segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Leandro Oliveira: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


O Amor no Livro de António Lobo Antunes

O amor idealizado é um tema que marca a tradição literária portuguesa desde a lírica trovadoresca, com as antigas cantigas de amor entoadas a musas inalcançáveis, até os principais autores portugueses contemporâneos como António Lobo Antunes. São os ecos dessa tradição que dão título ao lançamento do escritor, o romance Eu Hei-de Amar uma Pedra, um verso de um antigo cancioneiro português. A ligação da tradição portuguesa feita no título realça o trabalho ousado de Lobo Antunes ao renovar a literatura portuguesa e mundial, mesmo ao falar mais uma vez da impossibilidade de certas relações amorosas, um tema recorrente, mas que pelas mãos do escritor conseguimos perceber novos detalhes. Apoiado no passado, a obra é poeticamente construída e marca o leitor com um texto montado a partir de estilhaços da memória.

António Lobo Antunes é um exímio escritor que cada vez mais se tem destacado não somente pelos prêmios literários acumulados, mas principalmente por uma obra que apresenta uma produção consistente, que se recusa a propor facilidades ao leitor. Numa de suas crônicas, reunida em seu Segundo Livro de Crónicas e ironicamente intitulada Receita para me lerem, o escritor diz que suas obras são compostas "apenas por largos círculos concêntricos que se estreitam e aparentemente nos sufocam. E sufocam-nos aparentemente para melhor respirarmos." Tal sufocamento, apesar do hermetismo que inicialmente se apresenta ao leitor, produz o que o autor diz ser um "contágio por uma doença" que faz o leitor "convalescer após a última página".

As obras do escritor se caracterizam por essa tentativa de contagiar o leitor, sendo bem-sucedido em maior ou menor grau, equilibrando suas expectativas e as expectativas de um leitor mais exigente. Na sua primeira fase, a trilogia Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno, os livros são quase uma catarse, com o tema da guerra na África sendo atravessado pela linguagem (Lobo Antunes serviu como médico militar na guerra de Angola durante quase três anos), dum modo que chama a atenção do leitor mas cujo 'contágio' parece ainda reticente. Daí, em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, há ainda uma preocupação em exibir seu domínio da linguagem e o resultado é um livro excessivamente hermético, onde o leitor quer se deixar 'contagiar', mas muitas vezes é afastado. Sendo assim, é possível dizer que Eu Hei-de Amar uma Pedra é mais bem-sucedido em atingir esse objetivo, um livro que conseguiu equilibrar sua maneira de evocar o passado à bela linguagem, apresentando dificuldades, mas não de maneira gratuita, resultando no reconhecimento do leitor e produzindo enfim seu 'contágio'.

Na primeira parte, o narrador introduz o leitor na história através da descrição de fotografias, onde cada detalhe serve para fazer com que o passado venha à tona e seja invadido por vozes que tentam recompô-lo. Uma voz masculina apresenta ao leitor sua infância, sua participação como soldado em Guiné-Bissau, seu casamento, suas filhas e um amor da juventude interrompido pela internação da mulher num sanatório em Coimbra. No entanto, resumir a história somente a esses fatos pode dar uma idéia errônea do romance, já que é na linguagem utilizada que a recordação do passado se transforma em algo tão sublime. À medida que a leitura avança, o leitor percebe que há uma circularidade em sua narrativa. Como rodas dentadas de um relógio, onde cada dente representa um personagem, a narrativa dá voltas, apresentando em cada volta estilhaços da história, que aproximam alguns personagens, mas que no momento seguinte são afastados por um novo estilhaço. Lobo Antunes consegue fazer com que primeiro sintamos a beleza da linguagem para depois compreendermos o significado da narrativa. Ou seja, enquanto os autores ruins procuram esconder sua incapacidade de cuidar da linguagem através de uma história que chama atenção do leitor, o escritor faz justamente o contrário: realça o domínio que tem da linguagem bela e poética, fazendo com que a história sempre permaneça em segundo plano. Um recurso ousado que somente os grandes escritores podem se dar ao luxo de utilizar.

Um outro recurso que contribui para embaralhar o entendimento do leitor sobre a história é o de mudar o ponto de vista narrativo em meio aos acontecimentos narrados. Por exemplo, em determinado trecho a narração é feita por um personagem masculino e subitamente percebemos que uma mulher assume o relato, fazendo com que o leitor pare e reordene a compreensão que tinha da história até ali, tentando discernir que fatos se referem a um personagem e que fatos se referem ao outro.

No entanto, a maior dificuldade desse romance surge quando uma voz de narrador consciente aparece misturando tudo e colocando em xeque todo o entendimento que possuíamos. Apesar de tudo ser ficção, geralmente, quando nos são apresentados personagens, cada um possuindo um passado e com um ponto de vista, construímos em nosso imaginário aquele mundo descrito. Mas daí vem o narrador consciente de seu papel e diz: "Não se empolgue, isso é apenas uma história de ficção que procura dominar suas emoções!" Por exemplo, na página 127 do romance, a voz masculina solta a frase:

"(ou sou eu que imagino ou é o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore)"

Há, portanto, um narrador que se reconhece como um narrador de ficção. Avançando, novamente encontramos a figura tecendo comentários sobre detalhes da história contada até ali:

"ia dizer abanando a cabeça mas não caio num lugar-comum tão grosseiro, a queixar-se em silêncio, de cabeça bem firme, da ingratidão da filha, não da Alemanha
(que teimosia)
que desgaste para mim obrigarem-me a repetir que na Bélgica, que esforço idiota, e não em Bruxelas nem em Bruges
(tão pouco caio nessa)
em Gand, que isso contaram ao alfaiate
(com a história de lhe terem contado resolvo a questão)"

Passamos então a conhecer não somente os detalhes da história, mas também os embates que o narrador passa a encontrar para narrá-la da melhor forma. A circularidade, portanto, que víamos na história passa a penetrar até mesmo no conceito que possuíamos do texto que estava sendo lido. Antes era um texto de ficção, agora passa a ser uma ficção sobre o que é escrever um texto de ficção, inserindo mais uma camada de dúvidas e questões literárias. Tantas questões e tantos recursos fazem com que o leitor passe pelas mais de quinhentas páginas do livro sem perder o interesse, pelo contrário, ao chegar à última página a vontade é de recomeçar a leitura para apanhar os detalhes que não foram percebidos. Sensações que se misturam, assim como a história, resultando num livro delicado e complexo, leve, porém, marcante. Para o leitor que ainda não conhece a obra, o convite para se contagiar está dado.

 
por Leandro Oliveira
30.07.2007

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