quarta-feira, 21 de outubro de 2009

JL: A vida toda


Jornal de Letras
Entrevista de Luís Ricardo Duarte
07.10.2009



Um novo romance, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?um retrato falado, Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes, de João Céu e Silva, e um documentário inédito, Escrever, Escrever, Viver, de Solveig Nordlund, que [passou] no DocLisboa. Como em anos anteriores, António Lobo Antunes, 67 anos, é um dos escritores em destaque nesta rentrée. Estatuto ainda mais reforçado quando passam precisamente três décadas sobre a sua estreia literária, com Memória de Elefante (que [tem] uma reedição especial, juntamente com Os Cus de Judas). Pretextos suficientes para uma conversa sobre livros e literatura, buscas e conquistas. Sobre uma vida inteira dedicada à escrita.


Abre-se a porta e ali está ele. O homem por detrás do mito. O escritor de livros difíceis. O autor de temperamento imprevisível. A pessoa que, como Oscar Wilde, pouco tem a declarar do seu génio. Inesperadamente, o sorriso é rasgado. Tem estado  a escrever desde as sete horas da manhã, como faz todos os dias, excepto ao domingo. Só agora, perto das 11, abandona o seu paraíso terrestre. Porque é na escrita  que António Lobo Antunes se realiza, como dirá nesta entrevista, combinada há meses por telefone. «Falamos em Outubro», garantiu-me.

Ao fechar a porta, revela-se a enorme sala da sua casa. Primeiro as estantes, de ponta a ponta, de alto a baixo, cobrindo as paredes. A seguir, a arrumação metódica e impecável. Os gregos e latinos de um lado, os russos noutro, os catálogos de pintura ao meio,  livros em português, em inglês, em francês e em espanhol. Uma biblioteca infindável e de respeito, que denuncia o leitor que divide o tempo com o escritor.

A um canto, uma mesa pequena, afastada da janela, ainda na sala, mas já perto de outras divisões - um quarto e um escritório. O candeeiro está aceso e ilumina o tampo. Em cima, as folhas de hospital que Lobo Antunes tem vindo a escrever a sua obra, já constituída por 21 romances, sem contar com os três volumes de crónicas. Num rápido olhar, antevemos a famosa letra azul, miudinha, redonda, apertada, que apenas ele percebe. E é nesse universo literário, íntimo e pessoal, em que mergulhamos. Gravador na mão, várias perguntas sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? [...] E perguntas também sobre os 30 anos  de vida literária que assinala este ano. Em 1979 protagonizou uma das estreias mais fulgurantes da literatura portuguesa com a dupla publicação de Memória de Elefante e Os Cus de Judas. E desde então nunca mais abandonou a ribalta.

Mas o motivo que nos junta aqui é também outro, um amigo comum: o José Manuel Rodrigues da Silva, jornalista e editor do JL, falecido em Janeiro deste ano. É que foi ele o primeiro a entrevistar Lobo Antunes. Não se conheciam, nem frequentavam os mesmos círculos. Mas o romance de um e o faro jornalístico de outro proporcionaram esse encontro. A conversa ocuparia as páginas de Cultura do Diário Popular em dois números seguidos, feito inédito (e provavelmente irrepetível) para um estreante. Foi um tiro no escuro, mas certeiro. E o início de uma bela amizade.

«O Zé Manel era um homem de qualidades muito raras. E também um jornalista único, com todos os seus defeitos e qualidades. Uma pessoa de paixões, excessivo, parcial, mas estruturalmente bom, de uma grande bondade e disponibilidade para com os outros. Tinha por ele uma enorme amizade, admiração, respeito e amor», confessa-me Lobo Antunes. E acrescenta: «Vamos fazer isto em homenagem ao Zé Manel». Vamos.


