quinta-feira, 11 de março de 2010

Maria Celeste Pereira: comentário sobre a leitura de Sôbolos Rios Que Vão


1. dia 06 de Março

Li este livro há já uns meses largos. Mais precisamente, acabei de o ler no dia 21 de Outubro. A verdade é que tenho a data muito presente por tê-lo lido enquanto convalescia de uma inconsequente intervenção cirúrgica à qual fui submetida no dia 19. Claro que o li muito rapidamente. Na verdade não estava propriamente em condições de me ocupar com muitas outras coisas mas, ainda que não fosse esse o caso, teria sido um livro de leitura rápida pela sua envolvência.

E agora poder-se-á perguntar: se já o li há tanto tempo porque razão só agora aqui estou a deixar a minha opinião?

Pois isso deve-se à conjugação de dois factores.

Em primeiro lugar iniciei a leitura do livro no dia exacto em que apareceu nas bancas. Estava a passar um curto fim-de-semana em Cascais e vi-o na Bulhosa no dia 18 de Outubro. Calhou muito bem pois estava mesmo a acabar de reler o “Conhecimento do Inferno”. Era acabar um e começar logo o outro, boa!

Um grande erro. Nunca o havia feito e não aconselho ninguém a fazê-lo. É necessário algum tempo para digerir um livro de Lobo Antunes. Então depois, quando temos tudo bem claro na nossa cabeça, ou pelo menos o mais claro possível, aí sim poder-nos-emos abalançar para outro do mesmo autor. O melhor mesmo é ir lendo outros autores de premeio, ainda que não seja essa a vontade e depois, então, quando tudo estiver bem arrumado, pegar no próximo.

Como já disse, não o fiz. Acabei um e comecei de imediato o outro o que acabou por prejudicar bastante o partido que tirei da leitura do mais recente.
A expectativa que havia criado em torno dele era também enorme. Estava à espera de algo muito muito bom que francamente se distanciasse de tudo quanto até aqui havia lido de ALA, embora de ALA…

O que encontrei foi um livro abertamente autobiográfico (o que havia acabado de ler também o era embora focando outros momentos da vida do autor), em que tudo se passa num espaço temporal relativamente curto (no anterior também, mais curto, é certo) e o mesmo tipo de escrita fragmentada que havia encontrado, por exemplo no “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar”, ou no “Arquipélago da Insónia”, ou em “O meu nome é legião” sem que, à partida, me parecesse trazer nada de novo a não ser o facto de ser mais fragmentada ainda.

Fiquei portanto um pouco desiludida. Não posso dizer que não tenha gostado, é certo. Mas também não posso dizer que me tenha impressionado da forma que esperava que o fizesse. Assim, fiquei sem vontade de deixar aqui, como é meu hábito, a minha impressão pois, para dizer a verdade, nem sabia muito bem que impressão me havia, de facto, deixado.

Deixei correr o tempo e bastantes livros pelo meio até que decidi repetir a leitura do citado livro.

Será então alvo do meu próximo “comentário”.

***
2. dia 10 de Março


E pronto, lá voltei a ler o livro que me tinha deixado uma impressão pouco definida. E, na verdade, eu gosto pouco de indefinições.

Tal como previa, a percepção que tive agora dele foi completamente diferente daquela que adveio da primeira leitura. Obviamente pelo facto de ser uma segunda leitura e, portanto, conhecedora já das linhas mestras da narrativa, pude-me debruçar com mais tempo e vontade sobre as imensas subtilezas que este livro contém.

Como já nos habituou, apresenta-nos uma escrita fragmentada. Nada em nenhum momento desta narrativa é linear. Vai arquitectando planos diversos, competindo ao leitor organizá-los, encaixá-los e criar uma narrativa coesa.

Depois desta segunda leitura, a opinião com que fiquei foi que terá sido este o livro em que esta fragmentação, este entrecortar do discurso se encontra no seu ponto mais perfeito. Mais fácil? Não. Mas mais perfeito.

As diversas referências de espaços e tempos diferentes surgem aqui desde o início, desde que o Sr. Antunes entra no hospital, ao mesmo tempo que o Antoninho se encolhe de medo da D. Lucrécia na sua cadeira de rodas, na vila? na enfermaria do hospital?

E, enquanto ele, Sr. Antunes se encontra no hospital e é sujeito a uma complicada intervenção cirúrgica, as suas memórias vão fluindo como um rio, recordando os seus avós (Antoninho), os seus pais, o Virgílio, a carroça, o burro, o ditado “o menino me deu vida…” a vida na vila, o ouriço que se dilatava e continuava consigo emboscado nas vísceras, o pássaro do seu medo que continuava em círculos, a sua nudez que o humilha, a sua impotência perante a doença, a veia que não tem (Sr. Antunes), e vão prosseguindo num entrelaçar contínuo de personagens, locais e tempos por todo o livro até ao final.

Este, simbólico, no meu ponto de vista, uma vez que uma das últimas alusões à sua infância é o seu próprio nascimento. O seu renascimento, quem sabe…

Contudo, voltando um pouquinho atrás na minha opinião, não é a coesão da narrativa o mais importante neste livro (assim como em outros de ALA) mas sim a beleza da sua escrita. É realmente uma escrita que revela uma qualidade, uma mestria no jogo das palavras que nos subjuga. Alia a isso um pendor incrivelmente poético. Há frases no livro que são, só por si, um poema: …”e ele sem descer com os rios, as folhinhas desciam, os ovos de gafanhoto desciam, um ramo de salgueiro descia girando, nós não descíamos pai,”…

É, e julgo não haver dúvidas para ninguém, um livro inteiramente autobiográfico. Quer no que se refere ao episódio da doença quer aos outros da sua infância, e não só. Aliás, até os nomes o sugerem. Já outros o foram e nem por isso ficaram diminuídos na sua qualidade.

Enfim, alguém me disse há uns tempos quando conversávamos acerca do livro que o considerava “o livro perfeito”. Eu cá não sei muito bem o que é um livro perfeito, nunca encontrei nenhum. Encontrei livros que me marcaram profundamente pelas mais diversas razões mas (exigentinha!), estou sempre à espera de outros que me marquem ainda mais.

Portanto, perfeito… não sei, acho que não.

Bom, a ler, sem a menor dúvida. E, já agora, esqueçam a expectativa, só estorva…


por Maria Celeste Pereira
06/10.03.2011

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