sábado, 9 de janeiro de 2010

Ismahêlson Luiz Andrade: A memória entre a guerra e o sublime

António Lobo Antunes é uma presença marcante no campo memorialístico da Literatura Portuguesa e Internacional, com a sua impactante obra literária, a saber, os seus romances e as suas crônicas. Por meio de uma narrativa com cenários compostos por narradores vinculados a recordações contundentes, lembranças aguçadas, densas e sublimes, o leitor é seduzido a acompanhar os seus narradores com as suas lembranças impregnadas de fantasmas, fragmentos discursivos, imagens traumáticas. Enfim, (re)construções, na memória, de um tempo passado e entrelaçadas num tempo presente.

A partir das características narrativas proporcionadas por Antunes, a proposta do nosso artigo é, considerando o percurso dos seus narradores, pela memória, realizar uma breve leitura de abordagem memorialística da sua obra, tendo em consideração seus romances e crônicas, designadamente “D`este viver aqui neste papel descripto – Cartas da guerra”. Trata-se de uma compilação das cartas escritas para a sua esposa, compiladas por suas filhas, e que compreendem o período de Janeiro de 1971 a Janeiro de 1973, quando o escritor esteve na guerra colonial em Angola. Um cenário, portanto, que percorre entre o espaço de guerra e o espaço de amor, revelando sentimentos distintos: a hostilidade e o amor, a solidão e a vida.

Para a nossa análise, tomaremos como referências principais algumas considerações de Paul Ricoeur, resultado de suas investigações sobre a memória e apresentadas em A memória, a história, o esquecimento.

Organizado por Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, D`este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra revela uma coletânea de textos do, posteriormente, escritor português António Lobo Antunes, e nos é apresentado sem qualquer percurso ou nuances de ficção. É ele, ali, personagem real, presente em suas palavras penetrantes, que funcionam como agulhas que costuram sentimentos que lhes são tão íntimos e sucessivos, os quais, são expostos num gesto que emendam duas faces antagônicas: o amor e a guerra. Tratam-se de cartas que podem ter sido escritas sem qualquer preocupação literária, onde as formas, o estilo, ou a mais exata utilização da palavra e frase não estavam propositalmente presentes nos artifícios do escritor, entretanto, é inegável que linhas, traços, perfis da sua escrita permeiam em cada carta, formando um fio condutor que interliga, de uma maneira ou de outra, toda a sua obra.

Muito se tem dito e muito se dirá, certamente, da obra de António Lobo Antunes, estudos e críticas garantidos pela sua ininterrupta evolução, quando cada novo lançamento é aguardado com a expectativa de um novo labirinto do ser a ser trilhado. Discursos que se encontram, que se assemelham, dados que se repetem em meio a dados consecutivamente novos, e nada é velho quando se trata da sua obra carregada dos referenciados labirintos, pois são caminhos que podem até ser repetidos, mas sempre apresentam novas perspectivas de leituras, um novo olhar, uma nova imersão na profundidade do ser. Instantes que se fragmentam e que se completam, entrelinhas que emitem discursos objetivos e plurais ao mesmo tempo. D`este viver aqui neste papel descripto é tudo isso, carta a carta, como o são os demais livros, livro a livro.

Cartas da guerra foram escritas durante o período da Guerra Colonial Portuguesa, para a então esposa do remetente, quando, aos 28 anos, ele foi convocado para combater, no Leste de Angola, na fase final daquele marco da história de Portugal. Assim, casado em Agosto de 1970, partiu em 6 de Janeiro de 1971 rumo à guerra na África. São cartas que tiveram três momentos de interrupções, marcados por três períodos bem próximos e curtos e por acontecimentos determinantes. O primeiro se deu nas suas férias em Lisboa, durante 35 dias em Setembro de 1971; o seguinte, entre Abril e Julho de 1972, com a chegada da família a Marimba, até que a sua esposa adoece com hepatite e é hospitalizada em Luanda; e o último período se dá entre Agosto de 1972 e Janeiro de 1973, com o regresso da família a Marimba. Dados que nos são apresentados no Prefácio do livro, datado em Lisboa, Março de 2005, pelas filhas do escritor, organizadoras do livro e que realizam a publicação pela “vontade expressa” (Antunes, 2005, p.10) da destinatária das cartas.


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