Este parece ser um livro de imagens, repetidas muitas vezes. A do título, claro, mas também esta, em que a morte de um touro que vive à margem do romance convive com o drama psicológico das personagens: «os joelhos dobram-se, o corpo dobra-se sobre os joelhos, a cabeça dobra-se sobre o corpo, tomba de banda sem acreditar que tombou  e no momento em que tomba não acredita, esquece-se». Porque razão escolheu o universo da tourada como pano de fundo de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?
Há muito tempo que me apetecia dividir um livro em várias partes de uma corrida de touros. Tentei com anteriores, mas não deu. Neste encaixou na perfeição, o que foi um dos milagres do livro. Há uma voz que fala no início e no fim, antes e depois da corrida. Depois há outras vozes, ou a mesma, não sei dizer.

O que encontrou de tão apelativo no universo das touradas para querer associá-lo num romance?
A tourada enquanto paralelo da vida, nas suas várias dimensões. É muito difícil falar de um livro. Talvez a única maneira seja escrever outro.

Mas é uma espécie de arena de emoções? De espectáculo da vida e da morte?
Não estava especialmente interessado na morte. Queria pôr tudo lá dentro. Nunca achei este livro, ou qualquer outro, triste. Um grande amigo, o José Cardoso Pires, dizia-me: «Divirto-me muito a ler os teus livros». Ficava contente com isso, porque eu também me divirto (pelo menos na primeira versão). Da mesma forma, nunca percebi por que razão as pessoas dizem: o livro é difícil. Para mim é tudo muito claro e evidente. Se uma pessoa ler estes livros segundo as suas leis, não terá dificuldade nenhuma em entrar naquele universo. Aquilo somos nós.

«Aquilo somos nós», diz-me, como quem pede uma opinião. O olhar demorado confirma a intuição. Aceito o repto, inicio uma interpretação pessoal sobre as regras dos seus romances. Quando me perguntam a opinião sobre os seus livros associo-os sempre à música clássica, a uma sinfonia ou a uma melodia que se repete. Penso na Sonata a Kreutzer, de Beethoven, que nos faz desejar o regresso dos mesmos acordes e em que a memória de alguns compassos ecoa durante toda a sua audição.

Leio os seus livros com essa vontade de repetição, sem medo de só perceber algumas passagens mais tarde.
É curioso que tenha dito isso, porque fiz três livros - Tratado das Paixões da Alma, A Ordem Natural das Coisas A Morte de Carlos Gardel - que tinham esquemas sinfónicos. Até certo ponto, julgo que isso continua a acontecer: pode-se ver nas diferentes vozes diferentes instrumentos, como o oboé ou o fagote. As pessoas têm de abordar aqueles livros como se fossem uma sinfonia, uma missa ou um requiem. Não há uma história, nem uma intriga. O livro não tende para um fim concreto. Além disso, muitas vezes o significado não está no interior do livro, mas à roda dele. Esse é o único caminho. Por exemplo, há livros que gosto de ler mas que não gostaria de escrever. O Steiner tem razão quando diz que o melhor contador de histórias é o Simenon. E eu gosto das suas histórias. Porém, não é isso que me interessa. Quero fazer outra coisa.

O quê?
Há anos, li uma crítica sobre o tenista Bjorn Borg, que que o jornalista dizia que os outros jogavam ténis, mas ele jogava outra coisa. É essa outra coisa que me interessa. Quando estou a ler A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, não é a história que me interessa, mas o que está além disso. O que é inapreensível. É difícil de explicar, porque o que está além disso sou eu. Nós todos. Tenho a sensação que aquilo foi escrito para mim, que há um diálogo  entre nós, que ele me compreendia totalmente. Claro que é sempre preciso uma estrutura, cuja explicação tem pouca importância  e só maça os leitores. O importante é que a mesa esteja feita, não como o marceneiro a fez.

Antigamente costumava planear os seus livros. Já não o faz?
Não trabalho com plano há muito tempo. Cada vez sei menos de onde vêm os livros. Quando começo normalmente não tenho nada. Neste, tinha aquelas duas frases. O livro foi quase todo ditado. Ao escrevê-lo estive sempre a obedecer a uma espécie de voz. E só na fase de correcção é que me surpreendi: eu não escrevo assim tão bem. De onde me veio isto tudo?

