sábado, 21 de janeiro de 2012

Francisco Solano: opinião sobre Qué caballos son aquellos que hacen sombra en el mar?


A substância do trivial

Este romance de Lobo Antunes é divulgado pela editora com esta afirmação do autor: "Um livro ideal para dar trabalho aos críticos. Queria escrever um romance à maneira clássica, que destruísse todos os romances feitos desta forma". Também Joyce, com Finnegans Wake, se propôs a manter ocupados os críticos por trezentos anos. Estes excessos revelam uma patologia de ambição literária. Faulkner, outro gigante, disse que havia de julgar um escritor pelo esplendor do seu fracasso. Para os três a literatura é uma arte de exploração que inclui o receio da descoberta, não dar nada por concluído. Esta qualidade predomina na escrita de Lobo Antunes. O leitor que tenha conhecimento da sua extensa obra não estranhará estes monólogos obsessivos, vozes que se cruzam urdindo uma teia cujos contornos dificilmente aparecem claros. Nada é de todo preciso, e não obstante poder-se-ia dizer que contemplamos o magma de uma memória que ferve revelando-se com a máxima transparência que as palavras permitem, que na obra de Lobo Antunes tratam de mostrar o que não elas não podem dizer. Algures nestas páginas uma voz reconhece: "Quais são as memórias de um cérebro que se decompõe".

Ao contrário de outros livros, impregnados de um substrato dramático que coloca a obra em movimento, não existe em Que Cavalos São Aqueles Que fazem Sombra No Mar? nenhum motivo central que manche a intriga que tecem as vozes distintas. E se tivéssemos que encontrá-lo talvez fosse na própria família, como instituição dividida, composta por numerosas tensões, incompreensão, humilhações e dor. E como essa família, a prosa adquire um desmembramento semelhante. Não existe aqui, de facto, nada que agarre o leitor. Cada voz, quando é reconhecida (ainda que ela nunca se reconheça a si mesma), tende a ser sobreposta pelo irromper de outra voz que se mistura mudando a perspectiva, de forma que as personagens se evaporam na sua pretensão de se constituírem ao contrastarem-se com as demais, e os múltiplos saltos que desmoronam a sintaxe obrigam à recorrência no estilo de estribilhos e chavões que significam pouco mais do que uma alusão para identificá-las. É preciso deixar, portanto, esse empenho - legítimo, mesmo assim - de compreender o que se lê, pelo menos da forma imposta por uma leitura tradicional. Lobo Antunes propõe uma leitura desprovida do interessante; dissipa a ilusão de vermos, agradando-nos à distância, a personagem numa montra, apenas o efervescer que a concretiza, em que o não dito e desconhecido ("somos sempre outra coisa e por baixo disso outras coisas escondidas") emerge com a mesma relevância que o substancialmente narrado: a discórdia entre os irmãos, o envelhecimento do pai, a criada que guarda os segredos (que todos conhecem) dos membros da família, os desastres amorosos que fomentam a lenda familiar, a mãe resignada ao esquecimento.

Não é possível isolar um aspecto deste romance sem violentar o seu dinamismo. Certa vez Lobo Antunes afirmou que "O livro é um organismo vivo, que nada tem que ver comigo, com o seu próprio temperamento e sua própria fisionomia". Mais do que um romance, parece a descrição de uma personagem. Também tem reafirmado que os seus romances não são polifónicos, mas uma só voz com diferentes tons. A combinação das duas afirmações suscita a configuração de que o romance, antes que uma estrutura, se constitui afinal em personagem. Talvez, se não estivermos demasiado errados, que isso possa servir para caminhar por estas intrincadas páginas cujos capítulos seguem a ordem de uma corrida de touros, com os seus precedentes, os deferentes tércios, a faena, a sorte suprema, e o sabor amargo que nos deixa a conclusão da cerimónia.

O romance chama o leitor a manter uma agitação que esteja à altura das exigências de Lobo Antunes, um autor que, por tê-lo dito de alguma forma, há muito tempo que rompeu os vínculos entre enunciado e significado. Criou um estilo em metade de índole psicológica, auto-referencial, e outra metade imprevisível. Aqui o imprevisto domina todas as incidências dessas vozes que se desvanecem para não se destruírem. Esta, aquela, essas vozes rompendo-se, nunca antes, até à escrita de Lobo Antunes, haviam sido criadas em literatura. Para aceder a essa sonoridade é preciso ler de um modo diferente. Ou talvez escutar.

por Francisco Solano
fonte: El País
14.01.2012
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

Sem comentários: