domingo, 12 de outubro de 2008

Paulo Afonso Ramos: opinião sobre Livro de Crónicas


Mais um domingo com todos os que já perdi. Um sol abrasador que me impede de sair de casa. A idade teima em restringir-me os desejos e, nas limitações do meu corpo, rendo-me, sem que antes tenha lutado para modificar o que quer que seja.
 
Pego no livro – Livro de Crónicas – de António Lobo Antunes, e começo uma nova etapa, talvez para esquecer a minha realidade ou para deliciar-me nos prazeres de uma escrita atenta e tão real que me adormece o desejo.
 
Desfolho cada página com uma ansiedade crescente para que depressa possa chegar ao fim de cada crónica que escreve. Quero receber cada mensagem ali deixada e satisfazer a minha curiosidade em cada final. Deixo-me ir nas palavras do autor e até consigo ver as imagens que desenha com as palavras. Sinto as suas metáforas como se tivessem vida.
 
Não paro. Nem a surpresa cabe em mim, quando leio os passos dados pelo autor pelos mesmos sítios pisados por mim. Sinto-o omnipresente. Sinto que pertence à vida que vivi e que percorreu os mesmos lugares públicos que percorri e, na semelhança, até descubro que gostamos do mesmo filme que, na época, era cabeça de cartaz.
 
O meu domingo é mais sorridente assim. O sol já não importa se queima ou sorri e o meu corpo já não me impede de viajar aos lugares mais desejados pelo meu pensamento abstracto ou lúdico.
 
De tudo, sobra-me a vontade de escrever, de escrever como o senhor António, de ter a coragem de escrever muitas frases entre outros, algumas com a fragrância da verdade rejeitada e outras com a dureza dos tempos que já esquecemos. Mas não! A minha consciência pede-me calma, ilumina-me a realidade e diz-me que não será, de todo, possível escrever como o senhor António. Ele é, de facto, alguém que domina as palavras e que brinca com as personagens do seu eu. É, portanto, alguém de outra esfera superior. Resigno-me à minha realidade, mesmo antes de o tentar. Que importa afinal, se o prazer da sua escrita me seduz em cada leitura que faço? Que interessa, se cada crónica sua é um alimento que preciso? Não importa. Nada mesmo, porque basta-me que cada leitura tenha sido acompanhada por um soberbo prazer. Sobra-me ainda a vontade de escrever, a minha maneira, com as minhas palavras e os meus sentimentos retirados de mais um domingo igual a tantos outros que já perdi.
 
Um dia talvez conheça o senhor António e os meus olhos brilhem pedindo um aperto de mão e umas palmadinhas nas costas. Talvez seja o momento maior de um domingo qualquer por acontecer. Por ora, deixo-me extasiado entre os sonhos desejados e a realidade que aquele Livro de Crónicas me empresta. Resta-me agradecer-lhe e esperar por um domingo qualquer. Obrigado senhor António.


Paulo Afonso Ramos
08.09.2008

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