Esta perplexidade também tem expressão no romance. São várias as interpelações que as personagens fazem ao autor, e vice-versa. Alguns exemplos: «Eis o António Lobo Antunes a saltar frases não logrando acompanhar-me» (pp. 22). Ou: «Este livro é o teu testamento António Lobo Antunes» (pp. 123). Ou ainda: «Há por aí alguém com um resto de compaixão que acabe o meu discurso por mim eu que mal existo no livro, uma dúzia de frases que o António Lobo Antunes aprove e de que não sou capaz» (pp. 231). Ou também: «Quem escreve o livro não tem o direito de decidir por mim» (pp. 335).

No entanto, o seu papel como maestro é particularmente visível neste livro.
Já acontecia em livros anteriores e acaba por ser inevitável. É um problema que se me põe cada vez mais: quem é que escreve o livro? Sou eu? Tenho dúvidas. O Eduardo Lourenço aflorou isso num artigo. Apresentava-me como um transmissor entre duas instâncias. Mas questiono-me: até que ponto temos o direito de nos intitularmos autores de um livro, sobretudo um como Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?Porque numa história normal é evidente quem é o autor. Aquilo passa-se na espuma das coisas. Os grandes livros, pelo contrário, são anónimos, são escritos por todos nós.

A certa altura, uma personagem pergunta: «Quando fala por mim detesta o que escreve?» Há vozes com as quais é mais difícil lidar?
Escrever é um trabalho. E ao princípio raramente o associava ao prazer. Mas, por exemplo, a voz de um pedófilo. Foi um milagre. Porque não sei o que é um pedófilo, o que pensa ou o que quer. O mesmo dilema já se tinha colocado com os universos dos travestis e dos homossexuais em Que Farei Quando Tudo Arde?. E também em relação às mulheres, em Exortação aos Crocodilos. O que sabemos nós, homens, sobre as mulheres? Muito pouco. Nessa altura, tinha a impressão de estar a aprender coisas à medida que ia escrevendo. Porque eu não faço pesquisa, nem tiro notas.

Joga tudo no instinto?
Se estou realmente a escrever um livro, ele sabe como se organizar. Aos poucos, começa a ficar autónomo, com a sua fisionomia e estrutura. e tenho de ir atrás dele. A cabeça tem de estar vigilante, sobretudo para as correcções. Num primeiro momento, há muitas parvoíces, redundâncias, toda a espécie de erros. Mas o livro já lá está, debaixo daquele amontoado de palavras. Enterrado ali em baixo. Só é preciso limpar.

O seu papel é evitar becos sem saída?
Eles aparecem em cada passo. Mas até que ponto um livro não é sempre um beco sem saída? Até que ponto não começamos a libertar-nos do livro só depois de o entregar à editora? Eu nunca leio os meus livros, como não leio as traduções - a maior parte das línguas não conheço, são tantas. Por isso, para me esquecer dele, começo outro, sem saber se dará um livro. Essa é a angústia permanente. Será que vou fazer outro livro?

A experiência não lhe permite perceber isso?
Os livros só me ensinaram a ser humilde em relação ao nosso trabalho. Porque pensamos que mudamos a literatura. Mas cada grande escritor muda a literatura, pois há mil e uma maneiras de o fazer. Quase todos os que aqui estão [António Lobo Antunes levanta o olhar para a estante, como se se confrontasse com a História. Ergue o braço para abarcar todos os livros que tem pela frente] mudaram a literatura. Mas, depois, comigo, é sempre o mesmo sentimento: ainda não é isso, ainda não é isto, tenho de ir mais fundo, tenho de ir mais fundo. Por vezes tenho a sensação de estar a começar. Que não sei nada.

Nada?
É evidente que sei do ofício, como os marceneiros, os carpinteiros e os cirurgiões percebem do seu. Mas na literatura as coisas vêm de zonas nossas que não entendemos. O material vem em bruto. E ao lidar com emoções, o escritor trabalha com algo que antecede às palavras. A força com que sentimos as coisas é por definição inexprimível. O desafio é tentar colocar essas sensações em palavras, embora a distância entre a intensidade da emoção e o que fica no papel seja enorme. Todo o meu trabalho é no sentido de aproximar esses dois pólos.

