sábado, 23 de janeiro de 2010

Mary Ellen Farias dos Santos: sobre O Esplendor de Portugal


O real, o imaginário e as lembranças

edição brasileira Rocco

A estética da capa de O Esplendor de Portugal é bastante simples, apesar da cor bastante chamativa. No entanto, o diferencial deste não está fora, mas sim em seu interior, isto é, o texto do escritor português António Lobo Antunes.

Neste, o 13º romance de Antunes, o belo e o cruel de Angola, África, são retratados de maneira inteligente. Outro ponto interessante é o jogo com o leitor, seja na questão do narrador ou nas disposições de certos trechos da obra.

Com um "Q" de Roberto Drummond, Lobo Antunes inclui em sua história personagens com bastante veracidade e outros pouco ficcionais. A história é de uma família de portugueses, brancos, abastados, que vivem do plantio do algodão em Angola.

O pai, por azar dos filhos, é um pobre coitado, alcoólatra e completamente fraco. Sua mulher tenta sobreviver, pois seus três filhos são criados em meio a violência do preconceito. Em meio a flashbacks o leitor conhece estes filhos: o primogênito Carlos, bastardo e mestiço, Clarisse, uma mulher completamente mundana e Rui, epiléptico que sempre está internado em um hospício.

Tudo (aparentemente) começa em 24 de dezembro de 1995, da seguinte maneira: "Quando disse que tinha convidado os meus irmãos para passarem a noite de Natal conosco / (estávamos a almoçar na cozinha e viam-se os guindastes e os barcos a seguir aos últimos telhados da Ajuda) / a Lena encheu-me o prato de fumaça, desapareceu na fumaça e enquanto desaparecia a voz embaciou os vidros antes de se sumir também / - Já não vês os teus irmãos há quinze anos".

Um leitura bastante diferente das que muito (para não se dizer, sempre) se vê por aí. Não há como negar o quanto é difícil ler este livro de uma "tacada" só, mas é ainda mais fácil dizer que apesar da dificuldade, o texto e seu contexto são fatores primordiais que seguram e chamam o leitor para dentro da obra, criando rapidamente um vínculo entre leitor e obra. É simplesmente fantástico mergulhar neste universo de lembranças e versões de uma mesma história. Por tanto seja rápido, aproveite e arrisque-se nesta boa leitura!


por Mary Ellen Farias dos Santos
[não datado]

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