terça-feira, 13 de maio de 2008

Do leitor Joaquim Barão Rato: «Amanhã logo se vê»

Amanhã Logo Se Vê...

Caro António

Que ganho eu em não ser artista? Quer dizer: ganho só os malefícios? Sofro desalmadamente como eles. Aguento a solidão como eles. Só não escrevo, nem pinto, nem esculpo, nem fotografo, nem nada como eles.

Conheces algum artista feliz? Boa pergunta. Mas olha: que me lembre agora, não. Mas se o dilema está entre ser artista ou ser feliz eu não teria motivo para não o ser. A ti também não te acho muito feliz. Mesmo quando te vejo nas fotografias parece-me sempre que não estás lá. Está só a imagem, como se tu tivesses fugido antes da máquina disparar. Não se percebe o que quero dizer mas não sei explicar melhor. E nas entrevistas deixas-me a mesma sensação de enfado, de quem está cansado de tudo. Pareces-me, às vezes, um bocado farto de ti. Se calhar eu é que quero pensar assim mas é porque isso me acontece amiúde. De qualquer modo, segues a regra: ou se é feliz ou se é artista. E tu és artista e dos maiores. 

Achei-te há tempos, nas tuas crónicas. Tenho livros teus nas estantes. É fino. Talvez as crónicas me façam fome de te ler. Hoje acho que era de caras. Mas os teus livros ficaram na casa do Algarve. Fica para o fim-de-semana. Só que acho que isto não é uma questão de fome. Onde é que eu vou arranjar cabeça onde tu caibas? Bem vês, a culpa não é minha. Ou, para dizer melhor, não é só minha. Cada um tem o que a vida lhe quer dar (não o que merece, como dizem, porque eu tenho a mania que merecia mais). Não me habituei a ler na altura devida. Ninguém me ensinou, ninguém me estimulou. Havia mais (e muito diferente) para fazer. Digo ler coisas de mais fôlego, com mais conteúdo e dimensão. Vá lá que, como disse, leio, por exemplo, as tuas crónicas. Se leio…

Mas, dizia eu, achei-te nas crónicas. Por elas mantemos um contacto regular. Até me fizeste inventar uma nova forma de ler a revista. Abro-a e vou directo à crónica. Depois volto ao princípio e vejo no índice se há mais alguma coisa que me interesse especialmente. Só depois vai o resto. É leitura para aí para dois serões.

Na crónica de hoje vejo que tenho alguns dos defeitos do pessoal da escrita. Sofro que me desunho, não é invulgar andar de copo na mão e não raro sou mais solitário entre a gente do que quando estou sozinho. Depois vá de me achar incompreendido, mal amado, sei lá que mais. E a crónica a abrir-me horizontes e a fazer-me pensar que tenho alguma coisa em comum com aquela gente. Mas só nos malefícios, já disse. O destino deste escrito é o mesmo do da tal segunda parte das Almas Mortas do Gogol. Só que isso não me vai tornar nem mais nem menos célebre. Ninguém vai dizer: fulano escreveu uma coisa para o Lobo Antunes e depois rasgou-a. Quem é que quer saber disso? Mas estou a sentir-me tão bem que não me importo de mais nada. A gente tem esta cumplicidade regular e já nos conhecemos razoavelmente. Claro que isso não me dá, nem de perto nem de longe, direito a este tratamento por tu. Mas dá mais jeito à escrita e, de qualquer forma, tanto faz. Se é para rasgar o que é que isso interessa? De qualquer modo nós devemos ser moços para idades semelhantes. Tu volta e meia falas de Angola e da tropa e eu fui dos primeiros a serem mandados para lá. De maneira que devo ser mais velho. Não me apetece ir ver a tua idade à Internet (a Internet é que sabe tudo) para não perder o fio à meada (eu sei que não há meada nenhuma, estou só a armar-me). Mas pela idade não há problema. Por seres doutor também não porque não me pareces lá muitopraticante. E depois o susto que apanhei quando soube que te andavam a cortar para te tirarem qualquer coisa que te dava problemas também me dá alguns direitos. Se a gente sofre por alguém é porque tem alguma coisa a ver com ele… A propósito: foi impressão minha ou também te assustaste um bom bocado? Tradicionalmente vocês, os médicos, são mais cagarolas que nós, os ignorantes.

Seja como for não é só o tal de Apollinaire que tem direito a pedir piedade. No meio daquela gente toda que se esfalfou para deixar obra (e que referiste na crónica de hoje) há loucura que chega para meio mundo. E sofrimento. Mas, como bem referes, antes de piedade merecem gratidão. Fique então a piedade para mim que encho gavetas de escritos que só vão servir para dar trabalho aos que cá ficarem. Se calhar vão ter pena de os queimar não vá eu estar a vê-los.

Hoje não me apetece rasgar o escrito. Amanhã logo se vê…

Joaquim Barão Rato

PS: Depois de ter escrito isto (juro que foi só depois) descobri um sítio na Internet que serve para quem “pretenda fazer uma dedicatória a António Lobo Antunes”. Se calhar já não rasgo nada e vou tentar enviá-lo. Não altero, sequer, uma vírgula. Depois se verá. Mas, pela tua saúde, não me leves a mal...
J. R.


Joaquim Barão Rato
e-mail de 13.05.2008

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