sábado, 1 de outubro de 2011

Manuel Cardoso: opinião sobre Os Cus de Judas


Encurralado entre o arame farpado das lágrimas e o muro frio da raiva, Lobo Antunes, mergulhado no terror das memórias ainda incandescentes de África, leva-nos em visita guiada ao horror, ao medo, à solidão e à revolta da guerra que é passado mas sobrevive, estrebuchando mas nunca morrendo, em todas as suas obras.

Olhares macabros, memórias de terror, tristeza de quem viveu algo que ainda resiste na alma, este é um retrato angustiado e revoltado. O narrador, nunca nomeado, podia ser Lobo Antunes. Médico como ele, sofreu a dor dos outros, camaradas na desgraça, vítimas de um regime assassino. Passadas as dores do corpo, permanecem as da alma, as mais duras de viver.

São estas memórias da grande noite de Angola que o narrador desfia perante uma mulher, também ela, só. Numa esplanada, depois num apartamento solitário e cinzento, sonhando com um sexo sem riso que provavelmente tentaria redimir-lhe o passado. Ilusões de futuro, para quem o passado é uma espécie de morte lenta, por consumar.

E a guerra depois da guerra que é a solidão. E o homem que a guerra não fez homem, afinal, apenas uma alma revolta no deserto, sem sonhos nem esperança, apenas uma memória negra de morte ou vermelha de sangue. Um homem só, pássaro ferido que um dia quis voar. Agoniza. À sua frente um futuro que nada lhe oferece. Atrás de si um passado que o persegue e absorve. Devora. Devagar… sadicamente devagar, como na agonia do soldado que morre com as tripas na mão. A espaços emerge a violência; a violência da guerra colocada nas letras carregadas, numa caneta que rasga o papel como as metralhadoras rasgavam as carnes inocentes dos soldados, esventrados por causa de uma mentira chamada Pátria.

Também o amor toma parte neste festim de horrores; as saudades e a mágoa do amor perdido de Sofia, um amor roubado pela PIDE. Um amor que se mistura com o prazer triste da sua interlocutora; um prazer magoado porque é impossível fugir da memória.

Solidão, poesia, violência, amor e morte. É assim nos Cus de Judas, ou seja, nos confins de Angola ou nas profundezas da alma de ALA.

Avaliação pessoal: 9.5/10


por Manuel Cardoso
25.05.2011

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