Este ano assinala três décadas de vida literária...
... Eu comecei a fazer isto com cinco ou seis anos. Escrevia e destruía tudo. Não me interessa publicar. Só escrever. A Memória de Elefante foi publicada por acaso.

A história é conhecida. Em pequeno, António Lobo Antunes compunha sonetos a Cristo que depois vendia à avó. Também o pai lhe recitava poesia em vez de aspirinas. E, aos poucos, descobriu o caminho para a escrita. Muitos anos mais tarde, Daniel Sampaio foi  a sua casa e encontrou o manuscrito de Memória de Elefante. Perguntou-lhe o que era. «Um romance», respondeu desinteressadamente. «E não queres publicar?», acrescentou o conhecido psiquiatra. Perante a indiferença do amigo, Daniel Sampaio assumiu a tarefa de apresentar o livro a várias editoras. Depois de algumas recusas, foi aceite pela Vega. Lançado em Julho, depois do Verão já era um dos livros do ano. Portugal descobria uma nova voz, confirmada pela publicação, ainda em 1979, de Os Cus de Judas. Para trás ficava uma dura experiência de guerra em Angola, como médico e sob o comando de Melo Antunes, que alimentou a sua prosa durante muitos anos. Gradualmente, também a psiquiatria, área em que se especializou depois de regressar a Portugal, foi perdendo lugar em relação à Literatura, à medida que ia concluindo o acompanhamento dos seus pacientes. Há muitos anos que vive só da escrita.

O que mudou na sua vida?
De repente, vi-me apanhado numa rede enorme. Eu não sabia nada acerca do meio literário. Surgiram editores, agentes, convites. Foi tudo muito súbito. Hoje em dia espanta-me que esses livros continuem a vender tanto. Ao mesmo tempo, foi bom porque abriu portas a outros escritores. Ficou-se à espera de um novo António Lobo Antunes. Tornou-se mais fácil para quem começava a escrever. Porque, embora as editoras andem sempre à procura de um bom autor em língua portuguesa, começar não é fácil. Além disso, estamos muito longe de uma Idade de Ouro, como a que se viveu no século XIX, quando havia 30 génios ao mesmo tempo. Agora, encontrar cinco bons escritores em todo o mundo já não é mau.

A publicação regular é um dos traços do seu percurso.
Pois. Mas também não tenho desculpa, não faço mais nada. Alem disso, acabo sempre os livros com a sensação de que não é isto que eu quero, que estou a seguir caminhos que outros já seguiram. Quero fazer o que mais ninguém fez. Às vezes penso que se voltasse atrás apagava todos os livros até O Esplendor de Portugal [o seu 12º romance, de 1997]. Mas é um pensamento completamente idiota, porque se não fossem os primeiros livros eu não existia. Agora que tenho autorizado a tradução dos meus primeiros livros, dizem-me que já lá estava tudo. É possível, não sei. Talvez em bruto. Mas o facto é que mudou muito. E espero que continue a mudar de livro para livro. Que me aproxime cada vez mais do que desejo e nunca chegarei a fazer.

É difícil não o admitir: António Lobo Antunes tem sido coerente com essa vontade. Entrega-se à luta, mesmo se às vezes parece que está sempre a escrever o mesmo romance. Por vezes, atravessa a fronteira. Lemo-lo mas não temos referências. A paisagem não se deixa descobrir. Porém, o escritor continua. Prossegue o combate. Tenta concretizar a sua ambição.

Essa busca não tem fim?
O meu problema é simples: «Você não vai ser capaz de escrever um livro melhor que este», disse agora a minha editora [Maria da Piedade Ferreira]. Não sei, vamos ver. Se não for para ser melhor, para quê escrevê-lo? Neste momento, ainda estou às voltas com uma primeira versão. Talvez venha a ser do tamanho de O Arquipélago da Insónia.

Tem algum ponto de partida concreto?
Um homem que vai ser operado a um cancro do qual pode vir a morrer. Mas quero fazer isto de uma forma completamente diferente. Não está dividido em partes e, ao contrário dos últimos, é escrito na terceira pessoa. Ou seja, há um ele que tem dentro de si o eu, o tu, o nós.

