domingo, 14 de agosto de 2011

José Alexandre Ramos: Milonga niilista (A Morte de Carlos Gardel)


Quando António Lobo Antunes escrevia o seu 10º romance, já havia vincado o seu estilo inconfundível, da desconstrução do discurso (embora ainda faltassem alguns anos e livros para chegar a um discurso mais fragmentado), feito na primeira pessoa do singular, em narrativas paralelas ou sobrepostas das personagens que falam sobre as suas experiências e sentimentos num – por vezes árduo – exercício da memória. A Morte de Carlos Gardel fecha o chamado “ciclo de Lisboa” começado em Tratado das Paixões da Alma, seguido de A Ordem Natural das Coisas.
 
Divide-se em cinco grandes capítulos, correspondendo a cinco temas do cantor de tango argentino Carlos Gardel, cuja escolha não é acidental nem aleatória: “Por una cabeza”, “Milonga sentimental”, “Lejana tierra mía”, “El día que me quieras” e “Melodía de arrabal”. Sendo o tango um estilo de grande intensidade dramática, de base triste, sentimental, mas ao mesmo tempo agressivo e sensual, repercutido na sua dança, de que a submissão da mulher ao seu par masculino é consequência, representa muito bem o que nos diz o livro
 
(diz e não conta, que é marca literária de António Lobo Antunes, embora se possa sempre tirar uma história comum a todos as personagens da qual só nos damos conta ou podemos urdi-la após terminar a leitura do livro).
 
Estes cinco capítulos subdividem-se nos vários relatos das personagens: um núcleo de familiares de Nuno, jovem toxicodependente que está em coma num hospital e acaba por morrer. Embora esta seja a personagem central, cuja situação dá o mote, logo no início do livro, para os relatos do pai (Álvaro), da tia (Graça) e da mãe (Cláudia), personagens do referido núcleo, não podemos afirmar que exista no livro uma personagem principal e as secundárias, da mesma forma que não existe um fio narrativo (pelo menos formal e intencional), mas antes personagem e motivos centrais, tronco comum para as várias intervenções em que o núcleo deixa fluir o seu discurso. Portanto, nenhuma das personagens é dispensável, em qualquer dos seus relatos, ou o livro já não seria o mesmo. E mesmo que quiséssemos achar uma personagem mais evidenciada, nem seria Nuno, pois não é das que mais discursa; a personagem que mais intervém quer a nível narrativo quer na sequência dada à acção é Álvaro, o pai ausente nos afectos, o fã de Gardel, o marido inconstante de Cláudia e mais tarde de Raquel, e irmão de Graça.
 
Ao bom estilo antuniano, cada personagem vem à boca de cena para um monólogo onde evocam memórias da infância, ou outros episódios e factos do passado mais recente das suas vivências, cruzando com a experiência vivida no tempo actual do livro. Os capítulos e subcapítulos sucedem-se a um ritmo que vai aumentando a sua cadência à medida que a tensão entre as personagens se torna mais densa e se precipita para o fim. Assim, vamos conhecendo a inadaptação de Álvaro como pai e marido, que sucessivamente é incapaz de gerir uma relação familiar, primeiro com Cláudia com quem tem o filho Nuno, e depois com Raquel; dos conflitos de interesse em torno da personagem Nuno – desde a desordem emocional da relação com Álvaro a quem não reconhece como figura paternal, até aos conflitos com as relações amorosas da mãe, e a nova companheira do pai, estranhos com quem em criança é obrigado a conviver e que o vai marcar, embora aparente indiferença e desprezo durante a adolescência que é quando se vicia na heroína. Também a cumplicidade passiva de Graça, irmã de Álvaro e tia de Nuno, que no livro sabemos que vive com um mulher (Cristiana), mas nutre um sentimento algo incestuoso pelo irmão, e por consequente o iliba da culpa do desarranjo emocional do filho e sua preponderarão para se alienar da vida social e consumo de drogas, vindo a atribuir essa culpa a Cláudia, mãe de Nuno. Afinal, como no tango, as mulheres são aqui submissas e resignadas ora por compaixão a Álvaro, ora porque a insignificância das suas vidas não lhes permite grandes exigências para com os parceiros que escolhem (ora Álvaro, ora outros homens como os que a mãe de Nuno convive). E toda esta conflitualidade, exasperação, altruísmo e egoísmo misturados, e resignação a vários níveis, são retratados com bastante ironia e sarcasmo, em pequenos episódios roçando o grotesco, e com um pendor niilista como se a vida, por ser assim, não valesse a pena ser vivida. Assistimos ao fim de tudo não com a morte de Nuno, mas com o abandono das personagens que se vão despedindo da narrativa sem que demos conta e com a suposta loucura de Álvaro (nunca assumida quer pelos personagens quer pelo autor – terá que ser o leitor a decidir) que, transtornado com a morte do filho (e ao fim ao cabo com todo o seu percurso emocional arruinado), julga conhecer Carlos Gardel sobrevivente num imitador – Albino Seixas, a personagem final do livro, um velho artista de cabaret que luta para manter a subsistência e a da sua mulher entrevada, após muitos anos como dançarinos de tango. De realçar que as personagens – de uma baixa classe média – vivem todas nos subúrbios de Lisboa, que no livro e através dos relatos são apresentados como lugares feios e desinteressantes – um factor mais a sublinhar a resignação.
 
A composição deste romance, em que as narrativas têm altos e baixos picos de intensidade, assemelha-se à de uma composição musical
 
(como viria a ser notado dali para a frente na obra de Lobo Antunes),
 
ou não tivesse sido construído sob a base de cinco temas de Carlos Gardel, este ainda uma personagem abstracta do livro mas sempre presente, que silencia todos os relatos quando Álvaro, presumivelmente já recuperado do seu estado delirante, reconhece finalmente o cantor argentino como morto.
 
Escrever sobre qualquer que seja o livro de António Lobo Antunes é, para mim, ingrato e difícil, acabo sempre por não achar as palavras certas. Porém, a terminar, devo dizer que foi um prazer reencontrado reler A Morte de Carlos Gardel, pela mestria com que foi escrito e por, como sempre, estar a falar de nós e para nós próprios – isto já é António Lobo Antunes, reconhecidamente. Particularmente, e por uma questão de gosto pessoal, este livro é um dos que mais aprecio deste mestre da literatura.
 

José Alexandre Ramos
14.08.2011

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