quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Marco Caetano: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


Tinha vontade de voltar a ler Lobo Antunes. Tinha vontade de ler frases do tipo "... gente de que notava apenas o ruído das botas e portanto não gente...". Tinha vontade de me tornar a perder nos vários cenários que as suas obras proporcionam.

António Lobo Antunes não é um autor consensual. Mas afinal, é mesmo assim com todos os artistas, não é? Eu sou seu admirador de forma incondicional. Conseguiria ouvi-lo falar horas sem parar.

Poder-se-á dizer que os seus livros não são de leitura fácil, mas na minha opinião isso deve-se unicamente à riqueza do conteúdo da sua escrita. Arriscaria dizer que a par de Agustina Bessa-Luís, estamos no topo da pirâmide dos escritores portugueses da actualidade.

Sôbolos rios que vão é a sua última obra cujo o lançamento ocorreu a 29 de Outubro de 2010 na Estação Elevatória dos Barbadinhos, pertença do Museu da Água da EPAL. Tive o prazer de assistir ao vivo a este lançamento e devo dizer que a vontade de ler este livro surgiu logo aí. O título, proveniente de um poema de Camões, é soberbo, o que aliás parece estar a tornar-se um hábito nos livros do autor. Sem dúvida uma forma superior de baptizar esta obra.

Estamos perante um texto muito autobiográfico. Há alguns anos atrás, Lobo Antunes esteve hospitalizado devido ao aparecimento de um cancro. É essa experiência que, do seu ponto de vista privilegiado de doente, se propõe a apresentar ao longo dos dias em que esteve hospitalizado.

O recurso a memórias antigas para passar o tempo, para esquecer o presente, para justificar as dores ou os sentimentos, está presente do início ao fim. Tudo acontece para se abstrair do que está em seu redor como se fossem espasmos que findam quando a dor regressa. A facilidade com que muda de interlocutores, de cenários ou de espaços temporais, permite ao leitor divagar no percurso da obra (dos rios?).

As metáforas utilizadas e a riqueza dos seus pensamentos são apaixonantes. Penso que nem que leia a obra mais duas ou três vezes, não conseguirei apreender tudo o que o autor tem para mostrar, tal é a densidade da escrita.

Comparar a sensação de se ter um cancro nos intestinos com a sensação de ter um ouriço de castanheiro dentro de nós é bem revelador do poder da sua escrita. O doente que não é doente, é o senhor Antunes, não, é o Antoninho! O avô que é a única pessoa que se preocupa com a dor provocada pelo ouriço. Mas como, se afinal o avô morreu há 40 anos? O pai que apenas procura a bola de ténis que se escondeu atrás dos arbustos como o ouriço que esconde em si. O médico, ou antes o pingo no sapato, quando afinal os rios continuam a caminhar... E nós, sôbolos rios que vão.


Marco Caetano
09.01.2011

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