Tem, na mesma, muitas vozes?
De momento sei que há um homem internado no hospital e que está ao mesmo tempo na sua vila. O Arquipélago da Insónia passa-se no Alentejo, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? no Ribatejo, este que estou a escrever no Norte, que eu conheço melhor. Por isso, no hospital, no quarto, entram carroças, há pinheiros, a Serra da Estrela. É um livro muito ambicioso.

O cancro parece ser um tema cada vez mais presente na prosa de António Lobo Antunes. Em Março de 2007, o escritor surpreendeu toda a gente ao revelar, numa crónica na revista Visão, que tinha um cancro no intestino e que tinha sido operado de urgência. «Não acreditava que um dia destes chegasse», desabafou. «E agora veio com a brutalidade de uma explosão no peito. Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como a velhice e a decadência. Tão reles. O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé». E sobre a doença, acrescentou: «Mói, e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não - sim.» Se o cancro é tema do manuscrito que está a escrever, com o título provisório Babel e Sião, está também presente em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?.

Este é  o primeiro livro que escreve depois de ter sido operado. O Arquipélago da Insónia estava a meio quando foi internado. Sente-se a revisitar a sua história recente?
Nunca tinha pensado nisso... Porque a doença é usada como metáfora. A fortuna que o filho mais velho procura não tem a ver com dinheiro, nem com poder, mas com amor. É uma procura de amor e afecto. No fundo, é a nossa inextinguível necessidade de ternura e amor.

Mas a experiência do cancro está presente na sua escrita?
Foi uma experiência muito radical. Um espanto. Uma surpresa. E uma conquista lenta. Fala-se muito em vencer a doença, mas ninguém vence uma doença. Todos temos medo de morrer... A única coisa que me preocupava era, porém, o trabalho incompleto. Não sei se é compreensível, mas era como uma missão, algo que me foi dado e que eu tinha de fazer. Muitas vezes dizem que eu reclamo que os livros em Portugal são maus.

De facto, reclama muitas vezes...
Mas não é isso que está na minha cabeça. Eu gosto muito de ler. É um prazer, sempre foi. Mas é terrível para mim ler um livro, sobretudo aquilo a que se chama ficção. Não é assim que se escreve isto. Tem de se ir mais fundo.

Ir mais fundo, até onde?
Não sei. Eu gostava que fosse uma explicação do mundo. A vida toda.

A vida na sua vivência quotidiana?
Nas perguntas que nos pomos constantemente acerca do sentido da vida, do tempo. A angústia do Homem. Queria atingir aquele núcleo que todos temos dentro de nós, aquele negro impartilhável que julgamos inacessível aos outros.

Recusa a ideia de grandes feitos, de uma visão épica da vida? A própria Ilíada é desencadeada por interesses pessoais.
E a vida é feita de pequenas coisas. Também a Odisseia se podia chamar Tenho a Minha Mulher à Espera. Mas ao mesmo tempo é curioso, porque os clássicos são westerns, são epopeias, histórias aos quadradinhos. Está lá tudo. É aí que temos de chegar. Não podemos ser complacentes connosco enquanto fazedores de livros. Se não for para ser o melhor, não vale a pena escrever. Se não for para dizer coisas que nunca foram ditas, não vale a pena escrever. Lembrei-me agora do que diz o profeta Isaías: «Eu anuncio coisas novas, ilhas cantai um canto novo». Se alguém quer ser mesmo escritor, é isto que tem que fazer: trazer um canto novo, falar do que existe dentro de nós e nunca foi falado.

Consegue perceber o que trouxe de novo?
Não sei, parece-me que ainda é muito cedo para perceber. Qual é a sua opinião?

A minha opinião? Não é fácil de explicar. Diria talvez que trouxe a exacta reprodução do pensamento humano, das suas pulsões, das suas hesitações, da sua falta de linearidade. Como diz, a certa altura, uma das vozes de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?: «Não consigo contar as coisas por ordem dado que as misturo em mim, ao atravessarem certas zonas da minha cabeça perco-as e ao recuperá-las alteram-se». É o que nos acontece todos os dias.

