sábado, 8 de novembro de 2008

Tim James Booth: opinião sobre O Arquipélago da Insónia


«- Somos dois homens rapaz
a cerrar a tampa sobre mim e a afastar-se nas ervas para eu não acordar.»
- António Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia

Ao pousar o livro sobre a secretária ainda tremo quando me lembro que este exemplar em particular me foi entregue em mãos pelo autor, assinado e dedicado, no primeira (talvez única) oportunidade que tive para o conhecer. Ainda me ressoam nos ouvidos as palavras curtas e, apesar disso, tão longas que trocamos, o sorriso inesperado, o elogio sussurrado, a minha voz a tremer, as minhas mãos a tremer, o livro a tremer quando lho estendi, o livro seguro quando me devolveu, uns poucos minutos que vão ficar para sempre na minha memória e umas palavras que vão para sempre ficar escritas no meu livro, pela mão do génio Lobo Antunes, quem sabe próximo Nobel da Literatura português, já que é eterno candidato. E um conselho, um conselho que guardarei para sempre na sua voz sumida e pensada, “Nunca empreste livros”, nunca os empresto caro doutor.

Isto para dizer que ler este livro não estava no meu plano de leitura, como disse anteriormente, primeiro queria aprofundar o início de carreira de Lobo Antunes, no entanto este Arquipélago pediu independência da minha jurisdição e em boa hora o fez. Não sou, certamente, o homem indicado para comentar a obra deste senhor se nem sequer um quarto daquilo que escreveu, e estou a falar apenas da ficção, fui ainda capaz de ler, por essa razão evitarei comparações, ainda que inevitáveis, com as obras que antecederam este romance. Podia bem começar por aí, contestar a eterna designação de romance que nada quer dizer e que dificilmente encaixa neste livro, mas que encaixa porque o livro não entra em mais lado nenhum. Mas fujo ao que interessa.

O Arquipélago da Insónia é a mais recente obra de António Lobo Antunes. É uma visão plural da história de três gerações de uma família disfuncional (como tantas nas histórias de Lobo Antunes) dona de uma herdade algures no Ribatejo, desde o seu crescimento pelo braço do Avô e do seu amigo de infância que se tornou no feitor, até ao declínio e à inexistência com que chegou aos seus netos. Disfuncional não chega para descrever esta família, se existe um avô com um filho que não respeita, “Idiota”,  um filho casado com uma ex-empregada da casa que era tomada pelo pai, como todas as outras, um neto que é autista e filho do ajudante de feitor, outro que simplesmente não quer ser, uma avó que tremia tanto como a chávena no pires e matava coelhos com uma paulada no cachaço, uma mulher que morreu em criança e a própria morte como prima da família. É isto o livro e nada mais, a história de uma família sem história, igual a tantas outras e diferente de todas, singular porque nasceu de uma mente singular e banal porque vemos em todos os membros do clã facetas nossas. Aparentemente Lobo Antunes aproxima-se cada vez mais do seu objectivo de encher os livros de nada, este é um livro carregado dele, de palavras que não existem, e que não precisam de existir para serem lidas, de história que não existe, e não precisa para ser conhecida, de morte que existe, e não precisava de existir para lá estar.

Durante dois terços do livro vemos a família pelo olhar do autista. E está brilhantemente bem composto. Ninguém sabe como funciona a mente de alguém assim, mas António Lobo Antunes não estará muito longe de um pensamento verdadeiro. Uma alucinante sucessão de tempos e datas e factos e histórias e imaginação e palavras soltas e tudo o mais o que pode passar por uma mente diferente. Talvez uma das mais intensas partes do livro será o último capítulo da parte II, em que o personagem se revela demasiado frágil para contar exactamente o que se passa, recorrendo inúmeras vezes a factos sobre cegonhas para se acalmar, entrecortando o discurso narrativo (como tantas vezes acontece ao longo do texto) com factos inúteis sobre as aves, até que atinge o clímax final, que não é mais do que um ponto temporário que se vai repetir ao longo de toda a terceira parte por diversas vezes vistas por diversas pessoas.

Por este olhar vemos nós grande parte da saga familiar e durante todo esse tempo o leitor não pode deixar de se sentir ligeiramente perdido, sem saber muito bem o que está a acontecer, e ao mesmo tempo, maravilhado. Mas claro, sendo Lobo Antunes, não podia ser uma só visão a contar-nos a história e no terço final sucedem-se os relatos diferentes das diferentes pessoas, e tudo, subitamente, começa a ficar tão claro e tão repentinamente claro que ficamos embasbacados com o génio do senhor que parecia escrever frases quase desconexas em tudo.

Como já noutros livros do autor acontecia,  o título, para mim, só faz sentido no fim. Mesmo nunca usando as palavras “arquipélago” ou “insónia” durante o texto, não é difícil chegar à conclusão de que todos são ilhas que vagueiam solitárias, presas na localização e no sangue, mas solitárias e acordadas pela noite, e pela morte, dentro. Lobo Antunes faz-nos um espelho feito de retratos, os retratos que estavam na sala da casa onde o autista via os parentes que rapidamente se transformavam em pessoas ao seu lado, um espelho onde vemos o nosso contínuo desejo de permanecer acordados. Eternamente acordados, perhaps?

Chego ao final desta recensão com um sentimento de incapacidade indescritível. Queria dizer tanto mais sobre este livro e nada mais me sai. Sinto-me pequeno, muito pequeno, perante um dos maiores nomes da literatura mundial e um dos maiores mestres da palavra portuguesa. Tal como me senti quando lhe apertei a mão há uma semana e pouco. Tal como me vou sentir sempre que tentar falar sobre ele ou a sua obra, ou sobre ambos, sendo ambos um, porque se confundem Lobo Antunes e os livros que escreveu, talvez mais do que o próprio autor desejaria.

É, sem dúvida, um livro inquieto de uma mente genial. Poderia escrever pela noite dentro e mesmo assim não seria capaz de reproduzir aquilo que o livro me disse sem, de facto, dizer nada. A verdade é que para um homem encher um livro de silêncio é muito fácil. O difícil é enchê-lo de silêncio cheio de palavras. Isso, António Lobo Antunes consegue-o magistralmente.

por Tim James Booth
05.11.2008

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