sábado, 3 de maio de 2014

Três artigos de opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

A tradução em francês, por Dominique Nedellec, de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, foi publicada há pouco mais de um mês pela editora Christian Bourgois. Em Março, para assinalar a saída do novo livro naquela língua, António Lobo Antunes esteve em Paris onde falou sobre a sua escrita e pouco mais, uma vez que se recusa a falar dos livros que publica.Foi renitente em dar entrevistas, pelo menos uma entrevista no modo formal.

Sugeridos pela sua editora na Dom Quixote - LeYa, Maria da Piedade Ferreira, os três artigos que se seguem são desta ocasião e opinam sobre o mais recente livro do escritor em francês, Quels Sont Ces Chevaux Qui Jettent Leur Ombre Sur La Mer?. Os dois primeiros foram já aqui anteriormente publicados em posts separados, mas juntamos agora com o último, sendo essas anteriores publicações eliminadas.



1. Artigo publicado em Les Temps


Os gritos silenciosos das personagens de António Lobo Antunes

António Lobo Antunes tem o génio dos títulos. O romance mais recente já escrito mas ainda não publicado, o qual ele declara ser o último, tem como título em português "Caminho como uma casa em chamas". O anterior, publicado em 2012, vem de um enigmático verso de René Char: "Não é meia noite quem quer." Em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? não é meia-noite, mas seis da tarde, a hora em que a mãe irá morrer. São também as três horas da tarde, essa terrível hora em que as casas são tristes. Estes dois momentos marcam como leitmotiv esse muito chuvoso domingo de Páscoa, 23 de Março, numa quinta do Alentejo. 

Era uma vez uma propriedade próspera nessa grande planície ao sul do Tejo: uma ganadaria com cavalos, gado, servos fiéis, um poder feudal seguro de si. Hoje, o filho mais velho tenta salvar a carne que resta dos ossos de uma fortuna arruinada. O pai desperdiçou tudo nos casinos da costa, a apostar teimosamente no número dezessete; agora ele está morto. Restam Francisco, cheio de rancor, "nascido sem alma", ansioso por saquear seus irmãos e irmãs e expulsá-los da propriedade em ruínas; Beatriz cujos maridos a abandonaram, sozinha com uma criança não muito talentosa; Ana vagabundeando como uma assombração por Lisboa em busca de drogas que a matam; João, o consolo de sua mãe, implorando por um pouco de amor dos rapazes no Parque Eduardo VII, onde contacta com "a doença" ("Quanto levas menino?" ). E era uma vez Rita, a quem um cancro levou ainda muito jovem. Finalmente, aqui está a mãe, cuja morte é esperada. E Mercília, a criada sem idade, fruto de amores auxiliares e ancestrais, que Francisco se prepara para enxotar colocando-a num autocarro rumo a um lugar qualquer a partir das seis da tarde. Bem como a um bastardo que surge mais tarde neste concerto de vozes.

Essas vozes que são, talvez, uma única, pois, como em todos os romances de Lobo Antunes, elas aparecem como variações de um mesmo canto que se vão cruzando, respondendo, contradizendo e, às vezes, emaranhando-se , e que se rebelam contra "aquele que faz o livro" quem as obriga a agir, falar e sentir contra a sua vontade: "[...] serei uma criatura a sério ou uma invenção de quem escreve, uma marioneta, se calhar pensou 
– Preciso de uma mulher aqui 
e construi-me capítulo a capítulo aborrecendo-se comigo, talvez esperasse outra pessoa, palavras que o contentassem mais [... ]".

Se o autor "construiu" as suas criaturas por sua vontade, também edificou a estrutura de acordo com as regras da tourada, em cinco partes – “Tércio de Capote”, “Tércio de Varas”, “Tércio de Bandarilhas”, “A Faena” e “A Sorte Suprema” – emolduradas pela voz de Beatriz, “Antes da corrida" e "Depois da corrida”. Quatro vozes compartilham cada uma dessas partes, e outras se vão misturando, num queixume desafinado, o canto eterno do desamor e da solidão. 

