quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Filipe Kepler: opinião sobre Explicação dos Pássaros



Explica-me os pássaros, pai.

Rui encontra-se numa encruzilhada. Despedaçado desde que sua primeira mulher o abandonou e oprimido pelo desprezo silencioso que o pai e a família lhe devotam por conta do modo de vida que escolheu para si, este professor universitário vê-se estagnado, vítima da frustração resignada e de um surdo desespero, reprimidos por anos sem conta e a tornarem-se mais e mais insuportáveis. Assim, após visitar a mãe a morrer no hospital, Rui decide-se por levar sua segunda mulher, Marília, para uma viagem de quatro dias em Aveiro, onde pretende terminar a relação, na esperança de que, liberto de um relacionamento que julga ruim, possa enfim retomar o próprio rumo e dar um novo curso para sua vida. Contudo, haverá ainda forças para tanto? Será possível, depois de tanto tempo, levantar-se do chão e recomeçar?

À semelhança de suas obras anteriores, o autor divide o romance em capítulos cronológicos (os quatro dias passados em Aveiro), que, no entanto, não se limitam ao escopo temporal de seus títulos. Por conseguinte, o leitor se depara a cada página – às vezes a cada parágrafo – com histórias concomitantes: ao relato do presente, em Aveiro, intercalam-se flashbacks de seu passado com a primeira mulher, as antigas querelas familiares, o divórcio, o início de seu relacionamento com Marília, bem como eventos de um passado ainda mais remoto, origem de suas alegrias e futuras dores: a infância e, sobretudo, a tarde idílica passada na quinta, com o pai a explicar-lhe os pássaros. Além de seu passado e presente, a partir de determinado ponto é-nos dado a conhecer também o futuro de Rui, isto é, os eventos ulteriores à viagem a Aveiro. Uma vez que tal emaranhado narrativo é magistralmente arranjado pelo autor, o leitor, após acostumar-se à obra, não encontra dificuldades em acompanhar o decurso de cada história; pelo contrário, sente-se intrigado e mesmo sequioso de navegar por esse imbricamento textual, que desafia constantemente nossa atenção e entendimento.

A força poética da prosa de António Lobo Antunes sempre me fascinou. Em "Explicação dos Pássaros" não é diferente: seu lirismo visceral, altamente metafórico, a diluir passado, presente e futuro num fluxo narrativo vertiginoso, é simplesmente avassalador, imprimindo-nos a fogo o selo trágico da história de um homem à beira do abismo. É decerto um dos grandes escritores de língua portuguesa da actualidade - se não o maior.


Filipe Kepler
em Skoob (leia neste site mais opiniões sobre o livro)
21.06.2011

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