sábado, 20 de novembro de 2010

Justo Navarro: sobre El Archipiélago del Insomnio

Música de obsessão



Perguntaram ao poeta Gabriel Ferrater se não lhe parecia terrível a realidade, e Ferrater, que sabia do assunto, respondeu imediatamente: "E a irrealidade é o quê?". António Lobo Antunes escreveu O Arquipélago da Insónia para se entender com a irrealidade, esse assunto terrível, tão solidário com a insónia, com a vigília e os seus sonhos. Inventou um narrador que, insignificante, ergue um mundo, uma quinta, uma casa, quartos, móveis. De fotografias antigas retira uma mãe, um pai, os pais dos pais, um irmão, as criadas, os caseiros de uma quinta, e as figuras dos retratos começam a falar e a mover-se, espíritos nervosos de carne.

Alguém conta uma história, e avisa que é apenas um conto, nem sequer o seu, e logo sabemos que é outra mão que vai escrevendo. Lobo Antunes conta a história de uma casa e de uma família, promíscua, quase incestuosa, patriarcal, de amos e servos, uma casa onde ninguém olha para ninguém. Quem se aproxima do outro, fá-lo por medo. Nesta casa de desolação a morte entra e sai como mais um parente, quase com bom humor. Lobo Antunes foi ao centro de quase todos os romances:  família, uma casa, a terra, algo que disputam uns com os outros num espaço fechado, ainda que seja apenas o afecto, ou o favor sexual. Existem dois filhos, um amado e o outro não, um aceite e o outro idiota. O avô, o patriarca, é puro poder, e partilha a mulher do filho único. Vem de uma história que parece ter sido imaginada por Faulkner: chegou à aldeia um homem com o seu ajudante e "uma mulher de que se serviam os dois". Mal vivem num casebre e  convertem-no numa quinta riquíssima.

As mulheres matam-se com veneno. Os homens assassinam com espingarda, fuzil, enxada, navalha. Ardem celeiros enquanto os camponeses revoltosos degolam animais e derrubam depósitos de água e máquinas segadoras. Mas tudo parece uma visão, imagem interior, filme de palavras febris. Podíamos estar nos anos vinte do século passado, em Portugal, se não fosse por algum anacronismo que potencia a sensação de ilusão, de uma certa insegurança física. Os tucanos cruzam o céu, impossíveis, como se a quinta fantástica fosse no Brasil, por exemplo, num outro mundo. Aqui não há tucanos, diz ao narrador uma voz sensata. "Não existimos, o que digo não existiu", esclarece o narrador. O imaginário é maior que o real, porque no imaginário cabe a realidade.

E então Lobo Antunes abre um segundo nível: agora estamos na realidade do narrador, num hospital, muros, fechaduras, injecções, visitas de familiares. Chamam autista ao narrador os enfermeiros, ainda que outros poderiam considerá-lo esquizofrénico, pela sua memória fabulosa ou falsa. "Que disparate, tucanos", diz a mãe real. De que quinta nos fala? A única quinta é a consciência petrificada do suposto narrador, grande e ramificada como uma casa. É esta a árvore de palavras que cultiva António Lobo Antunes, esta angústia de frases harmónicas, fluidas, mais monólogo que diálogo: "Proíbo-lhes que me tirem o que me pertence, o que construi para defender-me de vocês", a quinta, diz o narrador, entre suas plantações sangrentas.

Qual quinta?, pergunta a mãe, e o narrador sente-se usurpado: constrói a casa às escondidas, uma origem mítica (como uma pátria), contra a imundície presente, para não ser, como todos os seus, um deserdado num andar humilde de Lisboa, com o avô aposentado, o pobre pai com cirrose, a mãe triste. A introversão extrema é uma forma de extroversão, um modo de fugir, mas não basta esta saída ao romancista. Leva-nos a um terceiro nível, mais fundo, e da épica miserável de Faulkner passamos para a miséria épica de Beckett. Aqui estão os dois irmãos da primeira parte. O cenário é Lisboa: alguém que escreve histórias acolhe em sua casa o seu irmão, e começa a escrever o que deve existir na cabeça do irmão autista, hermético, único habitante do seu estado mental. É como se quisesse dar-lhe companhia, uma família de seres interiores. Realidade e irrealidade são vasos comunicantes, e há peças que sobrevivem nos dois planos, prova de que a imaginação também é real: o mesmo brinco que, na quinta fantástica, a mãe perdeu num encontro adúltero, e agora é roubado no andar sinistro, para ser empenhado; e a rapariga morta a quem cortaram as tranças, Maria Adelaide, é agora a mulher do irmão são; e os irmãos continuam observando-se, como num espelho. As obsessões têm a sua lógica e a sua música: repetições, multiplicação de vozes, ecos, palavras insistentes como fantasmas ou remorsos. Lobo Antunes, que também é psiquiatra, descobriu na alucinação uma forma piedosa, quase afável, de se agarrar à realidade e narrar o impossível.


por Justo Navarro
13.11.2010
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

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