sábado, 29 de setembro de 2007

Agripina Vieira: sobre O Meu Nome É Legião


Uma voz que diz... o mal

Numa já longa e espantosa carreira literária, que tem o seu início, como todos sabemos, em 1979 com a publicação de Memória de Elefante, António Lobo Antunes tem vindo a convidar os seus leitores a entrar em mundos ficcionais cada vez mais densos e complexos. Se por um lado, cada novo romance seu se inscreve indubitavelmente num contínuo narrativo, por outro lado constitui-se igualmente como uma novidade em relação a tudo o que já tínhamos dele lido. Quero com isto dizer que estamos perante uma obra de tal forma rica e complexa, que se torna difícil  definir ou periodizar. Em vez de balizas temporais, ocorre-me, para a caracterizar, uma metáfora musical, muito a jeito, aliás, do universo romanesco antuniano (para além de inúmeras letras de cantigas pontuarem os textos, dos títulos com conotações musicais, o autor em várias entrevistas tem-se referido à estrutura sinfónica dos seus romances): diria que a obra de Lobo Antunes é uma longa composição onde o tema, ou seja, a ideia melódica, me matiza de variações, o que me leva a concluir que estamos perante uma obra que se inscreve simultaneamente sob o signo da continuidade e da inovação.

Com efeito, as balizas periodológicas, dentro das quais os críticos ou estudiosos intentam «arrumar» os romances de Lobo Antunes, vão mudando consoante os parâmetros de análise que elegermos. Senão vejamos: parece consensual que os três primeiros romances formam um todo coeso de pendor mais autobiográfico; no entanto, do ponto de vista temático, Os Cus de Judas e O Conhecimento do Inferno encontram prolongamento discursivo em As NausFado Alexandrino e, obviamente, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo, livros onde se problematiza os horrores da guerra. Mas, de um outro ponto de vista, podemos afirmar que O Meu Nome É Legião, o seu novo romance, retoma e desenvolve aspectos já enunciados em O Conhecimento do Inferno, de 1980. Não será por acaso que, nesta brevíssima apresentação, um título regressa incessantemente: O Conhecimento do Inferno. Ao invés, a reiteração resulta antes da importância fulcral que este romance ocupa na produção romanesca de Lobo Antunes, importância para a qual o autor já tinha chamado a atenção, quando disse, numa entrevista ao Público, em 2003: «Muitas das coisas que faço agora estão em botão no Conhecimento do Inferno». E, de facto, assim é: O Meu Nome É Legião regressa à questão fulcral da representação da violência, à volta da qual o entrecho do terceiro livro de Lobo Antunes se constrói, apresentando-se ambos como uma reflexão sobre o mal.

Se em 1980 o autor problematizou a infinita dor dos homens que viveram a violência absurda da guerra e a violência desumana do internamento no hospital psiquiátrico, neste romance o leitor é confrontado com um outro tipo de realidade, marcada pela violência urbana vivida nas sociedades contemporâneas e apreendida no seu estado mais absoluto de crueldade. A variação reside, pois, no modo particular e inovador de dar conta das falas das personagens. Ao longo das perto de quatro centenas de páginas, distribuídas por 19 capítulos, que compõem o romance, assistimos a um jogo peculiar de intensificação e diluição das vozes narrativas, por meio da utilização ou da ausência de travessões a antecederem as falas, alteração que se produz em cada três capítulos, à excepção dos últimos seis, onde se respeita o uso normativo do travessão. Esta técnica discursiva cria um curioso efeito de diluição e, por vezes, de indefinição, no maga textual, das várias vozes narrativas, que surgem como se fossem conduzidas por uma voz interior, que reafirma ocasionalmente a sua presença, como na seguinte expressão: «Já garanti ser uma voz que dita umas ocasiões tão depressa que não a acompanho e outras silêncio horas a fio e eu de bico no papel».

A questão da voz é particularmente importante neste romance: múltiplas vozes povoam o silêncio da comunicação, outras há, como anteriormente referi, que conduzem a narrativa. Mas uma fundamental abre a narrativa e dá título ao romance: é a voz do mal corporizado no homem interpelado por Jesus, que orgulhosamente afirma «o meu nome é legião, referindo-se às inúmeras formas e designações que o mal toma.

O Meu Nome É Legião conta a história de um grupo de oito jovens: «Um branco, um preto e seis mestiços [..]/ de idades compreendidas entre os 12 (doze) e 19 (dezanove) anos», organizados em bando que se dedica a actividades criminosas, sobretudo roubos. O Ruço, O Gordo, O Capitão, o Miúdo, o Galã, o Cão, o Hiena e o Guerrilheiro moram no Bairro 1º de Maio (nome fictício, sob o qual podemos adivinhar e reconhecer outros, esses bem reais, que são assunto de notícia na nossa comunicação social), nos subúrbios de Lisboa, amplamente descrito, uma vez que se constitui como ponto de ancoragem dos jovens delinquentes, que aí regressam após realizarem os inúmeros e violentos assaltos.

