sábado, 3 de dezembro de 2011

Margaret Carson: opinião sobre O Manual dos Inquisidores


O romancista português António Lobo Antunes dedicou grande parte de sua carreira literária para evocar o período da história de seu país a partir dos anos finais da ditadura de Salazar, que terminou em 1968, com a transição tumultuosa para a democracia após a Revolução dos Cravos de 1974. Em O Manual dos Inquisidores, Antunes traz ao leitor a o relato impiedoso de um regime ditatorial brutal derrubado por uma revolução que capturou a atenção do mundo quando fotografias de civis colocando flores nas espingardas dos soldados foram passadas. Apesar de desenvolver um trabalho ficcional, Antunes incorpora as especificidades desse tempo no seu romance, usando funcionários governamentais da vida real como personagens secundárias, e recriando crimes e abusos que estão ainda vivos na memória de muitos portugueses.

À primeira vista, o romance parece imitar a estrutura de um estudo clínico, com passagens organizadas por capítulos intitulados de "Relato" ou "Comentário", mas o fluxo da consciência narrativa está longe de ser de tal forma simplista. O leitor deste ambicioso romance tem de juntar os relatos fragmentados de quase vinte personagens diferentes, cujas vozes distintas se movem para a frente e para trás no tempo ao longo de um período de quarenta anos. Esta narrativa não-linear e inconstante destabiliza o leitor, mas a complexidade da história acaba por tomar forma. Antunes joga com a noção de documentário, porém o relatório que oferece tem mais que ver com a memória fragmentada do que com uma transcrição científica. O autor aborda uma história conturbada, não estabelecendo o que dizem os factos, mas enfatizando o quanto é difícil de avaliar e compreender o passado.

Os tópicos principais da narrativa convergem na figura do Sr. Francisco, um ministro ficcional do gabinete de Salazar, dono de uma enorme quinta e casa senhorial nos arredores de Lisboa. "Faço tudo o que elas querem, mas não tiro o chapéu para que se saiba quem é o patrão", afirma, através da memória do seu filho anos mais tarde. Ser patrão significa poder escolher as criadas, a quem ele trata como gado (na verdade, um alvo da sua predação sexual vive no celeiro, e outra, grávida dele, dá à luz num estábulo, assistida por um veterinário).

De tempos a tempos o Primeiro Ministro reúne com o Sr. Francisco na quinta, sendo a sua visita precedida pela Guarda Nacional que abate dezenas de corvos para que o ditador paranóico não viesse a confundir  o grasnar das aves com uma multidão escarnecedora. O ditador idoso, cercado por um séquito de bajuladores secretários e guarda-costas que se dirigem a ele como "Professor Salazar," toma chá com o ministro, enquanto discutem quem deve ser interpelado e mandado para a cadeia. Depois de terem decidido, um simples telefonema para o "Major", o chefe da polícia secreta de Portugal, é o suficiente. O leitor reconhece o modus operandi do estado totalitário em todo o romance: os ficheiros secretos, os interrogatórios e as torturas, os assassínios sem julgamento.

A Revolução dos Cravos vem trazer efusiva alegria: "a rádio estilhaçava-se em cantorias, os automóveis buzinavam, as fábricas apitavam sem cessar" e o pandemónio instala-se na quinta. O ministro sabe que é hora da vingança, e despeja os criados e funcionários da propriedade, chamando-os "comunas" e ameaçando matá-los, enquanto atiça cães pastores alemães que percorrem a quinta. Um mês depois, quinta e casa está em ruínas (provavelmente saqueado pelos revolucionários que temia, embora não vemos essa cena), e o ex-ministro definha. Poucos anos depois é vítima de um derrame cerebral e acaba os dias num lar de idosos, impotente e mudo, meditando sobre as cenas de brutalidade do seu passado, incluindo sua própria iniciação como um jovem oficial sobre a violência da guerra de guerrilha na Angola colonial. Antunes sugere que essa exposição precoce à violência teve consequências a longo prazo para o ministro. Uma vez doutrinado para o uso da violência e da tortura para instilar o medo nos habitantes da colónia, o ministro estava bem preparado para assumir um papel semelhante na sua vida pessoal e pública.

O tradutor Richard Zenith fez um trabalho extraordinário que está sintonizado com as vozes características do original. Portugal entretanto tornou-se membro da União Europeia há mais de vinte anos, mas em O Manual dos Inquisidores, António Lobo Antunes deixa claro não permitir que o recém-próspero Portugal democrático esqueça o seu passado totalitário.


Margaret Carson
2007
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

Sem comentários: