quarta-feira, 13 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Bruno Assunção


A primeira vez que li Lobo Antunes duvidei de que ele conseguisse levar pelo livro inteiro aquela linguagem de quem desistiu de falar com o que não seja uma espécie de alma que entranhasse as vísceras das linhas. No entanto, quanto mais lia, mais achava que, de facto, havia ali alguém que tinha subtraído de sua escrita o que não fosse necessário. De repente, o mais patético personagem se fazia comovente, o cenário mais banal, um sistema de realidades que não poderia mais restar senão pregado à retina tal era a força que evocava através de imagens e figuras que não viriam a aparecer mais no livro, mas que marcavam a brasa os olhos. Lobo Antunes narra como a vida: mas se esta usa imagens, que de tanto ver desaprendemos a apreciar, o escritor inventa a narrativa nas palavras, re-ensinando-nos a nos espantar com o pouco. Ele dá a ver a existência assim: de dentro da gente, através de calabouços de vozes e calafrios de silêncio e esquizofrenia. Todo o mundo é um pouco assim, incompreensível. Até porque explicar, às vezes, é diminuir a coisa ao que já não espante. Ao que já não seja hermético. Ao que não se permita ao escuro (certas coisas só se revelam no escuro, natureza esconsa).

por Bruno Assunção
13.06.2012

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