terça-feira, 22 de setembro de 2009

Ieda Magri: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


edição Alfaguara, Brasil

António Lobo Antunes, em Eu hei-de amar uma pedra, radicaliza sua forma esquizofrênica de escrita dando voz a múltiplos narradores que se revezam ao contar ao leitor os lampejos de uma história de amor – e muitas de rancor – entre um homem e uma mulher maduros que se encontram semanalmente numa hospedaria barata em Lisboa.

Se digo lampejos é porque, ao contrário do que possa parecer aos que não leram Lobo Antunes ainda, Eu hei-de amar uma pedra não é a história desse amor apenas. Esse escritor português, desafeto de Saramago, não investe em enredos, em clímax, no desenrolar de uma história bem contada no intuito de fisgar o leitor. Em seus livros – e neste de forma mais radical – são convocados os fantasmas de narradores diversos e o fio da história é a eles entregue para que, aparentemente, apenas sintam e lembrem. A voz feminina sempre está em destaque, como, por exemplo, em Exortação aos crocodilos, em que quatro mulheres nos colocam a par do que se passa dentro delas para também nos envolver com a história de Portugal, com a Guerra de Angola, com um grupo de homens terroristas, seus maridos, com o câncer de uma delas, com a mudez, enfim, com toda dor latente nas salas de conversas bem arrumadas. Em Eu hei-de amar uma pedraessa atmosfera não é diferente. O que se intensifica é o ritmo da passagem do microfone entre os narradores – digamos assim, embora as personagens de Lobo Antunes falem bem baixinho, quase um murmúrio, quase uma fala sem mover os lábios. É como se o Pimpolho, sua mulher, suas duas filhas, o marido da mais nova, o amor de infância recuperado por acaso depois do casamento, o primo ido embora, o pai esperado, a mãe que não se sabe onde e ainda uma outra mulher muito misteriosa, uma narradora especial, meio autora, meio Ariadne na distribuição de seus fios, estivessem todos na mesma sala evocando suas lembranças e reconstruindo para si mesmos os acontecimentos passados. A sala, no caso, sendo o livro, porque essas personagens não têm mais vontade de conversar entre si, de chegar a qualquer entendimento, apesar de toda dor, solidão e culpa.

Apesar da organização formal do livro, como que a indicar ao leitor o que se passa na superfície do que é contado e o lugar que ocupam os narradores no tempo presente, o tempo da partida que leva ao tempo psicológico mais profundo, localizado no passado, as vozes estão embaralhadas e a cada capítulo que começa o primeiro desafio é saber quem fala. Para complicar, e penso também que para exigir que se desligue um pouco o comportamento detetivesco do leitor, Lobo Antunes coloca na mesma página pessoas diferentes fazendo parte do mesmo acontecimento e expondo seus pontos de vista no envolvimento com aquelas vivências. Dessa forma, o leitor é chamado a prestar atenção, a se entregar mesmo, à linguagem cuidadosamente elaborada de Lobo Antunes. Lançando mão de um ritmo e mesmo de elementos gráficos que se assemelham à forma poética, a grande personagem de António Lobo Antunes é a linguagem: o fluxo dos discursos e a natureza sensível das palavras. Os diversos narradores se pegam a desconfiar das lembranças, como se a memória falhasse, mas também se pegam às voltas com os sentidos das palavras e seus usos, isto implicando, e muito, com o desenrolar da história que se vai fazendo, numa afirmação de autonomia de cada personagem na forma de contar que não pode ser estendida à forma de sentir cujo determinante se localiza no passado e, portanto, não pode ser mudado.

Ao ler Eu hei-de amar uma pedra, participamos fortemente de uma verdade, aquela que envolve o passado dos diversos narradores; mas essa verdade é relativizada a cada momento por aquela narradora que chamei de especial e que, encontrando-se num asilo, já velhinha, dá voz à enfermeira que nos abre os olhos: “Nessa idade inventam tudo, não ligues”. Vemos as personagens se construindo, se mostrando a nós com toda sua complexidade de gentes acrescidas ainda da complexidade da ficção, como em: “O essencial de minha natureza, hão-de comprová-lo no livro quando a estima que entre nós vai crescendo”. E o essencial é visível apenas como sensação, não é feito de matéria palpável, assim como o livro, que se define muito mais que pelo enredo, pelo papel e suas 558 páginas. Depois de lido, Eu hei-de amar uma pedra vai sempre existir mesmo se queimado, fisicamente perdido sem remédio, porque sem começo e sem final. As personagens, mesmo quando optam por sair de cena, continuam ali como lembrança, como algo construído uma vez e condenado a habitar o mundo ou a página à revelia de seu autor, que faz questão de participar, ele mesmo: “(ou sou eu que imagino ou o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore)” ou seu duplo, mostrando o embate entre criador e personagem:

“não, enganei-me, isto não comigo, com a da arvéloa e da praia, a que me ordenou
– Tu é que fechas o livro a que manda na gente ou a quem mandaram que mandasse na gente, um fulano que não conheço a desesperar-se connosco, a alterar, a trocar-nos
(–Não é assim que gaita)
a voltar ao princípio, o fulano que decidiu não há muito, acho eu
– És tu que fechas o livro e embora arrependido de eu a fechar o livro continua por teimosia a escrever,”


por Ieda Magri
citado de Educação Pública (Brasil)
30.06.2009

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