terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Ana Cristina Leonardo: sobre O Arquipélago da Insónia


Cercados pelo Vento

O vigésimo livro de António Lobo Antunes tem como pano de fundo o Portugal rural.

De acordo com a famosa frase do ensaísta inglês Walter Pater, «toda a arte aspira continuamente à condição de música». Esta concepção da música como a «grande arte» parece ajustar-se cada vez mais à escrita de António Lobo Antunes. [...] O Arquipélago da Insónia, indiferente ao pretexto ficcional - ascensão e queda de uma família latifundiária alentejana (?) -, surge habitado por uma polifonia de espectros, soando como uma melodia riscada por frases e sons sincopados e crispados, agentes devoradores da própria partitura do texto, que, ainda assim, sobrevive.

No princípio, há uma casa: «De onde me virá a impressão que, na casa, apesar de igual, quase tudo lhe falta?» Depois vão saindo dela, em lenta procissão, as personagens (mortas ou vivas?, acabará por perguntar-se o leitor, que não pode evitar Pedro Páramo, de Juan Rulfo): um avô («comandando o mundo»), criadas submissas («- Chega cá»), dois irmãos, um deles autista («repara no meu irmão que não responde a nada interessado na música»), uma avó («a chávena da minha avó a tremelicar no pires»), um feitor («sob as nogueiras a lutar com os sapatos sem dar com as árvores sequer conforme lhe sucedeu pisar o padre que se sumia na terra»), um ajudante de feitor («Para alguma coisa há-de servir esse idiota»), um pai («e ninguém ao seu lado, você sozinho pai e todavia à procura, as mãos a segurarem o que julgava as mãos da minha mãe»), uma mãe («alguma vez a vi sem ser de costas para mim?»)... somando-se a estas outras tantas, fios frágeis de um emaranhado narrativo que, à maneira de um sonho, tanto escapa à temporalidade sequencial como às leis de causa e efeito. E, também por isto, trata-se de um livro do qual se gosta mais à segunda leitura.

Chegados aqui, teria de nos vir à cabeça O Som e a Fúria, de William Faulkner, escritor que António Lobo Antunes diz ler cada vez menos mas de cuja família literária não poderá fugir. E, precisamente sobre a tragédia da família Compsons, escreveu ele: «(...) possui a qualidade de ser um romance que, tal como a grande poesia, se relê no maravilhamento da descoberta: a todo o passo damos com pormenores que nos haviam passado despercebidos, em cada página nos emocionamos.» Mas se, como n' O Som e a Fúria, também n' O Arquipélago da Insónia há uma família decadente e um «Idiota» a que se deseja dar voz, torna-se arriscado ir mais longe nas comparações. Neste, as vozes misturam-se (uma só, afinal?), o ritmo delirante é omnipresente, a alucinação é indistinta do real, e vivos e mortos trocam de papéis, esfumando-se, uns e outros, em fotografias antigas sem futuro. As palavras, naturalmente, atropelam-se, interrompem-se, rodopiando indiferentes às regras da identidade, da linearidade, indiferentes também à preguiça do leitor, esse leitor que já Machado de Assis interpelava ironicamente em Memórias Póstumas de Brás Cubas: «(...) tu amas a narrativa direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem.» Neste caso, claro, o estilo chega expurgado de realismo, mero pretexto imagético para um exercício radical de linguagem: onírica, exacta, cruel (a morte, o sexo e o crime manchamO Arquipélago da Insónia), nunca descarnada, à imagem da música, a mais racional e sensual das artes.

E por mais este livro, mesmo se distinto da condição mágica de «Iniji», se poderá dizer da busca literária de António Lobo Antunes o mesmo que Le Clézio disse dessa espécie de poema assinado por Henri Michaux (publicado n' As Magias de Herberto Helder): «As linguagens pesadas tropeçam nas suas consoantes, nas sílabas, como um cego tropeça nos móveis de um quarto desconhecido. Já não pretendemos falar todas as línguas. As palavras encontram-se além, sempre além, e é preciso apanhá-las depressa. As vogais que soam, ressoam. Talvez seja preciso abandonar tudo.»


por Ana Cristina Leonardo
Outubro 2008
Suplemento Actual do Expresso nº 1876

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