sábado, 30 de maio de 2009

Maria Celeste Pereira: opinião sobre O Arquipélago da Insónia

Finalmente respirei fundo e lá tomei alento para ler “O Arquipélago da insónia” de António Lobo Antunes que, há já uns tempos, aguardava a minha leitura.


Começo já por dizer que, embora não aprecie particularmente a imodéstia, a presunção conscientemente assumida do autor, não posso confundir essa sua característica com a sua qualidade como escritor.


Pois bem, devo dizer que gostei bastante do romance (se de romance se trata e não quero nem tenho condições para entrar nessa polémica. Nem tampouco acho que tenha qualquer importância. É uma mera questão formal).

Lobo Antunes centra-se numa personagem, um autista, e através de um discurso narrativo permanentemente fragmentado, sem atender a sequencialidades temporais ou semânticas, a relações de causa/efeito, misturando o real com a ilusão, o presente com o passado, colocando os vivos a dialogar com os já mortos, vai-nos desfiando a história de três gerações de uma família rural, provavelmente ribatejana, desde a sua ascensão (com o avô como o patrão prepotente e poderoso) até à sua queda total. O nada que o neto recebe.Este é o registo da maior parte do livro.

A parte final muda um pouco e é então aí que o autor coloca as outras personagens a transmitir a sua visão dos acontecimentos.É também quando tudo acaba por se encaixar e se abrir na nossa frente um exercício profundo de linguagem em que o enredo (pois subsiste uma história) serve apenas como pretexto para a recreação com as palavras que parecem ter vida própria e se escapam, irreverentes, às leis da linearidade.

Como se infere do que acabo de escrever não é um livro fácil. A intenção, no meu ponto de vista, também não é sê-lo. Por vezes é necessário reler trechos ou até capítulos para conseguirmos apanhar, sobretudo, a totalidade da magia das palavras bem como possíveis sentidos que nos escapem numa leitura mais desatenta.

Contudo, devo dizê-lo, é algo que se faz com imenso prazer. Aliás uma segunda leitura não está fora de questão.

Recomendo vivamente para quem tiver paciência para fazer da leitura um exercício de atenção.


por Maria Celeste Pereira
29.05.2009

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