Crianças perdidas
Lobo Antunes foi médico psiquiatra e conhece o ponto em que os homens são todos iguais, filhos perdidos no medo. Faz a interpretação dessa experiência num pico estreito entre o sublime e o cliché. No auge da sua obra abole a fronteira entre as coisas, os animais, as plantas e as pessoas, tudo se afogando na mesma angústia, soltando "gritos silenciosos" antes de desaparecer. Os corpos desfazem-se, as mãos já não agarram coisa alguma, perdem os dedos, aparecidos sob o olhar entediado de um "Deus mesquinho".

Os cavalos misteriosos do título provêem de um antigo cantar alentejano. É a sua sombra que Beatriz vê sobre o mar enquanto é deflorada sem ternura num carro à beira-mar. Este refrão magnífico, selvagem, de galope sobre os juncos, ritma a melopeia de que os leitores de Lobo Antunes reconhecem a cadência (actualmente muito bem traduzida por Dominique Nedellec): frases quebradas por linhas curtas, sem verbos, deslizando de uma voz a outra, perguntas sem resposta, regressos posteriores, recorrência a palavras padrão. É necessário deixar-se ir nesse enrolar das ondas sem o qual a exasperação espia diante tanto da tristeza acumulada, tanto das febres, das fotos dos antepassados, da água e das lágrimas (“e eu ao ponto de chover igualmente”). Mas se experimentada, ela traga-nos até ao mais profundo.

por Isabelle Rüf
em Les Temps

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2. Artigo publicado em Le Figaro

As sombras furtivas de António Lobo Antunes

Romance polifónico hipnotizante sobre a morte de uma mãe em Lisboa no dia de Páscoa.

Como há três anos, quando do nosso último encontro, tomou lugar no mesmo sofá verde do hotel na rua Vaneau, onde já é habitual e onde os seus livros entronizam uma vitrina no salão. Aos 71 anos de idade, António Lobo Antunes continua a não querer entrar nas regras de uma entrevista normal. "Por que me fazem perguntas? Eu não li os meus livros, apenas os escrevi. "

António Lobo Antunes: «Por que me fazem perguntas? Eu não li os meus livros, apenas os escrevi» - foto de François Bouchon / Le Figaro
Durante a conversa informal entre um cigarro na calçada e a chegada de um velho amigo que veio para almoçar com ele, deixa aqui e ali um pouco de si. Sobre este romance com um título tão antuniano, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, afirma: “Certo dia assisti a uma tourada em Barcelona, tinha eu sete anos. Fiquei com uma impressão ... vomitei, e uma marca foi permanecendo em mim”. Mais de seis décadas se passaram, mas para falar de quatro irmãos que prestam contas perante a morte da mãe, num Domingo de Páscoa em Lisboa, foi na dramaturgia tauromáquica que se baseou. Sete partes principais de quatro capítulos, em que os principais actores tomam a palavra, compõem este romance. E dentro deste quadro se desenrola a magia de um estilo como nenhum outro.

Após uma dezena de títulos, Lobo Antunes utiliza a forma de um puzzle feito de vozes que entre si se alternam, gritam, perdendo-se no limbo das memórias e que se apegam a motivos recorrentes. Francisco, João, Ana, Beatriz, quatro filhos, cada um vivendo à sua maneira a agonia da mãe. Até à sua morte (estocada final), cada um deixa falar as suas emoções, confessando a sua dor e gritando a sua raiva. Ou balbuciam, incapazes de dizer as coisas. A família está em destroços, arruinada por causa do pai. A doença e as neuroses corroem-na. Chove sem cessar, mas o escritor, que se faz convidado dentro da história, demiurgo provocador, adverte: "Não é a chuva que cai (...) São pessoas, os seus episódios, memórias, o sótão empoeirado que representa uma existência ".

João, o filho favorito, o filho maldito, paga com a carne a procura de rapazes do parque. Ana, por sua vez, não deixou o terreno baldio onde a esperam os traficantes e a sua próxima dose. Francisco amaldiçoa todos, pais, irmãos, culpados segundo ele por ter sido lesado, menosprezado. E Beatriz, pobre Beatriz em pânico, ela que continua a ver a sombra que os cavalos fazem no mar.

Como ex-psiquiatra, Lobo Antunes conhece as neuroses, as cismas infinitas, a impossibilidade de dizer e fazer. Ele conhece "o que nos mói, sem ninguém saber, o que nos custa sem que ninguém perceba e não me refiro aos nossos segredos encobertos, nem à nossa miséria consciente, todas esses bonecos mortos, todos esses olhos que nos esmagam de censura."

