sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Alexandre Kovacs: opinião sobre Explicação dos Pássaros


António Lobo Antunes - Explicação dos Pássaros - 256 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Lançamento 2009 (lançamento em Portugal 1981) - ler aqui trecho em pdf disponibilizado pela editora.

Sempre achei que os piores pesadelos não são aqueles povoados de monstros e situações de terror, pois estes identificamos logo de início como pesadelos; aqueles verdadeiramente terríveis são os que reconhecemos como parte do nosso próprio quotidiano, começando de mansinho e, pouco a pouco, nos envolvendo em uma malha sufocante de espirais infinitas, uma sensação de afogamento em que não percebemos se chegamos ao fundo ou à superfície.

Esta sensação de pesadelo foi a que me deixou o romance "Explicação dos Pássaros" do mestre António Lobo Antunes que, com a sua tradicional prosa polifónica, misturando passado, presente e futuro, vai nos desvendando os últimos dias da vida de Rui S., um professor universitário que se vê aprisionado em uma série de situações que ele próprio, por conta de decisões erradas ou mesmo falta de decisões, se deixou envolver ao longo da vida.

Lobo Antunes parece não ter pena de seu protagonista que vai sendo lentamente despedaçado ao longo da narrativa. Depois de uma desconfortável visita à mãe que morre de câncer em um leito de hospital, parte em uma viagem de carro de final de semana com a segunda mulher decidido a pedir-lhe a separação. Ao longo desta viagem, todo o passado de Rui S. é descortinado, incluindo os detalhes da separação pedida pela primeira mulher (do ponto de vista do protagonista e da mulher), a inadaptação à sua família, sociedade, filhos e amigos, tudo parece levar Rui S. a um final trágico.

Por que devemos ler livros assim? Não sei responder a esta pergunta, mas posso assegurar que é um belo exemplo de literatura.


Alexandre Kovacs
14.10.2011

1 comentário:

Kovacs disse...

Obrigado pela citação e parabéns pelo blog!