sábado, 22 de outubro de 2011

Helena Vasconcelos: crítica a Comissão das Lágrimas


O canto dos carrascos

Um sinistro episódio da violência pós-independência em Angola, recriado num livro polifónico, se não ensurdecedor

[...] (*)

António Lobo Antunes, um escritor que conhece bem a violência e não perde a oportunidade de a retratar de uma forma única e, para muitos, peculiar, recria este episódio sangrento e compõe uma obra que funciona como um lamento alucinado, onde se fazem ouvir várias vozes sobrepostas - a corista decadente, o padre sem sotaina, “respeitoso, com uma açucena na mão”, a louca, o pedófilo, (típicas personagens do autor), a mãe, o pai, a filha, o avô, a neta - e, também, os gritos e sussurros de gerações e gerações sujeitas ao ciclo infindável da catástrofe e da culpa. Mas, neste livro, as personagens estão todas mortas, condenadas a deambularem como fantasmas, expressando o seu horror em litanias pungentes que se elevam numa cacofonia de frases soltas e de apelos dilacerantes.

A escrita do autor, repetitiva, sincopada, oriunda das profundezas da “corrente da (in)consciência” - não é sua intenção “contar histórias” mas sim invadir-nos, “penetrar-nos” - serve bem o propósito desta narrativa sombria que se desenrola em espiral, partindo de um ponto fixo que surge da recriação das múltiplas vozes no início de cada capítulo e que articula sem parar o impacto da violência física e psicológica entre gerações, concidadãos, raças, homens e mulheres, representantes de ideologias rivais, irmãos, espécies.

Para o leitor, trata-se de acompanhar o ritmo e de seguir os compassos dissonantes desta “sinfonia” onde cabem “leitmotivs” e expressões simbólicas fechadas num círculo tenaz que quase nunca se afasta - a não ser, estranhamente, nos capítulos 16 e 17 - de um “núcleo duro” formado por imagens díspares de grande impacto evocativo. O resultado é um atropelo ensurdecedor de palavras enclausuradas num ambiente claustrofóbico de medo e loucura, em que até os objectos, o ar e a terra são ameaçadores. O autor não se limita a mencionar os acontecimentos em Angola, alargando o âmbito da sua narrativa à guerra colonial, ao êxodo dos retornados e aos pesadelos dos sobreviventes, fechados em apartamentos impessoais numa Lisboa indiferente e provinciana, onde acabam por desaguar as memórias tanto dos carrascos como das vítimas.

A linguagem, tal como acontece na obra de autores como William Faulkner e Toni Morrison, é a ferramenta primordial de Lobo Antunes e ele trabalha-a, manipula-a e verga-a com uma espécie de prazer “bárbaro”, quase sádico. É essa mesma linguagem que serve o propósito de construir um ambiente de caos exterior, de desordem íntima, de demência e de pavor, em que a subversão da dinâmica dos movimentos e das sensações serve o antiquíssimo ciclo da violência desmedida dos homens sobre os homens, as mulheres, os animais e a própria terra que, aqui, desconhece a doçura do apaziguamento. O extermínio do sexo feroz vem sempre a par deste ritual de catanas e kalashnikovs, de cadáveres apodrecidos e sem nome, restos aos quais o autor não permite qualquer réstia de amor ou compaixão, qualquer manifestação de alegria ou de tristeza, sentimentos totalmente ausentes deste livro onde - apesar, ou por causa, do título - quase não existem lágrimas.

Numa entrevista ao Jornal “O Estado de S. Paulo”, Lobo Antunes afirmou, em 2010, que este livro, como todos os outros, parte do desafio de não se deixar “vencer pelas palavras”. Em “A Comissão das Lágrimas” o desafio cumpre-se, mas o processo autofágico da escrita acaba por derrotar, em certa medida, o seu autor.
 
(*) a autora do artigo, no primeiro parágrafo que decidimos não citar, explica o que é A Comissão das Lágrimas dentro do contexto político de Angola em 1977. Como o assunto já está retratado em algumas das opiniões desta página, optamos por omitir esse parágrafo. Se o quiser ler, basta aceder ao link abaixo da Ípsilon.

Helena Vasconcelos
Outubro 2011

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