As suas viagens permitem-nos construir uma cartografia da grande área metropolitana de Lisboa: do Bairro 1º de Maio a Sintra, de Sintra a Lisboa, do Bairro a Lisboa, do Bairro à primeira área de serviço na auto-estrada do Norte, regressando até Santarém, passando depois perto de Alenquer, de Benfica até Amadora e Brandoa. As deambulações dos jovens por esses espaços, que vão sendo descritos pelos vários narradores que alternadamente tomam a palavra, num exercício de verbalização sempre difícil e doloroso, permitem pôr a nu os contrastes, a heterogeneidade e até o antagonismo de espaços que, do ponto de vista físico, se tocam mas que um fosso social separa.

Este romance constrói-se, mais uma vez, sobre a figura do inquérito, neste caso pelo viés de relatórios policiais e transcrições de depoimentos e testemunhas, sempre entrecortados e preenchidos pelos pensamentos das personagens. A narrativa inicia-se com o texto do polícia a quem foi atribuída a investigação, Gusmão, um polícia já em fim de carreira, que ninguém respeita no serviço, cuja existência era caracterizada por um enorme sentimento de solidão e abandono, até ao momento em que, a mando do seu chefe, vai viver para o Bairro sob disfarce, de modo a obter informações mais precisas das actividades quotidianas e criminosas dos jovens. O relatório circunstanciado das ocorrências presenciadas é, por isso, incessantemente interrompido para dar lugar à expressão dos seus sentimentos mais íntimos ou recriminatórios das práticas da instituição a que pertence.

O texto, que lentamente se constrói, em simultâneo com a nossa leitura, dá conta, de uma forma fragmentada e penosa, das actividades do bando, mas também da sua solidão, da indiferença da filha, do carinho e companheirismo do padrasto em contraste com a impaciência da mãe. A missão, que agora lhe confiam, leva-o a alterar as suas práticas costumeiras, uma vez que vai viver para o Bairro,  para casa de uma mestiça. Embora tenha relutância em reconhecê-lo, devido a convicções racistas muito arreigadas, paulatinamente vai olhando para a mulher com quem vive de modo diferente, transformando-se a repulsa inicial em carinho e desejo de protecção. Nunca o confessando, nem mesmo em pensamento, sente afeição pela mulher de quem recusa pronunciar o nome, insiste em chamar-lhe preta, por isso é ele que vai abrir a porta aos colegas aquando da investida policial contra o bairro, permitindo-lhe, deste modo, a fuga.

Ao relatório do polícia seguem-se os depoimentos das várias testemunhas, ou seja, das personagens que com eles conviveram: a prostituta branca, amante do Gordo; o padrasto; a mãe e o avô do Miúdo; a irmã do Hiena; o branco companheiro da irmã do Hiena; as mestiça que vive com o polícia; o denunciante, dono de um armazém onde guardava e comercializava as mercadorias roubadas; um dos polícias que participou no assalto ao Bairro. Só no final do romance, nos capítulos 15 e 19, a narrativa é entregue pela primeira vez aos jovens, que em discurso directo apresentam uma outra versão dos acontecimentos, dando conta de outras dores, as que forma por eles sofridas: sabemos dos maus-tratos familiares, da ausência da mãe, da falta de afectos, dos actos violentos praticados a mando dos familiares, dos abusos sexuais ocorridos na instituição a que foram confiados pelas pessoas que deveriam protegê-los (um médico com a conivência e apoio de um vigilante).

O sofrimento do abuso sexual narrado nos dois capítulos referidos traz-nos à memória histórias actuais bem reais: reconhecemos as práticas de pedofilia praticadas por pessoas influentes em instituições para jovens, as viagens até uma casa em Évora, a tentativa de protecção inglória do mestre da carpintaria. Estes jovens, apesar da violência condenável dos actos praticados, carregam histórias irremediavelmente marcadas pelas mesmas misérias, dores e ausências, e que por esse motivo se confundem numa amálgama de sentimentos e dores indizíveis, circunstância que do ponto de vista textual se consubstancia numa indefinição das vozes narrativas, apenas rotuladas no relatório do polícia.

Num capítulo de uma grande beleza de escrita, Hiena (cuja morte foi anteriormente narrada pela irmã), o mais jovem do bando, toma a palavra, pelo recurso da analepse, e mostra-nos que não há verdades absolutas, que o bem e o mal, o medo e a valentia, coexistem em cada homem.

O Meu Nome É Legião narra-nos um universo povoado de seres dilacerados e estilhaçados, que vivem um conflito interior travado entre as várias facetas das suas personalidades, em luta contra os fantasmas e as obsessões que teimam em surgir e põem a nu fragilidades inconfessáveis e sofrimentos inomináveis.


Agripina Vieira
em Jornal de Letras, edição nº 965
26.09.2007

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