quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Márcia Valadares disserta sobre O Esplendor de Portugal


Antunes, António Lobo. O Esplendor de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

A obra do escritor português António Lobo Antunes (também psiquiatra e ex-combatente na Guerra de Angola) não é, ainda, muito conhecida no Brasil, onde somente sete de seus dezenove romances foram publicados até o momento.


Pouco a pouco, entretanto, vemos surgir ações que contribuem para a difusão de sua obra em nosso país, como é o caso, por exemplo, da presença de seu segundo romance,Os cus de Judas (lançado em Portugal, em 1979), entre os livros indicados para o vestibular 2006 da UNICAMP.

Romance após romance, percebemos que a perplexidade e horror frente a guerra e a sociedade contemporânea ganham corpo não só nas situações narradas – que envolvem ex-combatentes ou pessoas comuns que seguem sua vida sem estímulo, abandonadas pelas instituições nas quais confiavam; como também na linguagem e na estrutura dos textos, principalmente com o uso do disfemismo como procedimento de escrita predominante.

No contato com o conjunto da obra desse autor, observamos que o romance O esplendor de Portugal ocupa lugar central por trazer, de forma explícita, esses procedimentos de escrita desenvolvidos de forma bastante complexa e com notável habilidade.

Em O esplendor de Portugal, o ponto de vista principal é o dos portugueses nascidos em Angola, gerações que cresceram e viveram toda sua vida dentro do (ou sob o) pensamento colonialista, e que subitamente se viram frente ao violento processo de independência da colônia, desprezados e rejeitados por suas duas “pátrias”. E esse sentimento de rejeição atravessa toda a história, explicitado de maneiras diversas no discurso de quase todos os principais narradores – Isilda, Rui, Clarisse e, principalmente, no de Carlos (o filho mais velho de Isilda, adotivo e mestiço), em cujo relato verificamos sentir-se rejeitado tanto pela mãe verdadeira – Carolina – que o vende à esposa do pai; como pela mãe adotiva – Isilda – como se esta o houvesse obrigado a partir para Portugal por sentir vergonha de sua origem mestiça; e até mesmo por sua própria esposa, Lena, que, segundo ele, se recusa a engravidar de um mestiço.

Como já nos referimos anteriormente, em O esplendor de Portugal um procedimento de escrita é muito utilizado para explicitar e ressaltar as emoções, memórias e medos dos narradores: o disfemismo, o ataque verbal direto, sem meias-palavras, utilizado de forma tão forte, singular, expressiva e poética na escrita de Lobo Antunes e que pode ser relacionado tanto ao objetivo do autor de revelar toda a crueldade da guerra e do sistema colonizador português, quanto ao fato de sua condição de médico, que vê o avesso de tudo o que vive.

Daí a predominância do feio, do asqueroso, da doença, do ridículo, da ferida, do sangue, da rejeição, que caracterizam o vocabulário de O esplendor de Portugal, esse “romance que não conhece a expressão lateral, ou, se a utiliza, a volve de negatividade.”

O trecho que reproduziremos a seguir é um dos melhores exemplos existentes no romance da utilização cruel e poética do disfemismo:

Devia ter desconfiado que Angola acabou para mim quando mataram as pessoas duas fazendas a norte da nossa, o homem de pescoço para baixo nos degraus, isto é, pregado aos degraus por um varão de reposteiro que lhe atravessava a barriga, a mulher nua de bruços na desordem da cozinha, muito mais nua do que se estivesse viva, sem mãos, sem língua, sem peito, sem cabelo, retalhada pela faca de trinchar com um gargalo de cerveja a espreitar-lhe das pernas, a cabeça do filho mais velho fitando-nos de um ramo, o corpo que a serra mecânica decepara em fatias espalmado no canteiro, o filho mais novo nos fundos(...) misturando as tripas com as tripas do cão, dedadas de sangue nas paredes, os tarecos tombados, as molduras em pedaços, as cortinas das janelas abertas varrendo o silêncio e o cheiro das vísceras...


Para concluir, gostaríamos de ressaltar que em O esplendor de Portugal seus diversos narradores apresentam versões diversas de uma mesma história, sem, entretanto, contradizerem-se uns aos outros. Cada nova versão retoma a anterior, acrescentando a ela (e por conseqüência, ao romance) uma riqueza de detalhes e nuances que nos aproximam dos sentimentos dos personagens de forma raramente encontrada na literatura ocidental.



Márcia Valadares
(Mestre em teoria da Literatura pela Faculdade de Letras da UFMG. Directora executiva do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais - Brasil)
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