Contudo, a sua resposta será sem dúvida mais interessante.
Quando se está a viver, dentro da nossa cabeça há muitas contradições. Por que razão quando contamos uma história não tentamos isso também? A nossa vida não é uma história que possa ser contada, porque está cheia de afluentes e subafluentes. Mas essa opção não foi voluntária, antes progressiva, lenta e penosa. Escrever é muito difícil. E custa muito. Põe-se tempo e saúde, mas ao cabo e ao resto são os livros que são importantes.

Reconhece esse cunho pessoal?
Não sei dizer. Porque agora uma coisa é aquilo que eu faço, outra é a avalanche que se tem passado à minha volta, com prémios e mais prémios, traduções e mais traduções, livros e mais livros. Nem me estou a referir a Portugal. No mundo inteiro.

Na Feira do Livro de Guadalajara, como se vê no documentário de Solveig Nordlund, chega a falar de uma «marca registada».
Isso era uma boutade sobre o barulho à minha volta, que é sempre a melhor forma de anular um escritor. Até há alguns anos ninguém falava de mim, porque eu não apareço. Não vou a lançamentos. A minha vida social é restringida. Tenho quatro ou cinco amigos. As pessoas não sabem onde moro, nem o meu número de telefone. Ultimamente têm-me feito coisas incríveis nos jornais, de mentira e baixeza.

Sem querer falar do assunto, refere-se a manchetes e notícias que recentemente foram publicadas na imprensa. A sua relação com uma jornalista brasileira, as revelações íntimas que voluntariamente fez a João Céu e Silva, no livro Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes (uma edição Porto Editora), com referências a tendências suicidas, à vida amorosa, à experiência da guerra e à literatura portuguesa, entre muitos outros assuntos.

Sente que agora há uma curiosidade crescente?
Não dou por isso. Claro que as pessoas do bairro me conhecem. Mas muitas nem sabem o que faço. Tratam-me por senhor António, que no fundo é o que sou. Tirando os livros, se calhar não existo. E o sucesso é cada vez menos importante. No princípio somos sequiosos de reconhecimento, porque somos inseguros. Falo por mim. Claro que eu queria, com os primeiros livros, trazer coisas novas, dar entrevistas provocadoras. Tudo tinha de ser feito de maneira diferente. Mas não serve de nada pôr-me em bicos de pés e gritar. As pessoas não entendem e continuam a fazer da mesma maneira. Dá a ideia que se trazemos livros importantes temos de ensinar os leitores a lerem-nos. Portanto, esta unanimidade que agora se gerou à minha volta, com o Steiner conciliado com o Bloom, foi um processo lento e cheio de equívocos. Depois há sempre um crítico que está a começar e que normalmente me dá porrada, o que também faz parte. Para se afirmar tem de estar contra. Eu também funcionava assim.

Ao longo dos anos foi sempre uma figura polémica.
Nunca me viu discutir com ninguém.

Mas as suas declarações sempre foram fortes e provocatórias. Basta passar os olhos pelas manchetes dos JL dedicadas a Lobo Antunes, a título de exemplo, para encontrarmos frases como: «Muitos escritores têm-me um pó desgraçado» (nº 23), «Estou farto de ser bem comportado» (nº 72), «Isto é um ofício das trevas» (nº 176), «Se não ganhasse [o Prémio APE] ficava chateado» (nº 197), «A pensar no Nobel» (nº 538) ou «Emissário de um rei desconhecido» (nº 941).

Aliás, logo na primeira entrevista ao JL, em 1982, dizia que se sentia uma criança que desejava chatear os adultos.
Disse isso?

Está escrito.
Pois. De facto, quando comecei sentia-me quase um menino entre os doutores. E para ser totalmente sincero, tirando dois ou três nomes, não tinha respeito pelo que se escrevia no nosso país. Continuo a não ter. O que não exclui que haja escritores sérios, honestos e com talento.

Em entrevistas recentes, fala na hipótese de deixar de publicar livros.
Sim. Não tenho problemas em relação a isso. Foi o que fiz sempre. No início, escrevia livros e destruía-os. Não era importante que fossem publicados.

