segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Germán Gullón: opinião sobre Mi Nombre Es Legión


Autor de livros onde não cabem nem a utopia nem a esperança de um futuro melhor, António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) regressa com este romance aos subúrbios miseráveis de Lisboa. Ali, os habitantes vivem fora da fronteira que separa o bem do mal, segundo a linhas marcadas pelo direito. Os romances do português fazem raras concessões ao leitor, já que o escritor apenas se preocupa em encher os espaços vazios da narrativa, que salta de uma personagem para outra, de um tema para o seguinte. Se o público não está disposto a centrar-se no texto, tentando preencher os vazios, deixará o livro de lado. Lobo Antunes nunca oferece uma simples leitura, trata-se de literatura em estado puro.

É sempre mencionada a profissão de psiquiatra de Lobo Antunes pela utilidade em explicar o seu peculiar modo de narrar. De facto, os seus textos parecem confissões de divã. Aqui trata-se de uma história contada a várias vozes, a partir de diversas perspectivas, um polícia, Gusmão, uma prostituta branca, uma mestiça, e um delinquente, que tomam a palavra cada um à sua vez. O texto começa quando o polícia escreve um relatório da sua última missão. "Os suspeitos em número de 8 (oito) e idades compreendidas entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos abandonaram o Bairro 1º de Maio situado na região noroeste da capital e infelizmente conhecido pela sua degradação física e inerentes problemas sociais às 22h00." (pág. 11). Uma folha depois começa o polícia a incluir observações menos profissionais. Acrescenta o facto de que apenas um dos oitos delinquente é branco. Os restantes eram "semi-africanos e num dos casos negro e portanto mais propensos à crueldade e violência gratuitas o que conduz o signatário a tomar a liberdade de questionar-se preocupado" (pág. 12), e, a seguir, procede colocando em questão a política nacional de imigração. Um par de páginas depois dá um salto maior, às suas lembranças, e acaba misturando os detalhes objectivos do relatório, as malfeitorias que cometem os miúdos, com memórias da vida pessoal, iniciando com um episódio onde estão o seu padrasto e a mãe.

O resto do romance supõe uma descida a esse inferno de desejos impuros que bem podiam denominar-se Legião, viagem narrativa que nos deixa com a triste convicção de que acaba por ser impossível alcançar o ideal humano que deveria reger a sociedade. Sobra tudo quando a história fala do progresso do homem. Talvez as páginas mais impressionantes do romance sejam as que se dedicam a contar a vida e o destino de uma mulher mestiça (págs. 159-207). Desfilam pelo texto a vaidade da juventude, a injustiça do destino, ou as falsas promessas da sedução.

Porém, o melhor do texto acaba nesse fluir de uma consciência que compõe a história narrada, onde os feitos do argumento não surgem ordenados mas justapostos. Forma que provoca um dramatismo mais profundo que a narrativa linear. O romance oferece a emoção do grito de Munch ou do conto "O homem morto" de Horacio Quiroga. Por exemplo, no episódio onde cai morto o irmão (pags. 206-207) misturam-se com o ruído de um balde que cai na rua, a visão do irmão em criança correndo atrás dos escaravelhos, o ruído metálico da caçadeira de canos serrados a chocar com o pavimento quando cai abatido pelos polícias, e muito mais. Lobo Antunes regista, como gosta de fazer, o momento na sua plenitude sensorial através da palavra.

 
Germán Gullón
citado de El Cultural
05.06.2009
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Sem comentários: