sábado, 30 de outubro de 2010

Da leitora Lígia Trindade: «um escritor sensível»

António Lobo Antunes, um escritor sensível que escreve para gente sensível capaz de ler o que não está lá

Julgo na minha modesta opinião que para entender devidamente as obras de António Lobo Antunes, é preciso saber lê-las nas entrelinhas. A sua narrativa é representada através de um bailado de palavras que actuam numa coreografia poética e musical, onde a linguagem por vezes mística e enigmática assume uma aparente incoerência. Para desvendar o mistério dessa linguagem, é preciso ser-se dotado de uma sensibilidade próxima da sensibilidade do autor. Por detrás de cada frase, co-existe uma densidade de emoções e sentimentos que emergem de monólogos interiores profundos, ruminantes por vezes, mas essenciais. Desta forma creio que o conteúdo da “história” perde importância (não deixando de ser relevante) para a forma peculiar, sibilina e magistral como é contada; não importa tanto como começa, nem como acaba, mas como se desenvolve num momento que é intemporal feito de fragmentos dispersos, que surgem para fomentar uma estranheza propositada para dar sentimento e lógica às relações humanas por vezes degradantes.

O leitor precisa ter alguma capacidade de reflexão e sensibilidade para conseguir embrenhar-se nas palavras que estão escritas (que são visíveis) e nas que não estão lá. Só assim é possível chegar à verdadeira leitura, à leitura que o autor oferece para que a decifremos e desvendemos, não tanto com o cérebro, mas com o coração e com a alma.

Há quem se preocupe em encontrar de forma excessiva e por vezes obsessiva, aspectos biográficos do autor nas suas obras, como se isso fosse o mais importante ou como se isso fosse assim tão evidente. Um escritor não consegue evitar que a ficção se misture com a realidade e muitas vezes não consegue perceber onde acaba uma e começa a outra. Cabe ao leitor abstrair-se dessa tentação de interpretar o que não deve ser interpretado, ou corre o risco de não sentir o romance como ele deve ser sentido; é preciso vivê-lo com todas as vísceras e encontrar o sentido daquilo que o autor pretende transmitir e que é tanta coisa…


Lígia Trindade
e-mail de 30.10.2010

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