Ler a prosa do maior escritor português - que é também um dos melhores escritores do seu tempo - trazida pela tradução magnífica de Dominique Nedellec, é uma rara experiência, perturbadora e fascinante ao mesmo tempo. Como um sonho revelador. Como entrar nas sombras de Faulkner ou Virginia Woolf.

por Bruno Corty
16.04.2014

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3. Artigo publicado em Télérama


Lisboa, num dia chuvoso. Uma família analisa o auge do seu esplendor passado, e se desmorona de neurose. Uma obra electrizante.


foto Télérama
Ler António Lobo Antunes é como fazer um desporto radical, uma experiência ao limite cada vez mais emocionante. Apegamos-nos a cada palavra, como às grades instáveis de uma ponte improvisada, esticada entre dois picos. Avançamos passo a passo, sobre o vazio, sem um arnês narrativo, sem personagens de segurança. Tudo o que temos é apenas um relógio para nos aguentarmos. Em breve serão seis horas da tarde, e essa perspectiva parece tranquilizar as personagens, se é que podemos chamá-las assim, porque são mortos-vivos, entre duas águas, entre duas memórias, entre dois medos, e a sua noção de tempo é divergente da nossa.

A hora das três da tarde, a pior das horas, insuportável de tão triste, desde sempre lida no ângulo recto dos ponteiros, eis que se deixa discorrer numa verticalidade do tempo, num domingo de Páscoa, pelas agulhas da chuva. "(Se fosse livre para escrever sobre a chuva, vocês entenderiam tudo)", solta o autor entre parênteses, dando assim uma pista para avançar no seu romance: é preciso ver todas as gotas para se passar entre elas, colher todas as palavras para reconstruir os discursos. António Lobo Antunes gosta de conjugar o verbo chover com vivas pessoas: os seres chovem em cada virar de página, chovem de suor, de febre, de lágrimas. Quem são os habitantes deste livro feito de teias? Membros de uma mesma família, em diferentes regiões de uma nodosa árvore genealógica, alguns sob a terra, comendo raízes, outros sobre ramos frágeis quase separados do tronco.

Não têm nomes, não conseguem impôr a sua identidade, esmagados sob o peso das neuroses familiares. Todos têm um pensamento fragmentado, sofrendo entre a renúncia e a súplica, balbuciando como recém-nascidos ou moribundos. Apegam-se a imagens obsessivas, um travessão de cabelo ornado de pequenas rosas, um carrinho de criança no lixo, uma fruteira cheia de maçãs, a asa quebrada de um pássaro, e essas ideias fixas são centelhas na escrita eléctrica de António Lobo Antunes, pontos de luz brilhante dentro de uma verborreia inquieta. Muitos se refugiam no silêncio, cismarentos, para se tornarem estranhos a si próprios, desligados dos seus corpos, ao ponto de darem a mão a si mesmos, e ver os seus próprios dedos em segredo: "Parecem os meus, mas são os meus ? Eu sou um, eu sou dois, encontro-me a mim mesmo por caridade ... " Alguns, por fim, resistem contra o seu destino, e apanham António Lobo Antunes ao virar das páginas. Uma praga contra esse escritor que "salta frases sem me deixar chegar à seguinte e afoga num tanque gatinhos que eu sei que é para se livrar de mim", e um outro alerta: "Isto é um livro ? Se for um livro, eu não falo. " Em cólera contra o demiurgo, que os empurra para fora de si mesmos, quando tanto querem se refugiar, ocultar, desaparecer para sempre. Com raiva a esse mistificador que lhes corta o pio quando querem gritar. Vá embora, volte. Ajude-me, deixe-me em paz ...

O autor baseia-se nas suas memórias de ex-psiquiatra para alimentar o seu trabalho centrado no socorro. Como proteger os outros? Como se proteger dos outros? Entre estas duas perguntas, ele dança, recolhe-se, eleva-se e faz cantar o silêncio, porque "quase tudo acontece em silêncio, na vida, até mesmo os gritos."

por Marine Landrot
12.04.2014
Télérama n° 3352

[os três artigos foram traduzidos do francês por Joana de Paulo Diniz]

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