segunda-feira, 7 de março de 2011

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Conhecimento do Inferno


É curiosa a forma como uns anos de permeio e muitas leituras me fizeram ter uma perspectiva tão diferente do mesmo livro!

É verdade. Acabei de reler este livro há já uns dias. E, se da primeira vez tinha ficado com uma ideia de diferença em relação ao único que havia lido (Memória de Elefante) do mesmo autor agora, pelo contrário, achei-o muito parecido com os dois anteriores. Quando me refiro a parecido quero dizer na forma. Bom, na forma e, no conteúdo também pois, na verdade, julgo até que este poderia ser a “continuação” do primeiro…

Em ambos aparece a personagem principal colada a ALA; psiquiatra, frustrado na sua profissão mas também na sua vida pessoal, marcado pelas memórias de uma guerra que, embora não sendo a sua guerra, lhe deixou marcas indeléveis, assolado por recordações mais ou menos intimistas, mais ou menos determinantes.

Se a linha narrativa de um e de outro se separam, a razão desta, julgo eu, mantém-se a mesma em ambos; a necessidade da catarse.

Embora seja de opinião que já se comecem a notar as marcas que determinarão o caminho que os livros mais recentes de ALA virão a tomar, existe ainda uma certa linearidade na forma de contar.

Ora bem, não é linear. Mas a forma como fracciona o discurso não é ainda tão elaborada como virá a ser.

Também pelo facto de me parecer bastante autobiográfico tendo a aproximá-lo quer do “Cus de Judas” quer do já citado “Memória de Elefante”.

Se nos outros eram essencialmente as memórias da guerra, que imprimiu marcas indeléveis no autor, que prevaleciam neste, porém, é a sua experiência enquanto psiquiatra hospitalar que sobressai.

E vai fundo no contar dessas experiências. E veste a pele do doente psiquiátrico, a sua solidão a desolação do hospital em si. Explora as dúvidas e as amarguras do clínico.

Evidentes também as constantes alusões à sua família, a locais que foram seus locais, a uma vida que estou em crer terá sido também um pouco a sua.

Com um registo belíssimo, pejado de metáforas incríveis de pendor eminentemente poético, vai desfiando essa sua experiência negra ao longo de uma escrita na qual se vai notando um esforço no burilar da forma. A narrativa fica mais complexa e passamos a ter necessidade de acompanhar a vontade das personagens e não apenas o fio do enredo.

Como sempre deixou-me com água na boca.


Maria Celeste Pereira
20.10.2010

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