domingo, 4 de outubro de 2009

Gonçalo Figueiredo Augusto: opinião sobre O Manual dos Inquisidores


Que livro é este que provoca sorrisos e comove ao mesmo tempo? Que livro é este em que o humor se mistura com a mais violenta das realidades? O Manual dos Inquisidores é esse livro que nos apresenta - relato comentário relato comentário relato comentário - um Portugal antes e depois de uma golpe de estado. Logo no primeiro relato é-nos introduzido um ministro, um amigo de Salazar, um homem de cigarrilha e suspensórios, de chapéu
 
Faço tudo o que elas querem, mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão
 
um ministro, ou director-geral, ou outra coisa do género que só conhecemos pela voz dos outros até chegarmos ao final do livro. Um ministro que vamos conhecendo pela voz do filho, pela voz da governanta, pela voz da amante, pela voz de uma filha clandestina... Há uma quinta em Palmela, outrora digna de visitas de Salazar e de repente abandonada ao capim, aos limos do pântano e aos fantasmas do passado. O livro é uma constante oposição entre passado e presente. Ou se calhar não uma oposição já que passado e presente coexistem em permanente nas personagens e mesmo em nós próprios. A inquisição ao passado ganha forma à medida que o livro se aproxima do fim. E se repararmos bem o livro não tem fim, de facto. Poderia dizer que o livro retrata Portugal, mas isso não é verdade. O livro vai mais longe. As personagens vão expondo página após página um país hipócrita e mesquinho, uma realidade onde a violência, a ganância e a mediocridade coabitam. Os cenários podem mudar aparentemente - Palmela, Alverca, Odivelas, Praça do Chile... - mas na verdade é todo um mesmo cenário, da mesma forma que a quinta de Palmela é o refúgio onde todos os relatos vão mais tarde ou mais cedo parar. Não sei dizer se o livro espelha um Portugal de ditadura e um Portugal de pós-ditadura, porque na verdade o país é rigorosamente o mesmo. Apenas as pessoas vão cambiando a reboque das marés que se vão e vêm. Até que chegamos ao final sem chegarmos ao fim. Francisco, o senhor ministro ou seja lá o que for, recorda os horrores em África e remata, como uma súplica
 
peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu filho que apesar de tudo eu
 
da mesma maneira que engolimos em seco depois de fechar o livro e o pousarmos no colo sem entender muito bem se o livro acabou ou se nós mesmos acabámos de recomeçar.
 

por Gonçalo Figueiredo Augusto
26 Setembro 2009

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