sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Antonio Danise: opinião sobre As Naus


Le navi viajam no nevoeiro de um inconsciente confuso, atordoado por anos de guerra colonial inútil, da Angola independente a um império já desaparecido, para uma Lixboa capital de um dos países europeus mais pobres.

Angola e as consequências da guerra colonial mudaram a vida a Lobo Antunes, uma experiência como médico na linha de combate em Luanda, no início dos anos setenta, entre hospitais psiquiátricos e pessoas desesperadas: de uma parte os angolanos, divididos em facções rivais, entusiasmados com a longa e desejada independência finalmente conquistada, após anos de lutas e combates e que pouco depois haviam desencadeado uma longa e sangrenta guerra civil, e do outro lado os portugueses, obrigados a fugir de Luanda, com a perspectiva do regresso, depois de anos de guerra, perdidos, a uma Lisboa onde não conhecem mais ninguém, onde não possuem nem mesmo um lugar para viver, e muito menos um emprego.

A tragédia destas pessoas que regressam a um país que não lhes pode acolher, é o que nos diz Lobo Antunes, descrevendo a atmosfera trágica, paradoxal às vezes, grotesco, com uma escritura visionária, um estilo que não leva em conta as mais elementares regras da narrativa convencional, talvez para dar a ideia das condições de esquizofrenia e de confusão de que são vítimas, sendo repentinamente expulsos, após terem vagueado em torno de uma cidade indiferente e egoísta, e levados para um sanatório onde irão terminar os seus dias.

Um livro que não se termina nunca de ler e que precisamos recomeçar imediatamente logo que chegamos à última página, para tentar compreender de que coisa se fala ainda hoje.


Antonio Danise
não datado
[tradução original do italiano de Deise Maria Di Lascio Pestana, revista por José Alexandre Ramos]

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