quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Marcelo Lyra: opinião sobre As Coisas da Vida

Lobo Antunes num dois em um


Misturar crónicas com ficção no mesmo livro soaria inusitado para muitos escritores, mas não para o português António Lobo Antunes. Ex-combatente de guerra na Angola dos anos 1970 e psiquiatra com larga experiência, ele tem a base de sua ficção calcada justamente na diversificada vida que levou. Conhecido mundialmente por romances como "Memória de Elefante" e "Arquipélago da Insónia", ele prova que escreve com igual desenvoltura nos dois gêneros, misturando sem a menor cerimónia o humor, a melancolia e a nostalgia. Esta edição brasileira condensa o conteúdo de dois livros portugueses.

Assim, as lembranças da infância convivem com atrocidades da guerra, soldados torturados e mulheres violentadas. Ao mesmo tempo, o leitor se depara com narrativas de humor muito divertidas. Mesmo em meio aos horrores da guerra, Lobo Antunes é capaz de momentos poéticos, como quando afirma que a coisa mais linda que viu não foi um quadro num museu, mas um campo de girassóis em Angola. Numa viagem em meio à guerra, a visão das cabeças de girassóis erguendo-se uma a uma em direcção aos primeiros raios de sol o acompanha pela vida.

Em meio a uma visita à antiga casa da sua infância, entrega-se à lembrança das brincadeiras e, diante de um espelho, o que vê é sua imagem de menino. Em outro relato aborda os pouco conhecidos episódios de suicídio de soldados na guerra. Essa nostalgia permeia boa parte dos textos.

Entre os contos divertidos, destacam-se o chapliniano lutador de boxe que se acovarda momentos antes da sua luta mais importante, assustado diante do tamanho do oponente. Ou o ingénuo marido de uma mulher vesga, assediada pelo colega de repartição, um velhinho à beira da morte, mas que, contra toda expectativa, insiste em persegui-la pelos cantos do local de trabalho. Mais adiante, uma crónica narra a origem de sua aversão a computadores, cujas travas e falhas engoliram um romance inteiro no passado, fazendo-o preferir escrever seus romances à mão.

Se na melancolia nostálgica Antunes parece herdeiro dos fados de Amália Rodrigues, nos textos de humor, bem divertidos e aparentemente ingénuos, ele carrega mordacidade e crítica de costumes que o tornam parente distante de Voltaire. A facilidade em sair da melancolia ao riso em poucas páginas só confirma seu talento.

A única ressalva a este livro é a mesma que se faz a todas as publicações portuguesas lançadas no Brasil. Faltam notas de rodapé. Já se disse, parafraseando Mark Twain, que Brasil e Portugal são dois países separados pela mesma língua. Algumas expressões idiomáticas são simples de compreender, como a moça que fazia balões com a pastilha elástica, nada mais que uma garota a fazer bolas de chiclete. Mas algumas chegam a ser quase incompreensíveis, como o homem que achava tanga a mulher dizer que o senhor Castro estava a fazer-se ao piso. Essas diferenças só confirmam a inutilidade da recente mudança ortográfica imposta para aproximar os países lusófonos.


por Marcelo Lyra
07.10.2011

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