domingo, 13 de janeiro de 2008

Paulo Barriga: opinião sobre O Meu Nome é Legião


Logo à noite, lá para as nove e meia, [dia 7 Dezembro 2007] António Lobo Antunes vai estar em Beja, na Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago, para falar sobre o seu último livro, O Meu Nome é Legião, e também para o autografar. Se ele tiver paciência e vagar, lá estarei para engrossar a fila com o exemplar que me remeteram da Dom Quixote e que eu li com o mesmo frenesi ou alucinação com que li os restantes volumes da sua obra (dezanove, com este). O livro que hoje quero ver riscado pela lapiseira de Lobo Antunes até pode não ser a sua grande obra-prima (o que dizer, por exemplo, de As Naus ou de Fado Alexandrino?), mas é certamente um dos mais inesperados.

O Meu Nome é Legião é surpreendente porque o autor, ao contrário do que costuma ser habitual nos seus romances, fabrica agora os personagens na agenda informativa do dia, recorta-os das páginas do "Correio da Manhã", decalca-os do violento alinhamento dos noticiários da TVI, descobre-os na batalha que diariamente está travada nos bairros degradados da periferia. O narrador é um polícia à beira da reforma, 63 anos, cuja missão é reconstituir o percurso e as atrocidades que um bando de jovens delinquentes do Bairro 1º de Maio acabou de cometer.

Roubo de automóvel. Assalto violento a estação de serviço com disparos e vítimas. Incursão impetuosa numa loja de telemóveis. Carjacking com sucessivas violações à ocupante na presença do companheiro. Regresso às ruas escuras e contorcidas do bairro. São estas algumas das etapas do calvário que o velho investigador terá que percorre e, antes de tudo, que anotar no seu pormenorizado relatório.

Aliás, o livro, numa leitura muito superficial e imediata, é a descrição policial, é o relato exaustivo, dos passos e dos actos praticados pelo gang da favela lisboeta. Na aparência, e apenas aí, trata-se de um romance policial na voz de uma só pessoa, que, afastadas as infindáveis distâncias, faz lembrar a narrativa amanuense que está por detrás de Balada da Praia dos Cães, livro simbólico de José Cardoso Pires, cuja publicação ocorreu há precisamente 25 anos.

Mas como tudo o que brota da imaginação de Lobo Antunes, O Meu Nome é Legião também não é um exercício assim tão simples e linear como o estávamos a pintar. É um facto que o romance parte dessa possibilidade narrativa que é o relatório policial desenvolvido por um agente minucioso. No entanto, o relato depressa começa a ser interceptado por estilhaços da memória do polícia. Depressa o investigador começa a dialogar consigo próprio, esboroando toda a sua existência, desfazendo-se como se fora um daqueles bolinhos de açúcar a que chamam "areias".

E é neste cruzamento quase inverosímil entre a exposição escrita de uma investigação criminal e as recordações fraccionadas do redactor que o leitor mergulha abruptamente naquilo a que podemos chamar de vórtice Lobo Antunes. Um poço infindável onde a mente chega a ser mais material que a própria matéria e onde a introspecção é apenas uma artimanha para manter vivos os protagonistas da história: "visita-me a suspeita de existir qualquer coisa em mim, no aspecto, na maneira de exprimir-me, que afasta as pessoas" (p. 26).

António Lobo Antunes – este livro é a décima nona prova disso – está muito para lá da algazarra menor que é o panorama literário português da actualidade. No campo da ficção, na triste altura em que Agustina e Saramago deixaram de produzir, Lobo Antunes acaba por ser o último romancista que nos resta. No país dos poetas, esta noite vou querer ouvir um que não é, sendo-o tão profundamente.


Paulo Barriga
artigo publicado no Diário do Alentejo
07.12.2007

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