a na necessidade do livro. Uma insónia (sabe quem a já teve), alonga o tempo, tudo se arrasta numa lentidão como quem gira á volta de um vazio. “Ontem não te vi na Babilónia” gira à volta de uma criança que se pendura em corda de enforcado numa macieira e deixa em repouso (caída, morta) uma boneca na relva, que a mãe corta doentiamente. As personagens têm o ritmo, a insónia permite e repetem-se numa lengalenga que nos envolve (vezes, em angustia) de tal forma que sentimos o tempo nas páginas que se lêem com o prazer de descobrir o António e a sua mestria de traçar imagens literárias únicas. O livro nasce já com morte anunciada (que sabemos no fim que anunciada hora e tudo).

(cinco da manhã e acabou-se, a única coisa que me dizem é que: cinco da manhã e acabou-se sem que eu compreenda o que se acabou, contem-me, cinco da manhã e então, no caso de não precisarem de mim, posso dormir, não posso?)

desabafa a personagem…

Sabe-se que é um livro que só tem uma noite, e as personagens também o sabem e apressam-se a partir das quatro da manhã (aliás, o capitulo mais conseguido do livro-romance) a acelerar a sua própria escrita. É um livro que se constrói, como se as personagens escorregassem na tinta e tomassem forma (como fantasmas das páginas).

-Não se vai embora você?
impaciente comigo, o seu livro quase no fim visto que dia, guarde os papéis, a caneta e levante as sobrancelhas da mesa onde desenha as letras torcido na cadeira, quatro da manhã graças a Deus, quase cinco, acabou-se, na janela diante da sua uma senhora numa cadeira de baloiço que há-de cobri-lo com o xaile, você não imaginando que a morte uma pessoa real, sem mistério a defender-se do frio, o seu nome
- António
ao mesmo, tempo que um barulhinho no vestíbulo, cochichos que o procuram na casa, espreitam o corredor, não o acham, os homens de casaco e gravata junto a si e um martelo, uma pistola, uma lâmina
(quatro horas da manhã graças a Deus, quase cinco)
e não tem importância visto que o seu livro no fim, tantos meses para chegar aqui e duvidando se chegaria de maneira que alegre-se, olhe a janela onde a senhora da cadeira de baloiço
-António

O António (o Antunes, o Próprio) revela-se aqui e ali, como maestro, obrigando as personagens a escrever, aparecendo várias vezes no auge da insónia “(continua a escrever)“ como que obrigando-se à escravatura da escrita, esquecendo-se por vezes que é ele e não a personagem que escreve, relevando ao leitor o seu processo criativo, a forma como experimenta as palavras, como lhes tira o som e a imagem, como as apaga, ou como escrevendo com a pressa de não deixar fugir uma ideia que se sobrepôs à cena, a sobrepõe para não se esquecer dela, para mais tarde a rever e a colocar em sitio certo. Sitio esse que acaba por não ser encontrado ficando tudo como está, para gozo do autor e nosso, que entendemos o seu divertimento e damos connosco a sorrir e a pensar no silêncio (grande sacana, a gozar comigo!)

Há momentos, palavra de honra, não se compreende o motivo mas pesa, sente-se dentro o
(ia escrever incómodo e não incómodo conforme não incómodo conforme não tristeza, não dor, como se traduz isto, não sei)
deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos palavra de honra que pesa

De tudo ficou-me gravada a imagem do silêncio, escrita desta forma que só Lobo Antunes consegue:

Isto porque no outono ninguém consegue dormir, vamo-nos tornando amarelos da cor do mundo que principia em setembro debaixo do mundo vermelho, o silêncio deixa de afirmar, escuta, demora-se nos objectos insignificantes, não em arcas e armários, em bibelots, cofrezinhos, não somos a gente a ouvi-lo, é ele a ouvir-nos a nós, esconde-se na nossa mão que se fecha, numa dobra de tecido, nas gavetas onde nada cabe salvo alfinetes, botões, pensamos
- Vou tirar o silêncio dali
e ao abrir as gavetas o outono no lugar do silêncio e o amarelo a tingir-nos, as janelas soltas da fachada vão tombar e não tombam, deslizam um centímetro ou dois e permanecem, na rua os gestos distraídos da noite transformam-se num fragmento de muralha ou na doente que faleceu hoje no hospital abraçada à irmã de chapelinho de pena quebrada na cabeça, estremeceram em uníssono, a cama ou uma garganta um som qualquer
(como descrevê-lo?)

por almaro
23.11.2006

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