quarta-feira, 11 de julho de 2012

R.B. NorTør: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Será, em termos de volume, um dos maiores livros do autor e hesito em escrever romance. Hesito no romance pois não estou seguro que seja um romance. Estamos seguramente perante um dos melhores exemplares da escrita poética do autor, perante uma das menos lineares narrativas, uma análise, desta vez não às profundezas da mente, mas às teias que unem uma família a fragmentar-se. Acresce ainda que este "Não entres tão depressa nessa noite escura" é ainda um brilhante exemplar de como o acto de ler pode ser fisicamente desgastante sem que isso implique uma escrita sombria.

A afirmação de que a escrita de A. Lobo Antunes não é sombria poderia ser por si só motivo de discussão. No extremo poderia levar um conhecedor a pegar nesse livro, a perder-se nos seus primeiros capítulos e a fechar o livro para nunca mais o abrir. Na realidade, este que vos fala releu os três primeiros capítulos três vezes para se embrenhar nesse fim tarde, para descortinar os raios de sol pelas grandes janelas do hospital onde tudo começa, onde se espera que o pai de uma família sem nome vá para a sua operação ao coração e que volte como novo para os Cuidados Inten ivos. Foram três releituras para que se formasse então a inevitável pergunta: que noite é essa de que nos fala o título?

Essa pergunta atravessa toda a obra. Ela vai mudando à medida que mudam os capítulos, vai tomando nuances consoante o narrador, mas está sempre lá. Ela é a morte de um pai de família com problemas de coração, ela é a vergonha de uma família pejada de dívidas que alimentam uma ilusão de grandeza imposta pelos vizinhos, é a pobreza tão profunda que emana um cheiro nauseabundo e torna os pobres em gente sem direitos, sem inteligência, agradecidos por todas as migalhas que os ricos não precisam e sacodem para fora da mesa, que os bestializa e que envergonham quem se dava com as elites coloniais. Pode ainda essa noite ser a vida de sonhos e personagens imaginárias, escondidas em quartos alugados nas traseiras do barbeiro de uma aldeia que não são mais do que quatro casas, ou será essa noite a vida real que vivemos, nos sufoca e nos leva a sonhar com o que podia ter sido, o que podíamos ter mudado, podem ser todas as noites, pode não ser nenhuma delas.

A obra é apresentada no tradicional estilo catártico do autor, da personagem no consultório a analisar a sua vida. No entanto há algo que torna esta obra particularmente distinta no cânone do autor. Sem sacrifício da densidade e profundidade da escrita, capazes de cansarem o autor, verifica-se que há um tom luminoso que atravessa toda obra. Ao contrário de outras obras do autor, em que nos sentimos abraçados pelas sombras, nesta há uma aura luminosa que ilumina as cenas de espera pela morte em salas de espera, que iluminam os traficantes na praia, que é o raio de luz pela janela do andar de Alcoitão, a luz das máquinas do casino quando se apostam móveis e jóias de vidro. É uma constante na obra, uma oposição a essa noite escura de que nos fala o título, mas não se pense que transborda de alegria. É uma luminosidade que abraça momentos do mais puro desespero que se apodera de nós nas horas de incerteza, que brilha sobre a angústia que sentimos quando vemos o nosso mundo a cair, esse foco que incide sobre o envergonhado. É a luminosidade que passa por entre as folhas das palmeiras, nessa hora de incerteza sobre o passado, quando nos perguntamos "e se tivesse sido de outra forma?".

Há ainda um lado social na obra. Como disse anteriormente, desta feita o mergulho às profundezas da mente humana é substituído por um dissecar de relações interpessoais, uma perspectiva sobre como nos integramos no meio social. É um olhar sobre essa sociedade de ilusões, as aparências em que tem de se nascer para que se seja aceite, porque os pobres são burros, emanam o cheiro de pobreza, não podem brincar com quem partilhava fins de tarde com o presidente Kruger.

Toda a obra é a descoberta dessa família de Cascais, saudosa dos tempos africanos, em que mandava e não negociava com pretos e árabes. Uma menina que luta por respeito junto dos alunos, apesar da menina a caminho do casino sem ter o que jogar, a família que faz por esquecer o bastardo com nome de princípe herdeiro que acolhe no seu meio, emanando o cheiro a pobre, a preocuparem-se com os empregados e particularmente com a Adelaide, presa que está entre o que foi, o que gostavam que tivesse sido e o que é.

E há a Maria Clara. A Clarinha, a Maria Clara que é o homem da casa, nunca Clara, a mãe. Maria Clara a redatora deste diário, a gota de sanidade num micro-cosmos louco, o pilar de realidade que sustenta a vivência imaginária de uma famíilia que tem o pior dos cegos por mãe. A Maria Clara é o homem da casa que perscruta nessa arca do sótão as origens do pai, a Adelaide com uma criança ao colo, as fotos do professor de aldeia. A Maria Clara que nos conta, com uma inveja na pena, a forma despudorada como o médico despia a irmã com os olhos, a Maria Clara que gostava de ser como Ana, o homem da casa que gostava que a Ana gostasse dela, que lia em revistas a opinião dos psiquiatras sobre a normalidade do amor entre mulheres, a Clarinha que queria ser mais mulher. 

Há que falar de Clara, mãe de duas crianças, que vive com o marido na casa dos sogros, que não está mais em Cascais, que foi com a irmã a uma cave em Algés, antes desta ir para Itália e desaparecer da vida deles. A Clara que aparece no conto no momento em que se revela essa noite escura. Não é mais Clarinha, não mais a Maria Clara é o homem da casa, Clara, a sombra que nos sussurra como tudo poderia ter sido bom se tivesse sido assim e que no final nos deixa com a dúvida se alguma vez sairemos dessa noite escura.

Em jeito de conclusão, este Não entres tão depressa nessa noite escura é uma narrativa poética que me ia deixando fisicamente cansado, mentalmente esmagado e no entanto envolto numa radiância. António Lobo Antunes não o escreveu para os fracos de espírito, nem para quem começou agora a perceber que ler é mais do que articular palavras. Esta obra terá de figurar em qualquer discussão sobre a magnum opus do seu autor.


por R.B. NorTør
30.05.2012

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