quarta-feira, 23 de abril de 2008

Gregório Dantas: Todos ao caldeirão

edição Alfaguara - Brasil

Conhecimento do inferno, de António Lobo Antunes, em tom mordaz e de zombaria, não poupa ninguém numa viagem pelo horror da existência

[...] Memória de elefanteOs cus de Judas e Conhecimento do inferno foram lançados em um prazo muito curto, entre 1979 e 1980. Enredos e temas se assemelham: nos três romances, a ação transcorre em curto período de tempo (cerca de um dia) enquanto o protagonista, um médico psiquiatra que tem muito de Lobo Antunes, às vezes até o nome, rememora sua vida. O texto é essencialmente um longo monólogo interior, em que se entrelaçam memórias da infância, da família, do hospital psiquiátrico, da guerra colonial em Angola.

[(no Brasil)Conhecimento do inferno não parece estar entre os títulos mais festejados do autor. Talvez exatamente por ser o fecho de uma assim chamada trilogia, carregue certa impressão de cansaço da forma ou do tema adotados. Essa impressão é falsa: trata-se de um grande romance. Além disso, a leitura em conjunto dos três livros promove uma rica visão de como obsessões formais e temáticas de um grande autor podem adquirir novos contornos, em um rico jogo de auto-referência e reavaliação literária. Jogo que, no limite, persiste em seus livros até hoje.

Muitas vezes, um bom romance começa na epígrafe. A de Conhecimento do inferno é a transcrição do trecho de uma resenha publicada no The Quarterly Review, em 1860, sobre um romance de George Eliot. O resenhista, conservador e rigoroso, condena o tipo de ficção que se ocupa de vícios, crimes imaginários, fantasias e perplexidades, assuntos que podem invadir e corromper as mentes dos leitores, "com o conhecimento desnecessário do inferno". Em certa medida, (re)conhecer o inferno é precisamente ao que se propõe a literatura de António Lobo Antunes.

O enredo gira em torno de uma viagem de carro que o narrador empreende pelo sul de Portugal, do Algarve em direção a Lisboa. Cada localidade que atravessa corresponde aproximadamente a um capítulo do livro, até a chegada na casa dos pais, na madrugada do mesmo dia. A ação dura, portanto, parte de uma tarde e de uma noite. Como nos romances anteriores, a memória pode ser deflagrada voluntária ou involuntariamente, por imagens ou palavras que remetam, mesmo que de maneira tortuosa, a eventos da infância do narrador, da guerra colonial, da família. A rememoração, porém, nunca é linear e é sempre carregada de um alto grau de estranheza. Colabora, para esse estranhamento, o requinte dos detalhes e de certas metáforas incomuns que fazem de objetos cotidianos imagens aterradoras, provocando a transfiguração quase surreal do cenário e dos personagens.

Logo no início do romance, por exemplo, chama atenção a artificialidade caricatural da paisagem. Na região de veraneio, tudo é falso, e apenas os turistas estrangeiros parecem não se dar por isso: "O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem". Sob o "sol de papel", os turistas compram "colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo", e consomem "bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas da televisão". O narrador, rancoroso, não poupa a vulgaridade das classes média e alta, ao atravessar os lugares "onde pessoas de plástico passavam férias de plástico no aborrecimento de plástico dos ricos, sob árvores semelhantes a grinaldas de papel de seda".

Torna-se evidente o contraste destas imagens kitsch com as impactantes memórias do narrador. Em Conhecimento do inferno, prevalecem as lembranças de sua passagem pela guerra colonial em Angola e da experiência no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, onde ingressou em 73, "para iniciar a longa travessia do inferno".

Sem noite
Um episódio em particular merece especial atenção. Na África, um nativo ensina ao narrador que em Lisboa não há noite, e que o dia europeu se divide em dois: o do sol e o dos candeeiros. Já Angola, diz o narrador, "é um país de leprosos e de treva, um país de vultos inquietos, de rumorosos fantasmas (...) É o país onde os defuntos assistem sentados aos batuques, frenéticos da presença invisível dos deuses". No país da guerra, os homens são "animais de sombra", e a natureza assume contornos de um pesadelo sombrio. Em Portugal, contudo, o narrador reencontra as sombras e o pesadelo nos recônditos do hospital, onde a noite se esconde. Nas esquinas dos corredores, na prática médica ou nos efeitos dos remédios encontram-se "absolutas trevas, de um negro tão completo como os das noites dos cegos, cujas órbitas se assemelham a pássaros defuntos estendidos nas gaiolas das pestanas".

Mas o tom grave e de pesadelo dessas imagens ganha ares cômicos em diversas passagens. Em relação aos livros anteriores, em Conhecimento do inferno é mais evidente o tom de zombaria, de uma mordacidade que não dispensa imagens fortes e não poupa ninguém, principalmente a classe médica. O conhecimento dos médicos é reduzido a "palavrões imbecis" ou um "Reader's Digest pretensioso" e sua atividade é comparada à da Inquisição. Pessoalmente, seus colegas são verdadeiras caricaturas sinistras: uma médica possui feições de égua, uma "psicóloga feia" esconde "múltiplos membros aracnídeos de unhas roídas", além daquele médico com uma "barba Colóquio Letras & Artes" (em referência à prestigiada revista acadêmica portuguesa), "que possuía a compostura dos estúpidos, essa espécie de comedimento imbecil que faz às vezes do bom senso".

A prática psiquiátrica é ridicularizada a ponto do próprio médico ser confundido com um paciente, sem que haja qualquer indício de que o equívoco será corrigido. São demolidas definitivamente as fronteiras entre sãos e doentes: depois de assistirmos aos vôos dos pacientes, o próprio narrador perde os pés do chão.

Os meus próprios ossos adquiriam uma textura de espuma, a carne ornava-se fibrosa e leve como a madeira dos barcos. (...) Uma bolha de gás escapou-se-me do ânus. Deixei de sentir o chão nos sapatos. O corpo inclinou-se a pouco e pouco até se tornar horizontal, e desatei a remar na luz, piando desesperadamente na direcção dos outros.
Acho que nunca tinha voado.

Mas a principal fronteira a ser derrubada é outra: o recorrente paralelismo entre as memórias de guerra e as do hospital confere a ambas um caráter cada vez mais insólito. A prática canibal sugerida em um momento extremo no interior da África é transposta para uma reunião elegante entre os médicos, e estes compartilham com os soldados a prática da tortura e o exercício do poder pelo medo.

Entre os procedimentos mais comuns usados por Lobo Antunes para tornar quase indissociáveis as memórias de guerra e as do hospital consiste na repetição constante de uma frase ou uma expressão que ecoa entre os dois mundos. À certa altura, o narrador afirma, peremptório: "Nunca saí do hospital". Afirmação instigante, que sugere de imediato que a experiência do inferno hospitalar jamais o abandonou. Inferno cujo conhecimento o autor promove através dessa literatura forte, violenta, que não admite concessões.

Descrito assim, o romance perde muito. E essa trilogia "autobiográfica" de Lobo Antunes pede inevitavelmente uma releitura: haverá sempre imagens ou associações de palavras que, perdidas das sombras do texto, passaram despercebidas, mesmo ao leitor mais atento. Que a ficção de António Lobo Antunes mudou muito desde então, somos forçados a concordar. Mas seus livros iniciais são muito mais do que mero rascunho para as obras mais maduras. Como poucas narrativas contemporâneas, esses livros elaboram uma sofisticada rede de imagens e sentidos dos quais não é permitido se expor impunemente. [...]


Gregório Dantas
não datado

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