Mas anunciar isso não é uma forma de provocação?
Provocar porquê? Eu não tenho nenhuma importância colectiva. Só faço livros.

É um escritor consagrado, com muitos leitores.
A partir de certa altura... Não quero estar a dizer mal, nem nomes, mas assistir à impotência criativa de um artista é um espectáculo horrível. A pessoa está a sofrer tanto, tanto, tanto. Não é melhor parar quando se é capaz? Porque isso pode acontecer a qualquer momento, em qualquer idade.

Teme que possa vir a acontecer consigo?
Claro que tenho pavor disso. É mesmo o grande medo da minha vida: não ser capaz de escrever. Construí-me todo para isso. Não sei fazer mais nada, nem me interessa fazer mais nada.

Receia que faça um mau livro e que, até chegar às bancas, ninguém lho diga?
Se eu fizer um mau livro é terrível. Em Portugal não teria muita importância, mas em termos mundiais a mesa é pequena e de poucos lugares. Para uma pessoa se sentar lá tem de tirar quem lá está. Se se faz um mau livro é complicado.

A intransigência em relação aos outros é a que também tem em relação a si?
De facto, às vezes acho que sou um bocado cruel comigo mesmo. São tantos livros e tantas páginas deitadas fora. E tenho pena, porque chego a passar um dia com uma frase, com uma palavra. É preciso trabalhar com um rigor extremo. E não ter pressa.

Nestes 30 anos de vida literária, consegue identificar momentos chave?
Tenho a impressão que tudo forma uma espécie de contínuo. Mas não sei. Não estou habituado a falar sobre isso porque não li os livros. Só os escrevi. Li o Que Cavalos..., e pensei: «Bolas, que grande livro. Tenho a vida justificada». Mas não fiquei vaidoso. Fiquei surpreendido. Porque não há motivo para a vaidade. Os livros não são nossos.

Este livro também não deixará de surpreender os leitores. Sobretudo pela multiplicidade de olhares que se adivinham na leitura. A de Beatriz, que tem um filho e dois relacionamentos falhados. A de Francisco, que teve de gerir os (maus) negócios da família e que tem vontade de vingança. A de Ana, toxicodependente e frequentadora habitual do Casal Ventoso. A de João, pedófilo e cliente nocturno do Parque Eduardo VII. A de Rita, que morreu com um cancro. E a mãe, o pai, a empregada, Mercília, uma variegada galeria de personagens que se sobrepõem, dialogam, cruzam perspectivas e partilham sentimentos.

Sente que tem influenciado muito jovens escritores?
Não me cabe a mim dizer.

Não tem tido esse feedback?
As pessoas dizem-me que sim. Não só em Portugal, mas também em Espanha, França, Alemanha... É mais ou menos inevitável. Mas se são realmente escritores têm de escrever contra o autor de que gostam. Encontrar a sua voz. Só assim podem fazer o que ainda não foi feito. Eu demorei tempo a encontrar a minha voz.

Não se preocupa com isso, nem com o facto de ter perdido ou conquistado novos leitores de livro para livro?
Nesse sentido, sou um autor muito cómodo, que não discute quanto vende, nem pede nada. O importante para mim é poder escrever. Se as pessoas gostarem tanto melhor, se não, hão-de gostar mais tarde. É uma questão de tempo. E aí acho que o tempo joga a meu favor. Vamos ver daqui a 50 ou 100 anos, embora não esteja cá ninguém para ver.

A sua obra pode vir a ser entendida como paradigma de uma época ou precursora de algo?
Eu não quero ser precursor de nada. Eu quero realizar. E o que espero da vida é só isso: mais alguns livros. Nesse aspecto, não mudei. Só peço tempo para escrever e acabar o meu trabalho. Mas já que fala nisso, só posso deixar a pergunta: «Depois destes livros poder-se-á escrever da mesma maneira?»

Tem resposta para essa pergunta?
Não. Só que cheguei mais longe do que alguma vez imaginei. E que gostava de ter tempo para chegar ainda mais longe.  


in Jornal de Letras, nº 1018
07.10.2009

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