sexta-feira, 17 de julho de 2009

Denis Araki: opinião sobre Os Cus de Judas


Sinopse: O livro revela aos leitores brasileiros, pela primeira vez, os horrores da guerra colonial na África, o reencontro de Portugal consigo mesmo e a dilacerante experiência de viver em silêncio uma ditadura fascista.

 
edição Objetiva, Brasil
O português António Lobo Antunes, para alguns eternamente injustiçado pelo Nobel de Literatura de 1998, em sua recente visita ao Brasil, reafirmou seu carinho por nosso País. Ele não consegue imaginar o Brasil como um país, o que vem a sua mente são pessoas, doces, seu avô, que era de Belém, as cocadas de sua tia. É a visão de um autor que vem realizando um profundo retrato do Portugal contemporâneo, questionando o conceito de nação.

Os Cus de Judas, livro de 1979 que compõe a primeira trilogia do autor (os outros livros são Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno), a que ele considera de aprendizagem, aborda os efeitos da guerra. A guerra em questão é a da libertação de Angola e seu resultado na figura de um médico enviado para o combate. Narrado em primeira pessoa, o médico passa uma madrugada até o amanhecer com uma mulher, começando em um bar e depois em sua casa. Nesse período ele conta sua história, entremeada com reflexões. O tempo é demarcado pela simulação de diálogo com a mulher, que não exprime uma palavra no romance.

Ainda que muito duro contra a guerra e contra essa noção de serviço à pátria, o texto possui momentos líricos, na medida do possível, como no trecho: “formávamos a cada jantar a anti-Última Ceia, o desejo comum de não morrer constituía, percebe, a única fraternidade possível.” O narrador sofre da falta de afeto que o atinge, ou, como ele prefere descrever, “esta angustiada sede de ternura que repele o afecto”. É a impossibilidade do amor e da readaptação que o aflige. Ele nasceu em um país “estreito e velho” e foi mandado para os “horizontes sem limites” das planícies de Luanda para cumprir o peso da tradição militar de sua família, requisito para se tornar um homem. O ressentimento a essa tradição é marcado ao longo do livro, e são poucos os momentos de ternura, principalmente de sua infância e de suas filhas.

É na descrição do cotidiano que sentimos o descaso do governo português e a dureza de se estar na guerra; nos relatos dos feridos vemos a falta de sentido no combate. É esse desconforto, essa dureza que faz com que os soldados descarreguem sua tensão no momento do combate. Algo conveniente.

Após vivenciar esses horrores, ele também vê a falta de sentido no cotidiano de sua cidade: “de chinelos, na cozinha, você prepara um café forte como um electro-choque que a projete para fora de seu invólucro de sono na direcção do emprego.” As pessoas seguem a vida apáticas enquanto os soldados estão “defendendo” a pátria. A falta do valor dos enviados fica mais evidente, “porque uma camioneta era mais necessária e mais cara do que um homem um filho faz-se em cinco minutos e de graça não é verdade uma viatura demora semanas ou meses a atarraxar parafusos.”

Há quem prefira as alegorias e o onírico de Saramago, há quem prefira a crueza do mundo e os profundos mergulhos na psique humana que Lobo Antunes proporciona. Depois de passar pelos Cus de Judas, percebe-se que a vida segue e um profundo desprezo, uma falta de sensibilidade, atinge aqueles que entraram forçados nessa guerra. Assim como aqueles que nem pisaram naquela terra vermelha.


por Denis Araki
13.07.2009

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